2011 não foi um ano muito pródigo em leituras para mim. Não que eu não tenha lido bons livros. Mas li pouco. Vai aí uma breve retrospectiva de minhas leituras do ano que passou. Não são todos, mas os mais marcantes.

Liberal, Libertário, Libertino(Alex Castro) – já conheço o trabalho de Alex e sei a qualidade dos textos. O livro leva o mesmo nome de seu blog, que foi um dos primeiros que comecei a ler. Liberal, Libertário, Libertino é composto de crônicas sobre as experiências de vida de Alex. Algumas delas eu já havia lido no blog e sabia que valia a pena ter o livro. São crônicas sobre como sua vida mudou depois de que ele deixou de ser um cara rico e abriu mão da busca desenfreada por acumular bens em troca de uma vida de contemplação, estudo e trabalhos que lhe dessem a oportunidade de pagar suas contas e só. Mas há outras crônicas sobre outros assuntos. É um livro que mexe com nossas idéias pré-estabelecidas sobre praticamente tudo. Fecha com um relato de sua “desventura” quando morava em New Orleans exatamente no período em que a cidade foi devastada pelo furacão Katrina.
“Fui obrigado a evacuar uma cidade estranha, onde eu não conhecia ninguém, e não pude levar meu cachorro. Todo mundo teve uma opinião sobre isso. Não tinha jeito. Canalhice. Egoísmo. Fica assim, não. Etc.
Reparem: não estou nem dizendo que essas opiniões não têm valor. Têm sim, e muito. Para quem as emitiu.”
Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) – um clássico da literatura de ficção futurista que assim como Laranja Mecânica, Admirável Mundo Novo e 1984 mostra um mundo diferente daquele que conhecemos. No caso de Fahrenheit, um mundo sem livros, onde leitores são caçados como contraventores e a alienação impera. Um ótimo paralelo com nossa condição atual, que pode não ser tão rígida como o mundo apresentado por Bradbury, onde livros são considerados tão perigosos e inúteis que devem ser queimados, mas caminha a passos largos para a extinção do hábito da leitura.
“Queimar era um prazer. Era um prazer especial ver as coisas serem devoradas, ver as coisas serem enegrecidas e alteradas.”
Como morrem os pobres e outros ensaios(George Orwell) – vou me abster de comentar. Sou simplesmente fã incondicional de Orwell. Ele é mestre! O livro é dividido em tópicos. São eles: Os dias são sempre iguais, A insinceridade é inimiga da linguagem, A covardia intelectual é o pior inimigo, ‘Pacifismo’ é uma palavra grega, É melhor cozinhas batatas do que fritá-las, O sapo tem o olho mais bonito. Recomendo também Dentro da Baleia, outra compilação de ensaios do autor e o clássico 1984.
“Em certos tipos de texto, em particular na crítica literária e de arte, é normal encontrar longos trechos que carecem quase completamente de sentido. Palavras como romântico, plástico, valores, humano, morto sentimental, natural, vitalidade, tal como usadas na crítica de arte, não dizem rigorosamente nada.”
Coisas para fazer antes dos 30 – perder peso, escrever um livro, engravidar, vencer um câncer de mama (Lisa Lynch) – o livro trata de um assunto espinhoso: o câncer de mama da protagonista que, como sugere o título, se manifestou antes dos 30 anos de idade. Mas é cheio de momentos cômicos, de bom humor e a tradicional ironia fina inglesa. Claro que há momentos emocionantes, tristes e até raivosos, afinal a autora relata sua luta contra o câncer. Uma leitura que me prendeu e me fez enxergar a importância das coisas simples da vida.
“Fui muito tola de achar que podia colocar um pouco de glamour na situação entrando feliz no hospital, saltitando até a sala mais assustadora do mundo com minha saia de flores e tamancos, como uma consumidora perdida no mercado negro e não num shopping Center repleto de lojas lindas.”
Entrevista com o Vampiro (Anne Rice) – um dos poucos casos em que o filme ganhou do livro. A linguagem de Anne Rice não chega a ser rebuscada, mas às vezes é detalhada demais, ao ponto de ficar cansativo.
Rum: Diário de um jornalista bêbado (Hunter Thompson) – quem já conhece o gonzo jornalismo, do qual Thompson foi dos precursores, sabe mais ou menos como é: VIDA LOKA, MANOLO. Em Rum, o autor narra sua mudança de Nova York para San Juan em Porto Rico, a fim de trabalhar como jornalista. É autobiográfico, como os outros livros de Hunter Thompson, porém ele usa um personagem fictício. Ambos têm em comum o gosto pelo jornalismo, pelas mulheres e, óbvio, pelas bebedeiras. O livro começou a ser escrito quando o autor tinha apenas 22 anos, mas só foi publicado em 1998, depois de quase 40 anos.
“Chegar meio bêbado em território estrangeiro é um problema para os nervos. Você tem a sensação de que algo está errado, de que está perdendo o controle. Eu me sentia assim e, quando cheguei ao hotel, fui direto para a cama.”
Fugalaça (Mayra Dias Gomes) – levando-se em consideração que foi escrito quando a autora tinha 17 anos, é um bom livro. Também autobiográfico, fala sobre a vida desregrada da personagem Satine, após a morte de seu pai. Impossível não traçar um óbvio paralelo entre Satine e Mayra, filha do novelista Dias Gomes, morto quando a autora era uma pré-adolescente. O livro é em primeira pessoa, mas há toques de ficção. Quando se fala em vida desregrada, pensa-se logo em muito sexo, drogas e rock’n roll, mas no caso de Fugalaça não é tanto assim (ou ao menos não é tão chocante para quem já teve algumas experiências de vida no mesmo sentido). São as aventuras e neuras de uma adolescente meio perdida no mundo, enchendo a cara, usando drogas e metendo os pés pelas mãos quando se trata de paqueras. A obsessão da personagem pelo menino do qual gosta chega a ser irritante, mas, mais uma vez deve-se considerar que se trata de uma adolescente. As figuras de linguagem são caprichadas e é uma história dessas que você lê e pensa “é, não acontece só comigo”.
“Enchia minhas narinas das sensações que ele sentia. Era delicioso, eu passava a usar coroas, mesmo sem nenhuma em minha cabeça. Sentia-me como Napoleão Bonaparte. A onda era diferente de todas as outras, era realista e nada alucinógena e parecia compatível com qualquer situação.”
O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde) – a história de um jovem tão lindo que, quando se dá conta disso, faz uma espécie de pacto (não se sabe se com o Diabo) para nunca envelhecer. Oscar Wilde usa uma linguagem única: realista, sarcástica, sem esperanças na bondade do ser humano. Um clássico que trata de burguesia, vaidade, riqueza, coisas que Oscar conhecia muito bem. Publicado em 1891, O Retrato de Dorian Gray gerou entusiasmo e polêmica. Em mim gerou fascinação completa pela história e pelo modo como é narrada. Sua visão do mundo e da sociedade é atemporal.
“Os poetas não costumam ser assim tão escrupulosos; eles sabem bem da utilidade que a paixão traz para uma publicação. Nos dias de hoje, um coração partido transita por muitas edições.”
O Casamento (Nelson Rodrigues) – a princípio achei que se tratava de uma compilação de crônicas do autor, mas não, é um romance. É a história de uma moça prestes a se casar e as fantasias inconfessáveis que isso gera em seu pai. Como todo Nelson Rodrigues, não falta tensão sexual e obscenidade. A trama envolve assassinato, incesto, moralismo, rebeldia. É uma obra que desafia qualquer puritanismo que se tenha em mente. E mesmo para cabeças bem abertas e amorais, há momentos que você chega a ficar constrangida tamanha a liberalidade do autor.
“No elevador, Sabino ia pensando no ginecologista de batina – e coroinha na cabeça – que ele próprio imaginara. Mas já lhe ocorria outra imagem, de uma obscenidade absurda. Um São Francisco de Assis, de luva de borracha, um passarinho em cada ombro – fazendo o toque ginecológico.”
A Libélula dos seus Oito Anos (Martin Page) – a história de uma órfã, que vive solitária apenas com a companhia de seu camaleão de estimação e tem como única amiga uma ex-modelo excêntrica. A órfã em questão, Fio, uma garota ruiva e sem vaidades, me encantou, assim como toda a trama. A história pode ser considerada pessimista ou realista, depende de como a encaramos. Eu achei mágica, de uma doçura melancólica. Um livro que não dá lições de moral, mas que nos coloca frente a frente com nosso egocentrismo e, sem querer ensinar, nos ajuda a perceber nossas diferenças, peculiaridades e aceitá-las.
“Seus lábios finos e pálidos como os de um horizonte anêmico, contrastavam com seus cabelos ruivos; mexiam-se pouco, mesmo quando Fio falava; mas o sorriso estava sempre ali, bem presente. Tornava-se brilhante para quem o intuísse, era sublime para aqueles que tinham a imaginação capaz de enxergá-lo daquela forma naquele rosto comum. Não se saberia dizer se seu sorriso era o ponto de partida ou de chegada da ironia que irradiava de Fio. Era uma ironia suava como a lâmina de uma faca a recortar a pétala de uma rosa. Se os mortos pudessem sorrir, sorririam assim.”
Tempo de Esperas (Pe. Fábio de Melo) – surpreendeu-me por ser o livro escrito por um padre e mesmo assim não haver nenhuma forçação de barra rumo ao catolicismo. Aprendi bastante com esse livro, que contém muitas questões filosóficas, existencialistas e reflexões sobre amor, amizade, paciência, fé, esperança.
“Já estou certo de que você tem um filósofo desencantado abrigado no âmago de sua mente. Ele é arrogante porque tem consciência de ser limitado. A arrogância é um recurso dos ignorantes. Quanto menos sabe, maior é o desejo de agredir aquele que atenta contra o que ele não sabe, mas julga saber.”
Música para Camaleões (Truman Capote) – o autor de A Sangue Frio, grande sucesso do jornalismo literário, é primoroso em Música para Camaleões, sua última obra. Ele narra encontros com personagens sui generis, em situações surreais ou prosaicas. São pessoas comuns, anônimas ou famosas, como o velório em que compareceu junto à Marilyn Monroe.
“Enquanto eu pagava a conta ela foi à toalete, e quem me dera eu tivesse um livro para ler: suas visitas à toalete às vezes duravam mais que a prenhez de uma elefanta. Depois de vinte minutos, resolvi investigar. Encontrei a toalete das senhoras, e bati na porta. Ela disse: “Pode entrar”. Lá dentro ela enfrentava um espelho mal iluminado. Perguntei: “O que você está fazendo?”. Ela respondeu: “Olhando para ela”. Na verdade estava pintando os lábios com um batom cor de rubi.”
Diários de Jack Kerouac (Douglas Brinkley) – como o título já diz são vários trechos de diários de Jack Kerouac, o escritor conhecido por On The Road e por ser um dos arautos do movimento literário e cultural Beatnik. O historiador Douglas Brinkley reuniu uma série de anotações que Kerouac fazia enquanto escrevia seu primeiro romance Town & The City e On the Road. Eu já era fã de Kerouac e a leitura de seus diários só fez aumentar minha admiração por ele. O autor beatnik, que é retratado quase sempre como um inconseqüente adepto das drogas e da vida errante, mostra uma outra face em seus escritos íntimos: alguém preocupado com sua produção, apegado à mãe e fascinado por Jesus Cristo. Claro, há as bebedeiras e dias sem rumo, mas não é a tônica de suas anotações. Ele chega a refletir se seu envolvimento com alguns amigos também ligados ao que veio a ser considerado como o movimento beat, como Alen Ginsberg, não poderia estar atrapalhando seu rendimento como escritor.
“Quanto a mim, a base da minha vida vai ser uma fazenda em algum lugar onde vou produzir parte de minha própria comida, e, se necessário, toda ela. Um dia não vou fazer coisa alguma além de sentar embaixo de uma árvore para ver minha lavoura crescer (depois do devido trabalho, claro) – e beber vinho caseiro, e escrever romances para edificar meu espírito, e brincar com meus filhos, e relaxar, e gozar a vida, e brincar, e assoar o nariz. Eu digo que eles não merecem nada além de desprezo por isso, e a próxima coisa, claro, eles todos estarão marchando para alguma guerra aniquiladora que seus líderes corruptos começarão para manter as aparências (decência e honra) e “fechar as contas”. (...) Caguei para os russos, caguei para os americanos, caguei para todo mundo. Vou viver a vida do meu jeito “preguiçoso coisa ruim”, é isso o que eu vou fazer.”
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Juliana Dacoregio