10.03.11

14:27:05, Categorias: Comportamento, Losing my Religion  




Meu primeiro contato com um psiquiatra (o primeiro de muitos) foi em 2004. Era casada há alguns meses, estava prestes a terminar a faculdade de Jornalismo e evangélica fazia uns quatro anos. Meu marido também era evangélico e muito sonhador. Casamo-nos sem ter condições financeiras para isso, mas o que ouvíamos de jovens lideres cristãos de outras cidades, nos congressos que freqüentávamos, era “tenham fé, casem-se e Deus proverá o que for necessário; Deus ama a família e ama o casamento e, com certeza, vai abençoá-los.” As palavras poderiam não ser essas exatamente, mas o sentido era: não é preciso ter tudo ajeitado para, só então, casar; dêem um passo de fé e Deus cuidará do resto. Eu nunca me senti bem com aquela história. Logo eu, que cresci num lar em que tudo deveria ser feito com o máximo de segurança, em que não se deixavam atrasar as contas, em que cada passo importante na vida era sempre muito bem pensado. Já entre a família de meu noivo - e entre muitas pessoas na igreja que eu freqüentava - era normal ter o telefone cortado por falta de pagamento ou não ter um plano de saúde, por exemplo. O nível econômico de meu noivo era diferente do meu, mas o que mais causava atrito era nossa discrepância em termos culturais: um abismo entre nós. Mas eu me convenci de que isso não era um problema. Ou melhor, me convenci e fui convencida de que o problema era comigo por ter sido criada com regras tão rígidas, por só confiar na segurança econômica e não confiar na “mão de Deus”.

Enfim, passei a acreditar que havendo amor, fé e sendo meu noivo um "bom homem de Deus" tudo estaria garantido e seríamos muito felizes. E assim, casei-me. Claro que toda a festa de casamento foi bancada por meus pais. Assim como a lua-de-mel e o aluguel do apartamento onde fomos morar.

A cerimônia de casamento foi linda, no melhor clube da cidade, porém sem danças ou bebidas alcoólicas, fator que causou muita discussão entre eu e minha mãe durante os preparativos. Eu não admiti isso na época, mas o fato de não haver a valsa do noivo e da noiva me deixou bastante triste, principalmente porque eu não havia debutado aos 15 anos e sonhava compensar essa falta dançando a valsa com meu pai no dia do casamento. Eu queria a valsa, mas nossos pastores aconselharam que não deveríamos ceder aos desejos de meus pais de fazerem de nosso casamento uma festa “mundana”. Não houve valsa, mas houve a melhor comida, a melhor decoração, um bolo lindo e um vestido maravilhoso: todas as coisas que o dinheiro pode comprar.

No dia anterior ao casamento dormi na cama de meus pais, com minha mãe. Chorei muito. Eu me enganava, dizia a mim mesma que o choro era só por conta do nervosismo. É impressionante como uma pessoa consegue se enganar quando assim deseja.

O resultado é que com três meses de casada eu estava deprimida e arrependida. Nem sequer admitia em voz alta, mesmo falando sozinha, mas meu diário já registrava isso na época. Meus sentimentos de culpa foram às alturas: culpa por não ter dado a meu pai a oportunidade de dançar a valsa comigo, culpa por estar casada e sendo sustentada por meus pais, culpa por me sentir arrependida, culpa diante de Deus e dos homens.

O sentimento de culpa é algo que corrói e aniquila. Comigo não foi diferente: eu estava desanimada, fui perdendo a força de ser uma cristã exemplar (algo que eu de fato era), perdi a vontade de freqüentar a igreja e de estar com meus “irmãos de fé”. Tudo isso entremeado de doses maciças de culpa por estar acalentando sentimentos tão perversos. Hoje sei que nada havia de perverso, mas na época acreditava que era tudo falta de oração e de comunhão com Deus.

Mesmo com a culpa galopante acabei no consultório de um psiquiatra. Ele fez mil perguntas e logo deu o diagnóstico: distimia, uma espécie de depressão mais leve, porém crônica, com alguns altos e baixos (sobretudo baixos) mais pronunciados. Ele desenhou um gráfico tosco e me mostrou que as pessoas normais também têm altos e baixos, mas que o normal delas é mais alto que o meu normal e que os baixos delas não são tão fundos quantos os meus. A solução seria a psicoterapia e um tratamento com anti-depressivos. Fiquei petrificada: meu Deus, o que iriam falar e pensar de mim na Igreja?! Eu não cogitava a possibilidade de omitir dos pastores que eu teria de tomar anti-depressivos. Tudo que fosse decisivo em nossas vidas (minha, e de meu marido na época, era contada ao casal de pastores da Igreja). Mas no fundo eu sabia que o remédio poderia me ajudar, eu sabia que o que eu estava sentindo não iria ser curado com oração. Comecei a tomar Wellbutrin, mas não sem largar a minha culpa, “minha máxima culpa”.

Hoje as coisas estão diferentes. Percebo minha intransigência em muitas situações, tenho consciência de que muito do que eu acreditava ser uma bagagem cultural eram apenas manias aprendidas no seio do lar e que, não raro, eu caía na cilada de exaltar minha família e seus hábitos e diminuir tudo que vinha da família do ex-marido. Outro fator que hoje não conta mais é a diferença financeira. Sei que deixei-me levar por influências de pessoas que engrandeciam demais a tal discrepância econômica.

Claro que, em grande parte, fui enredada por influências e conselhos de todo tipo por falta de maturidade. Mas também percebo que, no fundo, apenas faltava amor. Hoje, sete anos depois de meu afastamento da igreja e de minha separação, muitas coisas mudaram. Já não sou tão frágil, a ponto de seguir a opinião dos outros e dar valor a futilidades; e quando percebo que algumas mosquinhas estão buzinando no meu ouvido, a ponto de fazerem com que seu blablabla pareça vir de minha própria mente, paro para avaliar: o que estou ruminando vem de mim mesma ou de quem deseja me ver mantendo uma vida de aparências impecáveis?

Continuo querendo coisas bastante diferentes do que meu ex-marido queria. Não me arrependi em nenhum momento por ter me afastado dele e da igreja. Também não me arrependo totalmente de ter sido influenciável. Afinal, assim pude seguir adiante e aprender a ser o que sou hoje. Algumas pessoas só conseguem correr depois de muitos tropeços e, mesmo que eu às vezes sinta que tenha perdido anos da minha vida, sei que não os perdi para valer. Apenas ganhei experiência para conseguir dar uns passos a mais na direção de caminhar com minhas próprias pernas e superar preconceitos.

Permalink 1227 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (9)
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Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com

então, Juliana.

eu tambem não acho que os dois anos que frequentei a igreja e me esforcei para ser uma evangelica exemplar foram totalmente perdidos. aprendi muitas coisas lá. aconteceu da maioria delas serem mais negativas - aprender a não fazer tal coisa - do que positivas.

sobre familia e relacionamentos, eu tambem tenho um curriculo não exatamente pequeno de discordias. quando se tem um relacionamento mais serio vc acaba se envolvendo tambem com os familiares do cara. e isso é um problema, quase sempre. pediu o numero 1? então vai levar todo o pacote. :)

mas eu sou otimista. tenho quase a fé (!) de que meus futuros relacionamentos serão melhores q os q eu tive, mais satisfatorios.

achei muito importante vc mencionar a questão financeira. a gente pensa que não mas ela é central. e muitas vezes deixamos de lado de forma deliberada com medo de atritos e coisas do tipo.

beijão.

PermalinkPermalink 10.03.11 @ 15:03



Comentário de: Flavio Morgenstern · http://flaviomorgen.blogspot.com

Muito interessante, Juliana!

É um texto que mostra o processo de "desconversão" de uma maneira bastante sentimental, para aqueles que acham que o que não é da Igreja se resume à crença na razão científica positivista. Ou seja, uma sensibilidade que julgam ser apanágio da religião.

É curioso que vejo muito o argumento pró-religião de que algo um dia foi "revelado", que se viu a luz, que se descobriu um novo sentido para a vida. Desconversão também é bem comum e não gera livros best-sellers nem testemunhos chorosos na TV.

Mal de viver sem um -ismo, mal de não se organizar e se divulgar essas histórias. Ao menos, sozinhos, podemos ler o que fala diretamente a nós, e não às multidões. :)

PermalinkPermalink 10.03.11 @ 17:01



Comentário de: Teca · http://tudoqhadebom.blogspot.com/

Oi Juliana, tudo bem?Você não deve lembrar de mim ,
mas ja passei pelo seu blog algumas vezes acho que em 2008
hoje lembrei de ti e senti falta da forma que você escreve
lembrei do seu nome e te procurei no Google, e me deparei
com esse post, tá servindo pra mim, que ando com a vida
meia de cabeça para baixo por conta de zumzumzum
no meu ouvindo e escolhas erradas.Adorei o post e a sua iniciativa
nao vale a pena mesmo levar adiante uma coisa que nao nos faz bem.

Beijocas!

PermalinkPermalink 10.03.11 @ 18:07



Comentário de: Raquelzinha

Nossa!!!!
Parece que eu estava lendo a história da minha vida!!
Incrível coincidência!!
Espero um dia poder te conhecer pessoalmente. Abraços!!!

PermalinkPermalink 12.03.11 @ 22:09



Comentário de: Augustus · http://apokkalyypse.blogspot.com/

Experiencia semelhante...
Casado a ponto de separar principalmente agora que deixei a religiao batista apos quase 4 decadas. Nasci em lar evangelico e passei por tudo isso que vc passou.
Mas vamos em frente!
Tenho um blog que uso para extravasar, ja que combinamos nao falar de religiao em casa com minha esposa.
Gde abraco!
http://apokkalyypse.blogspot.com/

PermalinkPermalink 13.03.11 @ 12:24



Comentário de: Helen Araujo · http://incumbencia1.blogspot.com

Quem olha assim nem diz que tu já passou por tudo isso. Essa tua história conheço de perto... Penso que independente do que for, temos que ter certeza de nossas convicções, do que queremos pra nossa vida, e principalmente, do que Deus quer pra ela. Assim muita dor de cabeça é evitada.

PermalinkPermalink 19.03.11 @ 19:41



Comentário de: Gabrielle

Aiai, td enfiaram na sua cabeça hein... A canoa furada desde o começo, mas colocaram na sua cachola q ia dar certo hein? É pena p vc moça. Conheço péssimas igrejas de portinha, em Manaus elas existem aos tubos e o "merchan" é tao descarado que só atrai ignorantes, carentes, desesperados e sozinhos.. claro que há outras que investem pesado em publicidade e propaganda, os líderes sao de uma eloquencia absurda, um carisma inalcansável, vendendo a imagem de que possuem a família perfeita e solidez inabalável, e a sutileza da proposta é tao enganosa e envolvente que só Jesus e mt sensatez pra nao cair no conto... TDO FACHADA... Cresci em família cristã mas meu bom senso e minha capacidade de julgamento nao vem do que outrso dizem, vem do que eu sinto, do que eu percebo, do que a bíblia me ensina. A palvra de Deus nao é enganosa. Enganosa sao as pessoas e seus coracoes corruptos. No dia em que eu encontrar uma igreja perfeita sairei dela, pois no momento em que entrar vou estar desfazendo esta condicao... Gosto do seu blog e respeito sua posicao Juliana e espero que nao fique chateada se divergimos de opnioes e pontos de vista. Afinal nao seria cauteloso ouvir somente o que nos agrada, e venho nao so pra divergir, mas pra acrescentar, se de alguma maneira o que escrevo levar à reflexão e análise dos opostos, sem ideias pre concebidas por se tratar de um blog que deu uma banana pra religião heheh. Um abraço

PermalinkPermalink 17.05.11 @ 20:24



Comentário de: Eric Jóia · http://www.ericjoia.blogspot.com

Faz algum tempo que não venho aqui ler alguma coisa, mas pra minha surpresa, nada mudou. Você continua lúcida e sincera.
Tenho a minha experiência de fé, mas do que importa dizer se ela é diferente ou parecida com a sua? Ela é minha, e só minha, assim como a sua.
Fico muito feliz em ler o seu texto, principalmente porque ele revela o que na minha humilde opinião é a intenção do evangelho de Jesus... que os homens de maneira individual tenha sua própria experiência com Deus.
Sua história é linda pelo simples fato de ser nua e crua.
Beijo no seu coração e sucesso.

PermalinkPermalink 14.09.11 @ 12:34



Comentário de: Regis Domingues · http://reflexaoeinsight.blogspot.com/

Já sou um fã seu. Admiro o que você escreve e acho que é preciso coragem para relatar coisas da vida pessoal e ao mesmo tempo superação e maturidade para fazê-lo com leveza e poesia. Você é uma mulher inteligente e belíssima, só de pensar passo mal... rs. Também atravessei situações muito próximas das que você vivenciou. Também me ‘converti’ e me casei num ambiente ‘evangélico’. Também passei por uma dolorosa separação... e hoje, como você, entendo que valeu pela experiência e para o necessário amadurecimento. Mas, apesar de tudo, mantive a fé por entender que o evangelho e sua mensagem estão acima das interpretações equivocadas de muitos líderes e igrejas. O cenário que habitualmente vemos nesse mundo religioso, geralmente repleto de julgamentos e juízos, dogmas e doutrinas, de uma fé irresponsável em nome de uma providência divina, é mais um cenário construído a partir de neuroses patentes e psicoses latentes. Tudo isso é totalmente alienado da mensagem e do exemplo de Cristo. Realmente o evangelho nos imputa uma dada exigência que é essa: Amor, Conciliação e Compreensão. Continue sendo essa pessoa sincera, corajosa e inspiradora. Continue sendo quem você realmente é. ‘Foi para a Liberdade que Cristo nos libertou’ (Gálatas 5:1)
Afetuoso Beijo e forte abraço.
Regis

PermalinkPermalink 01.11.11 @ 15:28



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