Eu não amo-adoro a Martha Medeiros, mas tenho livros dela em minha estante, já os li e gostei. Quem adora os textos dela é minha mãe. E não tiro a razão dela. São textos não muito densos, mas também estão longe de serem uma bobagem água-com-açúcar. Um fato que não tem nada a ver, mas acaba contando como um pontinho a favor de nossa admiração por ela é o fato de ela ser gaúcha, portanto nossa vizinha de estado. Um sentimento bem bairrista, mas enfim...
Por conta desses fatores, quando descobri que Martha tinha um blog, assinei o feed. Às vezes leio, às vezes comento, às vezes passa batido. Mas dessa vez não pude deixar de ficar admirada e chateada quando li o seguinte:
“Um jornalista me pediu para escrever um rápido depoimento sobre o que eu desejo pra 2009. Estou pensando em mandar algo mais ou menos assim:
“Que as pessoas se sintam satisfeitas com suas pequenas vitórias sem que seja preciso documentar isso em foto, orkut, you tube, blogs e sei lá onde. Que a privacidade volte a ter algum valor(...)”
Aahh, Martinha... Como diria o Magro do Bonfa, “não me faz te pegar nojo”! O que você tem contra o fato de as pessoas documentarem suas pequenas vitórias em redes sociais, blogs ou sites? Não são eles uma forma de as pessoas se comunicarem e se relacionarem? Os seres humanos têm necessidade vital de relacionar-se. Não é possível que você ainda esteja entre aqueles que não reconhecem que a Internet pode ser a ponte para o surgimento de relacionamentos sinceros e intensos. Acho que você não é dessa opinião, afinal, você mantém um blog!
Qual o problema de documentar pequenas vitórias? Talvez haja pessoas tão satisfeitas, tão radiantes com suas pequenas vitórias, que elas queiram contar isso ao máximo de gente possível! Você - como escritora - deve conhecer muito bem essa ânsia de se mostrar, de contar uma história, de documentar fatos e fazer dos próprios pensamentos inspiração para outros seres humanos. Sei que seus escritos não são ficções totais. Quem conhece um pouco de sua biografia, quem acompanha seus livros desde o início de sua carreira, sabe que você coloca muito de você mesma em tudo que escreve. Então, por que levantar assim a bandeira da privacidade? Não me diga que você acredita que só aqueles que têm a oportunidade de publicar livros por uma grande editora é que têm o direito de exporem suas vidas, seus pensamentos, suas vitórias e derrotas? Eu acredito que você não pense assim.
Qual a diferença entre uma cabeleireira que escreve textos ótimos em um blog e você? Talvez a única diferença seja a oportunidade que você teve de ser publicada e ela não! Eu não desejo que ela ou muitos outros por aí parem de documentar suas vitórias, pensamentos e sentimentos em blogs, fotologs ou quaisquer outras formas de publicação.
Se todos resolverem levar a ferro e fogo a tal da “importância da privacidade” quantos textos deliciosos deixaremos de ler? Talvez, quantos bons artistas deixariam de ser descobertos? E mesmo aqueles que não têm valor artístico algum podem também ter o desejo de contar sua história, de deixar algum registro. Qual o problema?
Chega de enxergar a internet como vilã, como usurpadora da vida real. Minha vida está muito mais completa depois que comecei a mostrar-me em meu blog! Porque, você deve saber disso, quem tem esse bicho escritor dentro de si necessita de um meio para botá-lo para fora. E o blog é um meio tão válido quanto qualquer outro.
Eu sei que há exageros. Eu sei que há muito lixo por aí. Mas ainda prefiro que as pessoas continuem documentando suas vidas, seja em fotologs, orkuts, blogs ou livros da L&PM. E você, Martha? Vai parar de documentar sua vida em seu blog no próximo ano?

Juliana Dacoregio