Meu primeiro contato com um psiquiatra (o primeiro de muitos) foi em 2004. Era casada há alguns meses, estava prestes a terminar a faculdade de Jornalismo e evangélica fazia uns quatro anos. Meu marido também era evangélico e muito sonhador. Casamo-nos sem ter condições financeiras para isso, mas o que ouvíamos de jovens lideres cristãos de outras cidades, nos congressos que freqüentávamos, era “tenham fé, casem-se e Deus proverá o que for necessário; Deus ama a família e ama o casamento e, com certeza, vai abençoá-los.” As palavras poderiam não ser essas exatamente, mas o sentido era: não é preciso ter tudo ajeitado para, só então, casar; dêem um passo de fé e Deus cuidará do resto. Eu nunca me senti bem com aquela história. Logo eu, que cresci num lar em que tudo deveria ser feito com o máximo de segurança, em que não se deixavam atrasar as contas, em que cada passo importante na vida era sempre muito bem pensado. Já entre a família de meu noivo - e entre muitas pessoas na igreja que eu freqüentava - era normal ter o telefone cortado por falta de pagamento ou não ter um plano de saúde, por exemplo. O nível econômico de meu noivo era diferente do meu, mas o que mais causava atrito era nossa discrepância em termos culturais: um abismo entre nós. Mas eu me convenci de que isso não era um problema. Ou melhor, me convenci e fui convencida de que o problema era comigo por ter sido criada com regras tão rígidas, por só confiar na segurança econômica e não confiar na “mão de Deus”.
Enfim, passei a acreditar que havendo amor, fé e sendo meu noivo um "bom homem de Deus" tudo estaria garantido e seríamos muito felizes. E assim, casei-me. Claro que toda a festa de casamento foi bancada por meus pais. Assim como a lua-de-mel e o aluguel do apartamento onde fomos morar.
A cerimônia de casamento foi linda, no melhor clube da cidade, porém sem danças ou bebidas alcoólicas, fator que causou muita discussão entre eu e minha mãe durante os preparativos. Eu não admiti isso na época, mas o fato de não haver a valsa do noivo e da noiva me deixou bastante triste, principalmente porque eu não havia debutado aos 15 anos e sonhava compensar essa falta dançando a valsa com meu pai no dia do casamento. Eu queria a valsa, mas nossos pastores aconselharam que não deveríamos ceder aos desejos de meus pais de fazerem de nosso casamento uma festa “mundana”. Não houve valsa, mas houve a melhor comida, a melhor decoração, um bolo lindo e um vestido maravilhoso: todas as coisas que o dinheiro pode comprar.
No dia anterior ao casamento dormi na cama de meus pais, com minha mãe. Chorei muito. Eu me enganava, dizia a mim mesma que o choro era só por conta do nervosismo. É impressionante como uma pessoa consegue se enganar quando assim deseja.
O resultado é que com três meses de casada eu estava deprimida e arrependida. Nem sequer admitia em voz alta, mesmo falando sozinha, mas meu diário já registrava isso na época. Meus sentimentos de culpa foram às alturas: culpa por não ter dado a meu pai a oportunidade de dançar a valsa comigo, culpa por estar casada e sendo sustentada por meus pais, culpa por me sentir arrependida, culpa diante de Deus e dos homens.
O sentimento de culpa é algo que corrói e aniquila. Comigo não foi diferente: eu estava desanimada, fui perdendo a força de ser uma cristã exemplar (algo que eu de fato era), perdi a vontade de freqüentar a igreja e de estar com meus “irmãos de fé”. Tudo isso entremeado de doses maciças de culpa por estar acalentando sentimentos tão perversos. Hoje sei que nada havia de perverso, mas na época acreditava que era tudo falta de oração e de comunhão com Deus.
Mesmo com a culpa galopante acabei no consultório de um psiquiatra. Ele fez mil perguntas e logo deu o diagnóstico: distimia, uma espécie de depressão mais leve, porém crônica, com alguns altos e baixos (sobretudo baixos) mais pronunciados. Ele desenhou um gráfico tosco e me mostrou que as pessoas normais também têm altos e baixos, mas que o normal delas é mais alto que o meu normal e que os baixos delas não são tão fundos quantos os meus. A solução seria a psicoterapia e um tratamento com anti-depressivos. Fiquei petrificada: meu Deus, o que iriam falar e pensar de mim na Igreja?! Eu não cogitava a possibilidade de omitir dos pastores que eu teria de tomar anti-depressivos. Tudo que fosse decisivo em nossas vidas (minha, e de meu marido na época, era contada ao casal de pastores da Igreja). Mas no fundo eu sabia que o remédio poderia me ajudar, eu sabia que o que eu estava sentindo não iria ser curado com oração. Comecei a tomar Wellbutrin, mas não sem largar a minha culpa, “minha máxima culpa”.
Hoje as coisas estão diferentes. Percebo minha intransigência em muitas situações, tenho consciência de que muito do que eu acreditava ser uma bagagem cultural eram apenas manias aprendidas no seio do lar e que, não raro, eu caía na cilada de exaltar minha família e seus hábitos e diminuir tudo que vinha da família do ex-marido. Outro fator que hoje não conta mais é a diferença financeira. Sei que deixei-me levar por influências de pessoas que engrandeciam demais a tal discrepância econômica.
Claro que, em grande parte, fui enredada por influências e conselhos de todo tipo por falta de maturidade. Mas também percebo que, no fundo, apenas faltava amor. Hoje, sete anos depois de meu afastamento da igreja e de minha separação, muitas coisas mudaram. Já não sou tão frágil, a ponto de seguir a opinião dos outros e dar valor a futilidades; e quando percebo que algumas mosquinhas estão buzinando no meu ouvido, a ponto de fazerem com que seu blablabla pareça vir de minha própria mente, paro para avaliar: o que estou ruminando vem de mim mesma ou de quem deseja me ver mantendo uma vida de aparências impecáveis?
Continuo querendo coisas bastante diferentes do que meu ex-marido queria. Não me arrependi em nenhum momento por ter me afastado dele e da igreja. Também não me arrependo totalmente de ter sido influenciável. Afinal, assim pude seguir adiante e aprender a ser o que sou hoje. Algumas pessoas só conseguem correr depois de muitos tropeços e, mesmo que eu às vezes sinta que tenha perdido anos da minha vida, sei que não os perdi para valer. Apenas ganhei experiência para conseguir dar uns passos a mais na direção de caminhar com minhas próprias pernas e superar preconceitos.

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Juliana Dacoregio