Era verão. Lá estava eu em minha cama, na casa de praia. Uma menina de 11 ou 12 anos, no início do sono, vestindo meu pijaminha preferido: shortinho e regata com babadinhos. Início da adolescência. Todo um mundo começando a se abrir diante de meus olhos, expectativas mil de tudo que estava por vir e eu ansiosa por viver.
Mas já era hora de dormir e eu caminhava para uma noite de sonhos tranquilos. Hora de dormir? Nove, dez, onze horas da noite... não me recordo. Sei que uma voz suave e um dedilhar de violão foram aos poucos me despertando. Naquele momento entre o sono e o despertar, quando sons reais se misturam ao sonho, pensei "um anjo? morri e estou no céu? há um anjo cantando para mim". Sim, existe um tempo em que ainda se sonha com anjos e se crê que é possível que eles cantem para você.
Fui despertando lentamente e percebendo que a voz era real e vinha da sala bem ao lado de meu quarto sem porta. A luz vinha da sala, a voz doce, o burburinho de conversas... Antes mesmo de saber o que acontecia, abri um sorriso e me enchi de uma alegria que só a pureza de uma mente ainda pouco vivida é capaz de sentir. Nos segundos entre levantar da cama e dar poucos passos até a sala, eu soube. Eram eles. Aqueles primos distantes que eu já amava, mas ainda não conhecia. Havia tido contato apenas na mais tenra infância e não tinha lembrança nenhuma daquele primeiro encontro. Esse, o da casa de praia, o da voz angelical, foi realmente o primeiro.
E ele se deu ao som de No Rain, de Blind Mellon. Ela, apenas um ano mais velha que eu, com sua blusinha florida, ainda tinha uma voz suave, porém completamente afinada, mel para os ouvidos e entoava...
All I can say is that my life is pretty plain
I like watchin' the puddles gather rain
And all I can do is just pour some tea for two
Depois disso, What's Up, de 4 Non Blondes...
Como poderíamos imaginar que um dia aquela letra seria tão real e tão vivida por nós? Que tantas e tantas vezes gritaríamos a plenos pulmões "WHAT'S GOING ON?" e que sentiríamos nossas vidas imóveis, mas mesmo assim nos levantaríamos da cama e rezaríamos por uma revolução? E choraríamos, ah como choraríamos... Mas naquela época ainda apenas fazíamos uma vaga idéia de toda a mensagem daquela canção.
E assim fui sendo apresentada a novas melodias, novos versos, e naquela sala, começou um amor fraterno que dura até hoje. E que se faz presente a cada vez que nos encontramos. Poucos, porém intensos encontros.
Hoje sua voz continua doce e limpa. Porém forte. Imponente. Assim, como a vida nos obrigou a ser. Ainda uso pijamas de babadinhos. Porém a vida se mostrou muito mais difícil e brilhante, do que a garota de onze anos poderia imaginar. A pequena cantora, ainda usa blusinhas floridas, mas com seus pés marca o compasso, não mais da música da abelhinha, mas de "uma chama que incendeia seu coração"...
Mas não se pode negar... Nossos corações já nasceram em chamas.
E continuamos gritando 'What's going on?'. Mas, quase sempre, sem respostas, prosseguindo...
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Juliana Dacoregio