07.12.11

01:03:23, Categorias: Contos, Cotidiano, Losing my Religion  


Era tudo cinza. A praia linda estava cinza, ou pior, sem cor. O mar azul parecia sujo. As ondas branquinhas, o azul profundo, a calmaria no horizonte se mostravam fora de lugar. Ela não deveria estar ali, o mar não deveria estar ali, seu corpo, assim como o mundo inteiro, eram uma prisão. Nada, (NADA!) lhe fazia o menor sentido. Olhava para seus pais, para seus amigos, e via que eles queriam tanto sua felicidade. Buscavam proporcionar algum alívio, sem pressões, deixando que tudo fosse ao seu tempo. Pacientes, amorosos, compreensivos. Portos seguros na tormenta. Mas os membros dela já eram tão desconexos, que se debatia e não conseguia alcançá-los. Uma náufraga batendo braços e pernas tão desesperadamente que, de cansaço e pavor, se afogaria mesmo diante do melhor resgate.

Depressão agitada: a perfeita definição de pavor e estagnação. Não se pode cair na cama e dormir porque o corpo não deixa, ele quer se rasgar, se morder, a mente não quer nada, nem deixa de querer. É um vazio apavorante em que gritos no escuro são inaudíveis. Existem milhões de palavras para expressar dor, desespero, angústia, pavor. Nenhuma delas é suficiente. É ver o mundo morto onde cor alguma é capaz de reavivar. Sentir um cheiro putrefato que nenhum perfume ameniza e não ter para onde correr quando se quer fugir. Pequenas migalhas trazem um arremedo de alívio e você tem que se contentar com essas gotinhas de algo que é apenas quase vagamente parecido com um pouquinho de calma.

Não suportava mais. Há um bom tempo não suporta. Tem estado bem melhor do que em muitos momentos. Veja você, é sério. Ela já esteve pior. Mas se você a visse naqueles dias, se você a espiasse em tantas manhãs cheias de promessas de realizações daria de cara com um semblante derretendo, inexpressivo. Olhos parados num ponto qualquer. Você diria, “não, não é possível, você esteve PIOR?”

E por não suportar, ela fez o que tantos que passam por isso fazem. Machucou-se, debateu-se, esperando a noite passar sem nenhuma perspectiva de que o amanhã trouxesse melhora. Então conversou, ou melhor, balbuciou, pois era cansativo demais articular frases em alto em bom som. Foi abraçada, o corpo retraído mal permitindo que retribuísse o abraço. E aquela menina ao seu lado disse “fala com Deus! Fala pra ele o que você sente, peça, tente, não custa.” - Tudo bem, falarei dentro da minha cabeça, mas ela insistiu que falasse em voz alta. (Esqueça tudo que você já viu a respeito de pessoas pregando, expulsando demônios, instando as pessoas a clamarem a Deus “pois só ele poderia salvá-las”. Esqueça o sensacionalismo religioso, a arrogância de crentes que agem como se possuíssem a cura para todos os males. Pense em amor. Com uma dose de força, como todo amor verdadeiro é. Foi assim que ela insistiu.)

Resisti. Resisti muito. Falar pra quê? Falar pra quem? Com quem? Que Deus? O que adianta? Por quê? Mas comecei a falar. Devagar, do meu jeito, com as minhas palavras, principalmente deixando claro que eu não sabia se estava falando sozinha. Minha amiga já não estava mais ali. Não para mim. Era só eu, olhos fechados, falando e falando e falando. Uma “oração” permeada de palavrões, de gírias, de dúvidas, de rejeições. Implorando por um pouco de paz, porque afinal não dizem que ele é O Príncipe da Paz? Dizendo, “ei, olha aqui, se tu podes mesmo, FAZ ALGUMA COISA, CARAMBA!” Enquanto eu falava, imagens horríveis inundavam a minha mente. Diferentes das imagens que visualizei nas piores horas de depressão. Imagens de morte, cabeças horríveis flutuando, facas cortando pescoços na vertical até chegar ao coração, homens desfigurados com vômitos sólidos e verdes parados no canto da boca. Continuei pedindo. Continuei no meu colóquio surreal com aquele que já debochei dizendo ser o amigo imaginário dos ignorantes. Não parei mais. Dormi falando. E ao amanhecer, mal consegui acordar! Quão raro é isso em minha vida: acordar ainda com sono, virar para o lado e continuar dormindo! Não lembro a última vez em que aconteceu. Desperto sempre com sono, mas sou jogada para fora da cama de tanta dor. Não tenho noites de sono e repouso, tenho noites levemente inconscientes em que acordo como se tivesse levado uma surra. E nessa manhã eu precisava acordar, mas não conseguia. Abria os olhos, voltava a dormir, virava para o lado, falava alguma coisa meio sem nexo e dormia, vinham me acordar e eu sorria, falava, tá bom e, com um doce prazer... dormia.

Quando finalmente despertei, tudo tinha cor! As circunstâncias não haviam mudado. O quarto de hotel com o quadro tosco não havia mudado. Mas o quadro era lindo. Como uma criança que percebe detalhes que os adultos não costumam perceber, vi que o planeta ali retratado tinha bolinhas brancas e os países eram multi-coloridos. Na rua eu enxerguei a vida. O mar... vivo, azul, o céu limpo, a beleza de todas as coisas.

E isso tudo é tão íntimo e belo. Como uma descoberta que lhe deixa embasbacada, de boca aberta, sorrindo, olhando tudo ao redor parecer pulsar aos seus olhos novamente e você simplesmente só pode olhar, rir por dentro e por fora e dizer: O QUE É ISSO?! Um segredo doce, uma paz tão visível que, ao mesmo tempo, em que desejo guarda-la só para mim, quero botá-la pra fora e dizer pra vocês: Ei, gente, olha que doideira, olha que maravilha. Parece um sonho. Mas não é.

E à noite ela assistiu Eu sou a Lenda. Nos créditos finais, Redemption Song.

Permalink 998 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (3)
Indique: del.icio.us Gafanhoto Rec6 Ueba Ueba

Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/48172

Posts similares:
Morto, acorde-me!*
DEPOIS DAQUELE CONGA LA CONGA
Enjoy the silence – Mayra Dias Gomes e sua Clara em “Mil e uma noites de silêncio”

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Ricardo Oliveira · http://www.diversita.com.br

http://www.youtube.com/watch?v=DdVSj46kAbk

PermalinkPermalink 07.12.11 @ 01:22



Comentário de: Helen Araujo · http://incumbencia1.blogspot.com

Nós somos engraçados. Temos explicação psicológica, científica, filosófica etc, para tudo, inclusive para nós, mas qdo tudo vai mal alguns buscam fuga nas drogas, álcool, remédios (que no fundo tbm são drogas) e outros ficam tão desesperados/desesperançosos que vêem na morte uma oportunidade de aliviar a dor.
Somos frágeis.

Uns precisam se sentir amados, outros precisam se sentir felizes, a maioriaa precisa de paz de espírito, pois aí encontrarão contentamento c/ a vida, c/ os outros, consigo mesmo.

O ser humano busca por satisfação o tempo inteiro, mas nos lugares errados, nas coisas erradas, e às vezes, por um motivo errado. A mulher samaritana (eu não me canso de refletir sobre ela)somos nós em nossas inseguranças e necessidades emocionais. As 'falta de' variam de pessoa p/ pessoa, mas a sede é a mesma. É de natureza espiritual.

Por que buscar por águas que só saciam momentaneamente se aquele que tem a água viva nos oferece a chance de termos uma fonte de água dentro de nós? Isso é a vida em abundância, é a vida eterna já no tempo presente. Pois aqui a vida é eterna enquanto dura, posto que em Cristo todos os momentos são cheios da manifestação de sua graça, amor e misericórdia, mesmo/principalmente nos momentos de tristeza. Tudo que temos de Deus nessa vida é um indício daquilo que é a plenitude Dele, da vida nas moradas celestiais.

Às vezes nenhum amigo é tão próximo ao ponto de entender o que estamos passando, às vezes nem os temos, mas em Jesus temos um amigo que compreende tudo o que passamos, e o legal é que Ele nos deixa bem.

“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11.28-30)


P.S: Adoro essa música que o Ricardo postou *-*

PermalinkPermalink 07.12.11 @ 13:01



Comentário de: Maria Edjane · http://www.sualista.com.br

Há dias que é melhor nem levantarmos da cama. Acontece cada coisa, e nem todos os dias estamos preparados.
abraços.

PermalinkPermalink 16.12.11 @ 20:39



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: A RespostaPróximo post: Eu sou RICA!









Quem?

Juliana Dacoregio
Jornalista, leitora voraz, escritora, cinéfila.
Observadora, vaidosa, passional, sensível.
Lágrimas abundantes e gargalhadas sinceras.
Leal aos amigos e ligada à família.
Cheia de opiniões e de capacidade de analisá-las e transformá-las.
Hábitos simples e pensamentos complexos. Ou vice-versa.

Redes Sociais
Heresia Loira no Orkut
Resenhas sobre cinema e literatura no Amálgama


Assine o Feed

Assina meu feedzinho aí, tio. Só pra ajudar!
O que é RSS?

Assine por email:

Heresia Loira








Jô Chama Eu

 Lost in Chick Lit

Image and video hosting by TinyPic


Eu no Digestivo Cultural:

b2evolution