
Não terei a menor pretensão de separar o artista de sua obra: Fal Azevedo é a autora e a história. Nesse caso, a história se chama “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite”. Fal é o tipo de pessoa que sofre, conta o que sofre, mas sem querer, nos conforta no seu sofrimento. Não me entenda mal, não é o pensamento “antes ela do que eu” o que nos deixa confortados. É que ao expressar suas dores (ou as dores de sua protagonista) ela o faz de uma forma esperançosa. Mais uma vez é bom esclarecer: Fal não é uma caricatura do pensamento positivo, tampouco escreve auto-ajuda.
Em “Minúsculos Assassinatos” ela apenas narra a trajetória de uma mulher que perdeu muitas coisas ao longo da vida, mas mesmo assim continuou. Não como se fosse fácil. Não cheia de entusiasmo e negação inconsciente das tragédias da existência. Apenas continuou. Um dia após o outro, após o outro, após o outro. “Só hoje vou viver sem surtar”, parafraseando o mantra dos Alcoólatras Anônimos. Um dia uma decisão, outro dia mudar para a praia, alugar uma casa, trabalhar um tanto, conversar muito com os amigos por e-mails, trocar receitas... E como tantos de nós, refugiar-se em uma cozinha aconchegante, preparando comidinhas e comendo, como quem dá e recebe carinho.
E no meio de toda essa rotina trivial estão as memórias dessa mulher (A personagem? A Fal?) cheia de perdas e recomeços.
“Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite” chegou até mim num período difícil, em que eu estava onde não queria estar, percebendo o que eu não queria perceber e envolta em dilemas que na época pareciam insolúveis. Então ali, nos copos de leite, nas receitinhas, na cozinha e nos e-mails do alter-ego de Fal eu mergulhei. Lendo para fugir, me encantei.
Antes de comprar o livro eu já sabia que Fal Azevedo era blogueira. Fiquei sabendo de sua existência na entrevista que ela concedeu ao Amálgama. Visitei o blog, dei umas passeadas pelos posts, mas sem me ater a nada. Só que depois de ler o livro não resisti ao ímpeto de parabenizá-la e tentar um contato mais próximo. E que surpresa boa constatar o quanto ela é acessível, doce e como valoriza cada leitor e agradece cada elogio com alegria e humildade.
Fal é um sorriso em forma de pessoa. Um sorriso como aqueles do tipo sincero que descrevi aqui. E o seu “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite” é uma obra confessional que recomendo a todos que tem a tal da alma poética e também àqueles que precisam se lembrar que sem ternura e um pouquinho de auto-indulgência a vida não tem graça nenhuma.
PS-A imagem com os gatinhos e o livro é de LadyBugBrasil.
Primeiro achei o Murilo um bocó e a Julia uma sem noção parasita. Mas, pera aí... Quem me contou a história toda foi Carla, a mulher de Murilo que é amicíssimo de Julia desde os tempos de colégio. Carla casou aos 18 anos por impulso. Talvez mais para sair de casa do que por vontade de viver com Murilo. Sabe quando a guria encasqueta de provar pra todo mundo que pode se virar sozinha, ser uma ótima dona de casa, que não é filhinha de papai coisa nenhuma, que não precisa viver na barra da saia da mãe? Sabe quando para fazer tudo isso ela decide-se pelo caminho mais arcaico, o casamento? Foi mais ou menos assim com Carla.
Então, como vou confiar numa mulher dessas quando ela faz a caveira da melhor amiga do marido? Ainda mais quando a amiga do marido é uma artista, com todos os encantos e os dramas que essa condição traz. Julia é um pouco parasita, sim, mas, vejam bem, ela cuida da filha de Carla para que Carla possa ir à faculdade! Ela gasta horrores na loja em que Carla trabalha para que Carla possa ter uma polpuda comissão. Mas Carla não perdoa. Só perdoa porque precisa da babá e mesmo assim faz pouco do talento, dos dramas e da profundidade de Julia.
Ora, Julia é uma artista, confusa, volátil, insegura e ególatra como toda artista. (As exceções só confirmam a regra. Quando se trata de artistas as generalizações se aplicam muito bem. Artistas são caricatos por natureza.) Já Carla... Qual o talento de Carla? Vender roupas, estudar, cuidar de marido e de filho. Quer dizer, cuidar do marido, mas falar mal dele o tempo todo. Carla não consegue nem entender uma conversa mais filosófica, Carla acha que cama não é lugar para se discutir religião (cama é lugar para se debater qualquer coisa quando se está apaixonado. Quer momento mais íntimo do que um casal nu filosofando sobre cultura, religiosidade, sonhos e história de vida depois de transar? Desculpe, Carla, mas eu acho lindo e o Murilo pode até ser meio chato, mas não havia motivo para você ficar brava daquele jeito na lua-de-mel!). E Carla se preocupa com o caráter do pai da filha dela por causa de uma conversa sobre suicídio que ele teve lá na adolescência! Murilo era adolescente e metido a intelectualóide, só tinha 15 anos, ora bolas... E no fim das contas ele não incentivou suicídio nenhum (talvez sem querer tenha até ajudado a evitar, se bem que Libeca não ia se matar coisa nenhuma, falassem o que falassem), mas Carla não perdoa.
Porque Carla é a típica esposa arrependida que casou pelos motivos errados. Mas quando ela lhe contar a história toda talvez você discorde de mim. Não sei porque me identifiquei tanto com Carla num primeiro momento se eu, definitivamente, estou muito mais para Julia nessa história.
Quer saber do que estou falando?
Carla, Murilo e Julia são os personagens de Mulher de Um Homem Só, o novo livro do ótimo escritor e blogueiro Alex Castro. Um livro cujo único defeito é não ter mais umas cem páginas contando mais e mais da história desse triângulo amoroso.
Obs.: Alex Castro tem um dos melhores textos argumentativos que já li e as opiniões dele são muito parecidas com as minhas em diversos assuntos. Foi um dos primeiros blogs que comecei a ler com assiduidade e, mesmo ele blogando desde 2002, creio que já li quase todos os posts porque cada vez que entrava no blog dele ficava horas lendo os posts novos e os antigos, não só no LLL, como também no Sobre Sites. Sou fã mesmo!
Aproveitando que em pleno Dia Internacional do Rock`n Roll o Amálgama está completando 1 aninho de vida, vou fazer uma propagandinha básica de meu texto mais recente por lá.
Escrevi sobre Buceta (o livro) lá no Amálgama.
Apesar do nome, não é livro de sacanagem, não, viu?
E ele vem com uma sobre-capa discreta para você poder ler por aí sem constrangimentos.


Leia também:
Blog de Biajoni, autor de Buceta
Entrevista que fiz com o autor
Compre Buceta: é baratinho, 15 reais!
Terminei a leitura de Alma Sobrevivente, do escritor evangélico Philip Yancey. Fazia tempos que não lia algo declaradamente cristão, mas vindo de alguém que escreveu Decepcionados com Deus, pode-se esperar algo mais pensante do que a média das publicações evangélicas.
Já conhecia Philip Yancey, do Perguntas que Precisam de Respostas, que li no período mais "xiita" de meu cristianismo. O livro é uma coletânea de artigos publicados na revista Christianity Today. Yancey, mesmo declarando sua crença nas bases do cristianismo, tem coragem de fazer perguntas que a maioria dos crentes não se permite fazer. Por exemplo...
Por que tão poucos cristãos demonstram alegria? Uma pessoa alegre seria mais parecida com a Madre Teresa ou com a Madonna?
Como pode uma religião que inclui um texto como Cantares de Salomão entre seus escritos sagrados ser conhecida como inimiga do sexo?
Como podem os evangelistas da televisão promover com tanta animação a teologia da prosperidade em um mundo cheio de injustiça e sofrimento como o nosso?
Na fase em que eu estava - de jogar fora qualquer objeto relacionado à Disney, queimar livros do Paulo Coelho (não pela qualidade literária, o que seria compreensível, mas por tratar de temas relativos a pseudo-bruxaria) e queimar fotos de baladas antigas ("as coisas velhas se passaram" e eu queria livrar-me das lembranças do pecado) - Yancey apareceu para dar uma arejada na minha mente que já estava bem estreita e alienada.
Então, Philip Yancey foi responsável por atiçar a semente questionadora, que sempre existiu em mim, e me fazer perceber que eu estava agindo como um robô. Talvez lá tenha começado o início de minha desconversão ou do meu abrir de olhos.
Dessa vez, com Alma Sobrevivente, ele me fez voltar a ter algum respeito por alguns tipos de evangélicos. No livro, que tem o subtítulo de Sou Cristão, Apesar da Igreja, o autor fala de pessoas que foram exemplos de fé para ele. A boa notícia é que ele não cita só evangélicos. Entre os nomes que fizeram com que ele compreendesse melhor a mensagem de amor do cristianismo estão Gandhi, Dostoievski, Tolstoi e a escritora católica Annie Dillard. Philip Yancey não escolhe seus exemplos de vida por causa de seus currículos de santidade, mas baseado no quanto de amor e compreensão aquelas pessoas transmitiram em suas vidas. Apesar de continuar não crendo na Bíblia ou na salvação da alma, posso afirmar que fiz um pouco as pazes com o cristianismo ao ler Alma Sobrevivente. Foi um livro que me fez lembrar que, independente da cruz de Cristo ou da remissão dos pecados, a mensagem cristã é uma mensagem de amor, humildade, compreensão e paz.
Yancey é um autor que faz com que cristãos radicais não engulam qualquer fórmula pronta vinda dos púlpitos e, ao mesmo tempo, mostra aos decepcionados com o cristianismo que existe vida inteligente no meio evangélico.
Pouca... Mas existe.
(Obs.: Muito obrigada a Pavarini, outro desses exemplos de vida cristã inteligente, por me presentear com um exemplar de Alma Sobrevivente.)
Leonardo Pastor, do Vísceras Literárias, publicou seus "hábitos de leitor" já há algum tempo. Fiquei de publicar os meus, mas fui deixando pra depois, já que não tenho muitas regras definidas com relação aos meus momentos de leitura. Mas como meus últimos posts no Amálgama foram sobre literatura: uma resenha sobre o livro Os 10 pecados de Paulo Coelho e a entrevista com Luiz Biajoni, autor de Sexo Anal e Buceta, resolvi falar de livros e leitura por aqui também.
Vamos aos hábitos:
*Sempre escrevo meu nome e a data em que comecei a leitura na primeira página do livro.
*Não gosto de emprestar meus livros. Até empresto para algumas pessoas, mas não é algo que me dê muito prazer.
*Eu sublinho os trechos de que mais gosto. Com caneta ou com lápis, tanto faz. Não me importo de rabiscar meus livros. Claro que nada que impossibilite uma leitura posterior.
*Às vezes faço pequenas observações nos cantos das páginas.
*Não gosto de ler com barulho ou música. Perco a concentração.
*O livro tem que me prender muito para que eu consiga lê-lo em um lugar público, cheio de gente ao meu redor.
*Acho que todos os livros deveriam ter orelhas. Uso a da capa até a primeira metade do livro e a da contra-capa da metade pro final. Conheço gente que não usa as orelhas para não estragá-las. Acho isso muito excêntrico.
*A não ser que ele seja absurdamente grosso, eu o dobro para ler.
*Quando não gosto mesmo de um livro eu paro de ler. Mas sempre fica uma pontinha de culpa.
*Leio mais de um ao mesmo tempo.
*Eu visualizo as cenas descritas enquanto leio, mas não com muita riqueza de detalhes. Meus cenários são bem pobres. Se eu tentar elaborar demais não dá certo.
É isso! Não vou passar o meme pra ninguém, mas quem publicar seus hábitos de leitura também, me avise que posto o link aqui.
Outros leitores, outros hábitos:
Victor Almeida, do Vivendo pela Graça
Daniel Grubba, do Soli Deo Gloria
Ricardo, do Aventuras de Chicuta e Rebelo
Ah! Recebi um selo da Rachel Bacha, do blog Vivir para Contarla. Obrigada querida! No blog ela fala sobre vários assuntos, mas o mais recorrente é sua vida de concurseira. Quem está nessa função de prestar concursos públicos, estudar o dia todo, viajar para fazer provas, vai se identificar bastante.
Juliana Dacoregio