Era tudo cinza. A praia linda estava cinza, ou pior, sem cor. O mar azul parecia sujo. As ondas branquinhas, o azul profundo, a calmaria no horizonte se mostravam fora de lugar. Ela não deveria estar ali, o mar não deveria estar ali, seu corpo, assim como o mundo inteiro, eram uma prisão. Nada, (NADA!) lhe fazia o menor sentido. Olhava para seus pais, para seus amigos, e via que eles queriam tanto sua felicidade. Buscavam proporcionar algum alívio, sem pressões, deixando que tudo fosse ao seu tempo. Pacientes, amorosos, compreensivos. Portos seguros na tormenta. Mas os membros dela já eram tão desconexos, que se debatia e não conseguia alcançá-los. Uma náufraga batendo braços e pernas tão desesperadamente que, de cansaço e pavor, se afogaria mesmo diante do melhor resgate.
Depressão agitada: a perfeita definição de pavor e estagnação. Não se pode cair na cama e dormir porque o corpo não deixa, ele quer se rasgar, se morder, a mente não quer nada, nem deixa de querer. É um vazio apavorante em que gritos no escuro são inaudíveis. Existem milhões de palavras para expressar dor, desespero, angústia, pavor. Nenhuma delas é suficiente. É ver o mundo morto onde cor alguma é capaz de reavivar. Sentir um cheiro putrefato que nenhum perfume ameniza e não ter para onde correr quando se quer fugir. Pequenas migalhas trazem um arremedo de alívio e você tem que se contentar com essas gotinhas de algo que é apenas quase vagamente parecido com um pouquinho de calma.
Não suportava mais. Há um bom tempo não suporta. Tem estado bem melhor do que em muitos momentos. Veja você, é sério. Ela já esteve pior. Mas se você a visse naqueles dias, se você a espiasse em tantas manhãs cheias de promessas de realizações daria de cara com um semblante derretendo, inexpressivo. Olhos parados num ponto qualquer. Você diria, “não, não é possível, você esteve PIOR?”
E por não suportar, ela fez o que tantos que passam por isso fazem. Machucou-se, debateu-se, esperando a noite passar sem nenhuma perspectiva de que o amanhã trouxesse melhora. Então conversou, ou melhor, balbuciou, pois era cansativo demais articular frases em alto em bom som. Foi abraçada, o corpo retraído mal permitindo que retribuísse o abraço. E aquela menina ao seu lado disse “fala com Deus! Fala pra ele o que você sente, peça, tente, não custa.” - Tudo bem, falarei dentro da minha cabeça, mas ela insistiu que falasse em voz alta. (Esqueça tudo que você já viu a respeito de pessoas pregando, expulsando demônios, instando as pessoas a clamarem a Deus “pois só ele poderia salvá-las”. Esqueça o sensacionalismo religioso, a arrogância de crentes que agem como se possuíssem a cura para todos os males. Pense em amor. Com uma dose de força, como todo amor verdadeiro é. Foi assim que ela insistiu.)
Resisti. Resisti muito. Falar pra quê? Falar pra quem? Com quem? Que Deus? O que adianta? Por quê? Mas comecei a falar. Devagar, do meu jeito, com as minhas palavras, principalmente deixando claro que eu não sabia se estava falando sozinha. Minha amiga já não estava mais ali. Não para mim. Era só eu, olhos fechados, falando e falando e falando. Uma “oração” permeada de palavrões, de gírias, de dúvidas, de rejeições. Implorando por um pouco de paz, porque afinal não dizem que ele é O Príncipe da Paz? Dizendo, “ei, olha aqui, se tu podes mesmo, FAZ ALGUMA COISA, CARAMBA!” Enquanto eu falava, imagens horríveis inundavam a minha mente. Diferentes das imagens que visualizei nas piores horas de depressão. Imagens de morte, cabeças horríveis flutuando, facas cortando pescoços na vertical até chegar ao coração, homens desfigurados com vômitos sólidos e verdes parados no canto da boca. Continuei pedindo. Continuei no meu colóquio surreal com aquele que já debochei dizendo ser o amigo imaginário dos ignorantes. Não parei mais. Dormi falando. E ao amanhecer, mal consegui acordar! Quão raro é isso em minha vida: acordar ainda com sono, virar para o lado e continuar dormindo! Não lembro a última vez em que aconteceu. Desperto sempre com sono, mas sou jogada para fora da cama de tanta dor. Não tenho noites de sono e repouso, tenho noites levemente inconscientes em que acordo como se tivesse levado uma surra. E nessa manhã eu precisava acordar, mas não conseguia. Abria os olhos, voltava a dormir, virava para o lado, falava alguma coisa meio sem nexo e dormia, vinham me acordar e eu sorria, falava, tá bom e, com um doce prazer... dormia.
Quando finalmente despertei, tudo tinha cor! As circunstâncias não haviam mudado. O quarto de hotel com o quadro tosco não havia mudado. Mas o quadro era lindo. Como uma criança que percebe detalhes que os adultos não costumam perceber, vi que o planeta ali retratado tinha bolinhas brancas e os países eram multi-coloridos. Na rua eu enxerguei a vida. O mar... vivo, azul, o céu limpo, a beleza de todas as coisas.
E isso tudo é tão íntimo e belo. Como uma descoberta que lhe deixa embasbacada, de boca aberta, sorrindo, olhando tudo ao redor parecer pulsar aos seus olhos novamente e você simplesmente só pode olhar, rir por dentro e por fora e dizer: O QUE É ISSO?! Um segredo doce, uma paz tão visível que, ao mesmo tempo, em que desejo guarda-la só para mim, quero botá-la pra fora e dizer pra vocês: Ei, gente, olha que doideira, olha que maravilha. Parece um sonho. Mas não é.
E à noite ela assistiu Eu sou a Lenda. Nos créditos finais, Redemption Song.

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Juliana Dacoregio