23.01.12

21:20:22, Categorias: Losing my Religion  


Faz algum tempo que não registro aqui críticas ao cristianismo, nem compartilho experiências de vida com relação à fé. "Coisas" tem acontecido e ando num momento de mera observação do que pode vir a ser um "agir de Deus" em minha vida. Nada posso afirmar ou negar. Então, por enquanto tenho preferido calar a esse respeito.

Mas, claro que não deixei de me interessar nem um pouco sobre o assunto e continuo com as antenas do pensamento crítico bem ligadas. Tenho lido e escutado sobre fé e sobre total ceticismo. Apesar de não ter perdido minha irreverência diante dos assuntos religiosos, tenho tratado-os com mais respeito e compreensão e não tenho negado a ajuda daqueles que me oferecem suas orações na minha constante luta contra o transtorno do humor.

Pois bem, como já dito, não venho postando aqui críticas religiosas ou minhas vivências, mas gostaria de apresentar a vocês a história de vida de alguém que por 33 anos foi um legítimo crente e hoje não deixou de acreditar em Deus, mas enxerga a divindade de um modo peculiar, além de não fechar os ouvidos para seus próprios questionamentos e de outros.

Aí está: um pouco da visão do jornalista André Roldão sobre sua caminhada como cristão, decepções e conclusões.

Ufa! Me livrei do cristianismo
(André Roldão)

No princípio era o Verbo

A experiência pessoal sempre será um dos filtros da realidade. Talvez o principal. A experiência
pode aprisionar, tanto quanto libertar. Em geral são as vivências que nos colocam num tipo de
mundo dentro do mundo comum a todos. É com treino, dores, alegrias e muita boa vontade
que podemos ir além de nós mesmos como referência do mundo. Digo isso para falar um
pouco da experiência de ter sido cristão dedicado para, depois de 33 anos, deixar de ser.

Nasci em lar evangélico numa época em que ser ‘crente’ tinha boa dose de vergonha. O que
para uns era constrangedor, para mim era ter luz. Quando garoto ouvia os demais rirem de
mim e me chamarem de ‘aleluia’. Nada disso me tirou a convicção plena de que estava com a
verdade e eles agiam por cegueira, perdidos, afastados da Glória do Pai. Meses antes de sair
de Porto Alegre (em dezembro de 1976), aos 10 anos, ganhei minha primeira Bíblia. Em três ou
quatro anos ela estava destruída pelo uso.

Expulsos por uma televisão

Aos 11 anos minha família foi expulsa da igreja Assembléia de Deus por ter uma televisão. Sim,
uma Semp 20”, preto e branco, de madeira à volta e à válvulas. Lembro-me quando meu pai
disse ao pastor Osvaldo, o inquisidor: “A televisão tem um botão de liga e
desliga e eu mando nele.” Havia disciplina na minha casa quanto ao uso da TV. Ah, não posso
deixar de registrar o quanto admiro meu pai e sua sabedoria. Semanas depois, ainda num culto
daquela igreja, em Jaguaruna, minha mãe se levanta e sai chorando em meio à reunião. Saí
atrás sem saber do que se tratava. Em casa, ainda em lágrimas, ela conta que Manoel
estava sendo consagrado Presbítero. Como podiam fazer aquilo? Ele também tinha TV em casa
e filhos mal comportados, exceto as filhas. Naquele dia meus pais decidiram procurar outra
igreja.

O encontro com a fé acolhedora e os estudos teológicos

Num domingo, a caminho de Laguna para visitar parentes, passamos na igreja Batista de
Tubarão. O pastor José Carlos nos recebeu muito bem. Lembro de maus pais conversando
com ele na calçada. No outro domingo estávamos, família completa, no culto Batista. Quanta
diferença. Silêncio, hinos bem cantados, nenhum ‘aleluia’ aos berros... Foi ali o meu primeiro
estudo bíblico de verdade. Inclusive um por correspondência (1978), cujo diploma ainda
guardo.

Aos 16 anos conheci o professor de teologia Dr. PhD Lonnie Byron Harbin, no Acampamento
Batista Catarinense, em Biguaçu. Ele me deu uma Bíblia novinha com um sorriso nos lábios.
Eu era o único adolescente naquele encontro de líderes da denominação. Meses depois
recebi uma correspondência da Faculdade Teológica Batista de São Paulo para estudar lá. No
domingo em que recebi a carta, endereçada à igreja, foi festa entre os irmãos. Em dezembro
daquele ano, 1983, aos 17 anos, fiz os testes em São Paulo. Em fevereiro de 1984 lá estava,
saído de uma cidadezinha de uns 12 mil habitantes, para a maior cidade da América Latina e
sozinho.

Foram dois anos e meio de estudos. Destaco Grego, Arqueologia Bíblica, Introdução ao
Velho Testamento, Psicologia, Ética e Filosofia. Nesse período as grandes discussões no meio
evangélico fundamentalista eram se podiam bater palmas nos cânticos, se pastor podia usar
barba e se bateria poderia ser instrumento sacro.

Desvio e reaproximação

Num dia qualquer do mês de julho de 1986 decidi voltar pra casa. Pedi saída do Banco Itaú, uma das agências da Avenida Paulista, e em quatro dias estava no bairro Presidente Vargas, em Içara, para onde meus pais haviam mudado.

Passado um ano, angustiado pelo ‘mesmismo’, tendo uns meses como ‘desviado’, fui para
a missão internacional Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo, fundada pelo teólogo
estadunidense, Dr. Bill Bright, o qual conheci naquele mesmo ano, 1987. Foram seis meses de
atuação dentro e arredores da favela do Parque das Américas, em Mauá.

Casamento, igreja e conflitos

Em junho de 1988 conheci minha esposa e nos casamos em dezembro. E aí tudo mudou
profundamente.

Os conflitos começaram na primeira semana. Não passamos mais que alguns dias em paz. No
princípio eu usava dos preceitos de livros de orientação para casais que havia lido. As técnicas,
uma a uma, mostraram-se tolas. Encontros de casais foram vários. Nada resolvia. Comecei a
cobrar de Deus uma solução. Afinal, entendia que meus esforços mereciam respeito e que era
digno de um milagre. Tantos anos de dedicação não me valiam de nada? Os questionamentos
começaram exponencialmente.

Vendo minha fé esvanecer decidimos, minha esposa e eu, visitar outros casais. Alguns deles
à beira de abandonarem a fé. Eis que, salvamos alguns de apostatarem. Isso de igual forma
não nos aliviou. Aos 33 anos decidi, enfim, abandonar o cristianismo pela simples falta de um
milagre. Sim, um milagre que salvasse meu maior patrimônio nessa vida: minha família. Ora,
se não era capaz de salvá-la de que me adiantaria o alívio de uma dor de barriga ou saber da
benção do outro?

Um novo caminho

Passei a observar a fé com outros olhos, os da dúvida. Analisei de forma recorrente os
testemunhos dos demais em busca dos meus erros. Os casos de ‘salvação’ estavam ligados
a coisas meramente humanas e do convívio num grupo como o da igreja. Aliás, a igreja,
aquele grupo de pessoas da mesma fé, foi totalmente omisso no meu caso. Pedi reiteradas
vezes que nos ajudassem. Nem uma visita sequer. “Por favor, converse com minha esposa”
pedi aos líderes e pastor muitas vezes. Ao deixar a igreja restou minha imagem de um cara
ruim, culpado pela ruína da minha família. Porém, o que eu achava que seria a ruína não foi.
Seguimos nossa vida até que a separação veio. Foram quatro anos e meio separados. Hoje
estamos juntos novamente e nossos filhos nos amando, numa relação muitíssimo diferente.

A vida ficou muito melhor. Sim, muitíssimo melhor. A fé cristã era uma prisão, cuja dimensão
só fui perceber quando dela me afastei. Hoje tenho desprezo pelo que fiz como crente devoto.
Tenho vergonha de mim mesmo por ter andado de Bíblia em punho, de tantas horas de oração
e da defesa dessa fé. “Como era ingênuo, cego e tolo”, penso hoje.

Mente aberta aos questionamentos

Questões bem básicas passaram a rondar minha mente e me dediquei a ponderar sobre cada
uma delas. Alguns exemplos: se Deus escolhe um povo rejeita todos os demais; a Bíblia não
vai além do mundo conhecido na época em que foi escrita; não há nela uma orientação clara,
sendo as doutrinas fruto de interpretações de vários textos dispersos; ela foi escrita no tempo
e espaço e isso exclui os de fora do espaço e de outras épocas, o que não combina com um
Deus que quer se revelar; nenhuma incredulidade pode ser maior que a vontade de Deus em
se comunicar, ou essa incredulidade seria mais forte que o próprio Deus; o crescimento ou
mesmo a existência das muitas formas de acreditar em Deus estão vinculadas às culturas e isso
não combina com um Deus que se manifestaria em todas as épocas e tempos; Abraão, pai da
fé cristã e judaica, não poderia ser, em hipótese alguma, o único homem de sua época digno
de ser chamado por Deus; o pior dos seres humanos é o mais digno de ser alvo da revelação
de Deus e não um Abraão, o cara certinho; o cristianismo só chegou na América 1,5 mil anos
após seu surgimento e isso também não combina com um Deus que quer se revelar; a pior das
tolices é achar que foi dado aos homens a missão de divulgar a mensagem de Deus, ou seja, a
Avon tem muito maior sucesso dada a proporção. Questões simples me fizeram perceber que
o cristianismo não vem de Deus, assim como qualquer outra forma conhecida de fé.

Foram mais de cinco anos de muitas lágrimas e sofrimento entre a decisão de abandonar a fé
cristã até que me senti liberto e em paz. Passada a fase da revolta tive a tranquilidade para
avaliar tudo e concluí que não há qualquer relação entre nós e Deus. Ele simplesmente nos
ignora. Isso significa que para mim Ele existe, apenas não nos distingue dentre tantos outros
seres. Absurdo? Claro que não. Observe que reivindicamos a condição de ‘coroa da criação’
somente porque pensamos de forma mais complexa. Qualquer ser humano desprovido dessa
condição não reivindica tal posição, sequer consegue entender um mínimo do que seria o
Criador. Além disso, a mente deteriorada por uma doença passa a criar um mundo paralelo,
tem alucinações etc. Ou seja, nossa relação com Ele depende de nossa condição mental, nossa
cultura, idade, posição geográfica e época. Enfim, com tantas variáveis como posso considerar
a possibilidade de que ele tenha dito alguma coisa objetiva?

Hoje penso assim.

Que Ele venha falar comigo se assim quiser

O que passei a ouvir dos cristãos, dada essa mudança, é outro capítulo. Em pensar que disse
a outros as bobagens que ouço agora... Mas se você acha que Deus tem algo para mim peço
encarecidamente que Ele mesmo venha conversar comigo. Estou ávido por isso!

A experiência pessoal sempre será um dos filtros da realidade. Talvez o principal. A experiência
pode aprisionar, tanto quanto libertar. Em geral são as vivências que nos colocam num tipo de
mundo dentro do mundo comum a todos. É com treino, dores, alegrias e muita boa vontade
que podemos ir além de nós mesmos como referência do mundo.

(Depoimento de André Roldão, jornalista, historiador, gaúcho, 45 anos, pai, marido, ciclista, apreciador de filosofia e polêmico por natureza. Blog do André)

Permalink 1990 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (10)
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Comentário de: André Roldão · http://www.andreroldao.blogspot.com

Ju, agradeço a provocação que fizeste. Foi emocionante ficar horas relembrando o passado, escrevendo, apagando, reescrevendo... Beijo querida!!!

PermalinkPermalink 23.01.12 @ 23:59



Comentário de: rita rostirolla

Bom saber que cabeças pensantes como a do Roldão tenham passado por uma experiência parecida com a minha...
Alívio...
Muito bom!!

PermalinkPermalink 24.01.12 @ 00:17



Comentário de: Brizolinha

Cara babaca isso sim,tenta vender sua ideia de anti cristo, quero ver quando o dia dele chegar, quando a mão daquele que ele nao acredita retirar o ente mais querido dele, ai sim que ele reclame a um fato normal, não julgo um cara desse um sábio mas um burro

PermalinkPermalink 24.01.12 @ 08:01



Comentário de: Rogério Silva

A frase final dele me lembrou um ateu que trolava muito numa comunidade no Orkut anos atrás. Depois de uma postagem minha (não lembro mesmo qual era o assunto) o cara parou com a trolagem e veio perguntar de uma maneira bem bacana, se existia alguma forma dele ajudar a recuperar a fé que ele teve em Deus um dia.

Eu disse que podia ajudar dando dicas de livros que mostram que crer em Deus não é nenhum absurdo lógico, mas quanto a questão fé mesmo poderia orar por ele. Nunca mais voltou a postar, não soube mais dele.

PermalinkPermalink 24.01.12 @ 13:36



Comentário de: rita rostirolla

sinceramente, que tipo de Deus é o seu menina? Se Ele é capaz de levar o meu ente mais querido então ele é vingativo, cruel e carrasco, ou seja, ele é o diabo, e não Deus! parou pra pensar no que vc acredita??

PermalinkPermalink 24.01.12 @ 17:16



Comentário de: Tiago Costa · http://www.twitter.com/tiagocosta

Sei lá... entende? Interessante ponto de vista. Mas caminhar do evangelicalismo tradicional para o cristianismo fundamentalista já me ajudou bastante a ter essa sensação de alívio e liberdade. De qualquer forma, parabéns pela coragem de questionar sinceramente.

PermalinkPermalink 24.01.12 @ 19:05



Comentário de: Mauricio

Sou de Santa Rita do Sapucai mg.
Há 3 anos me afastei do cristianismo e agora atualmente
sou ateu. Passei por uma época de culpa e solidão, vergo-
nha por me sentir com duvidas quanto as coisas em que
acreditava. Mas hoje me sinto bem. Quem quiser ser meu
amigo que me respeite quem não me respeita por eu ter uma
opinião eu só lamento. respeito a todos e isso me basta.

PermalinkPermalink 01.02.12 @ 22:09



Comentário de: Daniela Melia · http://www.brindes.art.br/

Oi,

achei muito interessante td a sua história e questionamento sobre a fé, acho que todo o bom pensador e sábio se questiona sobre diversos assuntos e esse é um daqueles que levantam sempre inúmeras questões ao longo de toda a nossa vida e de todos os muitos obstáculos que encontramos.

PermalinkPermalink 02.02.12 @ 18:17



Comentário de: Alma Dias · http://www.magazinedacasa.com.br

oi,

Muito interessante seu post e sua vivencia com a religião, fé e espiritualidade, acho importante você ter a coragem de escrever isso e partilhar com todo o mundo, pois assim acho que dá para entender que dependendo das nossas vidas nossa forma de ver e sentir a fé é diferente.

PermalinkPermalink 04.02.12 @ 11:29



Comentário de: Helen Araújo · http://incumbencia1.blogspot.com

Agora que ele descobriu que o cristianismo não vem de Deus? Descobriu a pólvora! HAHAHA
Brincadeira rs.

Agora falando sério, eu gostaria de saber qual a relevância p/ a vida de alguém saber se bater palma no culto é permitido ou se a bateria pode ser considerado um instrumento sacro? Pow, pelamordedeus, não me admira que dps de tanto tempo ele tenha desistido da fé, o cara passou anos e anos estudando e debatendo se isso ou aquilo é pecado. Nesse sentido, realmente, a fé cristã é uma prisão cmo ele mesmo disse.

A religião não causa transformação, ela cansa. E foi isso que aconteceu, a religião o pressionou tanto, que durante a caminhada (em círculos, diga-se de passagem), ele cansou. O mal das pessoas é confundir Deus com religião, nunca me cansarei de repetir isso.

E o ser humano cmo bom religioso que sabe ser, independete da época, sempre se prende a coisas que não edificam o seu relacionamento com o Criador.Isso me lembra os vários debates sobre o sábado que Jesus e os fariseus viviam travando. Ora, p/ os religiosos era um pecado enorme o fato de Jesus curar em pleno sábado, Jesus entretanto, considerava pecado o fato de deixar de fazer o bem qdo assim tinha oportunidade. Pois, o homem é maior do que o sábado, ou seja, o sábado foi criado para o homem, não o contrário. Em outra ocasião, os fariseus ficaram chocados por perceberem que os discípulos não lavavam aos mãos p/ comer, e não era um nojinho qualquer, era por puro tradicionalismo sem noção, mero capricho religioso. Então Jesus dá fim a discussão dizendo que o que contamina o homem é o que sai da boca, pois procede de dentro. É no coração que existe todo tipo de inveja, divisão e má intensão. É por isso que o trabalho de Deus é em nossos corações.

O fato de alguém pertencer a uma igreja local não significa que há nessa pessoa uma disposição em nascer de novo. Quem se torna uma nova criatura permite que em si seja gerado o fruto do Espírito, a saber: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade,mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.
Gálatas 5:23

O chamado de Jesus é radical, e graças a Deus não está ligado a seguir dogmas de alguma religião.

PermalinkPermalink 09.02.12 @ 17:10



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Juliana Dacoregio
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