Categoria: Crônicas

16.09.09

As pequenas coisas em seus pequenos lugares

23:34:39, Categorias: Comportamento, Cotidiano, Crônicas  

Um amigo se foi.
Não era íntimo, mas era íntimo dos íntimos.
Não era íntimo, mas já havíamos compartilhado das mesmas baladas, o que acaba criando aquela intimidade rápida e louca de pessoas que se unem em uma rodada de dança, música, bebidinhas e muito riso. Aquelas noites que geram piadas internas que duram o ano inteiro. Esteve aqui em casa.

E antes disso... Antes disso ele já era o menino da vídeo-locadora...
O menino da vídeo-locadora com um gosto cinematográfico bem diferente do meu. Eu nunca deixava ele me dar muitas indicações. Mas ele sempre queria dar suas dicas e falava muito, às vezes, contava mais dos filmes do que eu gostaria de saber antes de assisti-los. O menino da vídeo-locadora com cabelos cacheados. O único alto e magro da vídeo-locadora. O menino da vídeo-locadora que cursava psicologia.

Para mim ele era isso, mas era muito mais para muito mais gente. Ele era tanta coisa. E hoje todas essas coisas estão muito mais cheias de significados. Ele era tanta coisa. E se foi.

Daí olho ao meu redor, vejo os que estão por aqui e percebo que às vezes coisas tão pequenas me afastam deles. Vale a pena? Vale a pena a irritação, vale a pena o orgulho, vale a pena olhar para o que deixaram de fazer por mim? Vale a pena desconfiar e acreditar sempre que as pessoas tem as piores intenções possíveis? Não vale. Não vale, porque pessoas são falhas e diferentes. E esse "diferente" não quer dizer melhor ou pior, é apenas diferente. E da mesma forma que é diferente o jeito de comer, de falar, de andar, é diferente também o jeito de amar, de valorizar e de demonstrar. É diferente o que machuca e o que alegra. Mas a amizade está ali, talvez mais forte do que você imagine. E um amigo que se vai, coloca as pequenas coisas e as pequenas diferenças em seus devidos lugares. Lugares minúsculos, lugares de pequenas coisas, pequenos lugares que deveriam receber apenas um breve olhar míope de nossa parte.

Permalink 366 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (14)

05.09.08

O tal do nu artístico

10:05:00, Categorias: Beleza, Crônicas  

Lá pelos idos da década de 80 e início dos anos 90, as atrizes que posavam para a Playboy justificavam-se dizendo que as fotos eram artísticas. É um "nu artístico", diziam altivamente. Dava a impressão que estavam posando para um Botticelli. Ninguém falava em dinheiro. Contavam aos quatro ventos que aceitaram tirar a roupa porque era um trabalho bonito e vestiam um personagem. Era mais uma oportunidade de interpretar, afinal.

Não sei ao certo quem começou essa moda de dizer que posou nua porque a grana era boa, mas creio que foi Adriane Galisteu. Lembro de algumas pessoas elogiando, "isso aí, ela tem personalidade, falou que fez por dinheiro e pronto". A partir daí virou clichê. Todo mundo posa nua para garantir um pé de meia, porque o dinheiro é bom, porque a proposta foi financeiramente irrecusável. A frase "é uma boa grana" substituiu o "é um nu artístico" e agora já começo a bocejar quando vejo uma capa de Playboy falando que fez as fotos por dinheiro mesmo, como se estivesse fazendo uma confissão inédita e revolucionária.

Revolucionário mesmo seria aquela que dissesse "posei pelada porque eu quis, tava super a fim de mostrar a perseguida e faria mesmo se fosse de graça"! Revolucionário e sincero porque qual é a mulher que nunca quis ser capa de revista, alvo de todas as atenções e ficar maravilhosa em fotos feitas por um fotógrafo que entende do assunto? Claro que não são todas que, por conta desse desejo, aceitariam se expor nua em uma revista, mas umas fotos chiquérrimas e photoshopadas só para guardar ou para mostrar para as amigas e o namorido, você não gostaria de ter? Fiz essa pergunta a algumas amigas e muitas delas disseram que nudez total não fariam mesmo se fosse para guardar as fotos em casa. Mas a maioria concordou que toparia posar semi-nua.

Se bem que isso não vem tanto ao caso porque a questão aqui é: quem tira a roupa pra sair em uma revista que vai circular pelo país inteiro pode até exigir um bom dinheiro, mas que está a fim de fazer, está! Ora, ou vai dizer que estavam todas passando fome e precisavam desesperadamente daquela "grana maravilhosa"? Não, né! Acharia muito mais digno se dissessem que posaram porque o dinheiro era tentador, mas também porque estavam super a fim de fazer, de ter fotos lindas, por causa da publicidade, para aumentar o cachê em eventos, comerciais e desfiles, enfim, para chamar a atenção. Claro que as atrizes que fazem Playboy pensam em todas essas alternativas.

Pois bem, mas a história clássica de posar por grana não pode ser contada quando se trata da VIP. A revista VIP não paga cachê nem para as capas. A última edição trouxe Giovana Antonelli no ensaio principal. Giovana nunca havia feito ensaios sensuais e está com 32 anos. Quando perguntada porque resolveu fazer o ensaio agora, neste momento de sua vida, ela conseguiu dar uma resposta que supera até o papo do nu artístico dos anos 80: "aconteceu muito naturalmente. Estou plena, sou mãe, a carreira anda maravilhosa". Como assim, Bial? Por "estou plena" ela quis dizer "estou com 32 e é melhor fazer sensual agora antes que caia tudo?" Não que depois dos 32 tudo caia, mas ai, essas respostinhas bonitinhas cansam. Você acorda um belo dia de manhã, olha para seu filhinho lindo e pensa, "ó, estou tão plena, já sou mãe… Está na hora de fazer VIP". Gente, vamos dizer com todas as letras: sou vaidosa, quero aparecer, quero que falem de mim, é uma jogada de marketing, quero ser capa da revista, quero ser a bola da vez! Mas não, imagina… Desnudar o corpo, pode. O ego, nem pensar!

Outras coisas:

Agora tenho um selinho, vocês viram? Quem quiser fazer uma propaganda pro Heresia Loira e ainda deixar o seu blog mais bonito com o selinho feito pelo De França, meu amigo de twitter, é só copiar o código em HTML e colar na barra lateral do seu blog.

Um agradecimento especial à Samira que me passou este outro selo dizendo que meu blog é Saboroso. Valeu querida!
Meu texto sobre o filme A Outra, com Sacarlett Johansson e Natalie Portman, já está no Amálgama. Acesse e leia Perdendo a cabeça com as irmãs Bolena
Permalink 744 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (18)

18.08.08

Sem tempo e sem estômago para saber sobre tudo

23:58:00, Categorias: Crônicas  
O que uma doutora em Lingüística, uma jovem publicitária e um escritor dado a relacionamentos abertos têm em comum? Todos estão cansados. Cansados de ter que saber de "tudo ao mesmo tempo agora", cansados da obrigação de opinar sobre qualquer tema, cansados de ver o seu tempo sendo empregado de uma forma que parece muito bem sucedida, mas que no frigir dos ovos pode ser uma grande perda de tempo.
Muitos textos que leio ultimamente, falam disso, de como estamos ficando escravos da informação em tempo real, do apego às últimas tecnologias, da obrigação de conhecer tudo que está se produzindo em todas as áreas. Cansa mesmo. Cansa porque é impossível, mas vemos que muitos tentam. E ao ver os outros tentando, cansamos mais ainda. O twitter, por exemplo: é um prato cheio para quem quer se perder em informações que não chegam a ser inúteis, mas que podem fazer você passar um dia inteiro ocupado sem produzir absolutamente nada.
Mais do que nunca, é preciso ter foco. Logo, logo vão distribuir Ritalina de graça nos postos de saúde porque nem é preciso ser hiperativo ou bipolar para se perder em meio a avalanche de informações. Não dá para saber de tudo, estar atento a tudo, sem perder a sanidade no meio do caminho. Em algum momento você vai perder a sua. Vai ter enjôos ao sentar diante da tela do computador e sua cabeça vai doer só de pensar em conferir os e-mails. Mas você seguirá, finalmente sem a pretensão de dominar todos os assuntos, mas tentando não abandonar o barco completamente. Tentando fazer com que ele continue flutuando ao leve sabor do vento, enquanto seus remos repousam num canto qualquer.
É isso que este texto está fazendo pelo meu blog hoje: deixando-o seguir sem muita direção até que meus braços estejam fortes novamente para remar.
Enquanto isso, deixo você navegando com a letra de Arnaldo Antunes. Não fala exatamente sobre o assunto que tratei. Não declaradamente. Mas ao escutá-la fiquei com uma sensação parecida a que senti quando li os três textos que recomendo no início. A sensação de "pra quê correr tanto? pra quê levar tudo tão a sério? pra quê querer ser sempre a melhor, mais esperta, mais inteligente, mais bem informada? pra quê?"
Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você.

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Permalink 510 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (15)

09.07.08

De onde vêm as cuecas?

19:50:00, Categorias: Crônicas  

Usamos dezenas de objetos ao longo do dia e nem paramos para pensar como e onde eles são feitos, quem os fabrica, por que foram inventados. Você já parou para pensar que em algum lugar, neste exato instante, há alguém fabricando embalagens de shampoo, prendedores de roupa, cabides, pilhas, espirais para cadernos? (Sim, essas coisinhas não "se fazem" sozinhas. Existe até gente que é rica só por conta de fábricas de espirais para cadernos, veja só!) Objetos que nos são úteis, mas raramente olhamos para eles e pensamos que existe gente que ganha a vida produzindo aquele objeto, ou parte dele, e que há uma história por trás de todas essas coisas prosaicas que participam da nossa vida. Se raramente paramos para pensar nisso, tanto mais raro seria irmos à busca da história que um determinado objeto possa contar.

Mas como nesse mundo sempre há algum aventureiro disposto a colocar em prática as mais mirabolantes idéias, certo escritor neozelandês, chamado Joe Benett , resolveu se perguntar qual seria a história escondida nas cuecas que ele comprou em uma loja na Nova Zelândia. Não contente em apenas meditar sobre o assunto, ele decidiu viajar até a China (local de fabricação das peças que havia comprado) para conhecer todo o processo de produção de sua roupa íntima. Joe esteve em Xangai, na Tailândia e no oeste da China, nas plantações de algodão. Conheceu centenas de pessoas responsáveis pela fabricação, distribuição e exportação de suas cuecas e dessa saga, voilà!, nasceu um livro intitulado Where Underpants Come From (De onde vêm as cuecas).
Joe afirma que teve curiosidade de saber como eram fabricadas as cuecas porque acredita que no Ocidente as pessoas não sabem explicar de onde vêm as riquezas e bens dos quais usufruem. Ele tem razão. Vivemos alheios às origens da maioria das "ferramentas" que utilizamos em nossas casas, por exemplo. Gostamos de falar da humanidade generalizando todas as conquistas e descobertas do homem. "Nós descobrimos o fogo", "nós chegamos à Lua", "nós dominamos as tecnologias". Mas a verdade é que NÓS pouco ou nada participamos dessas conquistas. Na entrevista ele diz que se a eletricidade parasse de ser gerada não seria ele quem a faria funcionar outra vez. Pois eu respondo, nem eu! A maioria de nossas conquistas está nos campos dos pequenos desafios do cotidiano: pagar as contas, fazer supermercado, arrumar um emprego, ganhar um aumento, ensinar um filho a andar de bicicleta, tirar uma boa nota na monografia, conseguir perder cinco quilos, aprender outro idioma.

Por isso que temos que valorizar muito os "caras" que enfrentaram oceanos para desbravar novas terras ou aqueles que dedicam suas vidas em cálculos e engenharias para conhecer o Universo; os cientistas com suas pesquisas em busca da cura da melhoria da qualidade de vida do ser humano; os "Darwins" do mundo que se embrenham por ilhas inóspitas para fazer florescer o conhecimento humano; os artistas, que de tão dedicados em captar a essência da beleza e da forma acabam por deixar uns parafusos no meio do caminho; os escritores obstinados que se arriscam a perder meses, às vezes anos, para pôr uma história no papel sem ao menos saber se terão leitores.

Somos desbravadores do dia-a-dia, e normalmente não gostamos de pessoas obcecadas por qualquer coisa, mas temos que agradecer aos milhares de cabeças-duras obcecados que tornaram nossa vida muito mais fácil hoje!

A Bia me indicou a reportagem que se transformou neste post. Visitem a Bia!

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Permalink 614 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (0)

26.05.08

Escondam suas vergonhas!

19:09:00, Categorias: Crônicas  

Por quê? Por quê???

POR QUÊÊÊ????

Por que algumas mulheres acham que o fato de estarem amamentando as libera para sair colocando os peitos pra fora em qualquer lugar público???

Desculpem-me os defensores do aleitamento materno e da suposta beleza de uma mulher alimentando o filho com o leite que sai de seu próprio corpo… Mas dar de mamar na frente dos outros, de estranhos e em público é nojento!

E não venham argumentar dizendo que é algo muito natural… Sexo também é muito natural. As necessidades fisiológicas também. Por acaso, você vai fazer na rua?

Tudo bem, os adultos podem comer em público. Mas a alimentação de um adulto não implica expor partes íntimas do corpo de outra pessoa.

Por que as mães insistem em dar de mamar na frente dos outros? Eu fico constrangida! Se estou visitando uma amiga ou parente que acabou de ganhar bebê e ela começa a amamentar enquanto conversa comigo eu tento desviar o olhar, disfarço que vou dar mais uma olhada no quartinho do neném. Ora, amamentar é uma coisa íntima! Tudo bem, eu não acho bonito, mas um monte de gente acha. Isso não vem ao caso. Mas que é algo muito íntimo, isso é. Deve ser feito reservadamente, a não ser que seja impossível!

Outro dia no supermercado não acreditei quando vi: a mulher empurrava o carrinho e o menino (sentado naquela cadeirinha do carrinho de mercado) ia mamando enquanto isso. Uma criança grandinha que já come feijão com arroz, com certeza, e que se deixasse de mamar naquela hora não iria morrer de fome! E de vez em quando ele parava de sugar o peito e a mãe ainda demorava para guardar aquela "coisa" fornecedora de leite.

Ai, acho feio, anti-higiênico. Até desrespeitoso tanto para com os outros, quanto para com ela mesma!

E, se for realmente necessário, fazê-lo em público, custa botar um paninho por cima???
Você, mamãe, protege a sua privacidade e protege meus olhos também, de ver tal cena.

Não quero sair na rua e ser obrigada a ver peitos nus e mamilos gigantes de mulheres dando de mamar.

Um pouco de recato, please!
na foto, Preta Gil e Hebe aderindo à campanha em prol do aleitamento materno: do blog Pintos no Lixo

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Permalink 400 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (2)

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Quem?

Juliana Dacoregio
Jornalista, leitora voraz, escritora, cinéfila.
Observadora, vaidosa, passional, sensível.
Desertora da fé evangélica, mas cheia de fé em si mesma.
Lágrimas abundantes e gargalhadas sinceras.
Leal aos amigos e ligada à família.
Cheia de opiniões e de capacidade de analisá-las e transformá-las.
Hábitos simples e pensamentos complexos. Ou vice-versa.

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