Talvez eu me arrependa do que vou contar.
Alguns mais atentos ou leitores mais assíduos talvez já tenham percebido.
Tenho transtorno bipolar do humor. Se do tipo I, II, III, não sei... Sei que já brilhei muito e hoje estou completamente apagada.
Mas todo mundo hoje se diz bipolar né? Quem é de lua é bipolar, quem é instável é bipolar, quem é agitado é bipolar. É bonitinho se dizer bipolar! Mas não tem nada de bonitinho em ser. Existem fases bem legais, de muito brilho, muitas idéias, muita certeza: o mundo é meu e eu posso tudo! Quem dera fosse sempre assim. Quando essas fases chegam, você acha que elas vão durar pra sempre, você pensa "ufa, finalmente estou bem, finalmente sou eu mesmo, estou curado, vou conseguir ser feliz como as outras pessoas ou tentar ser, assim como os outros tentam todos os dias".
Até que tudo que você acreditou ser uma verdade, ser palpável, ser realizável... desmancha. O quarto fica cinza, o sol incomoda, o barulho irrita, as roupas são todas feias e não existe motivo nenhum para sair de casa, nem para ficar. Não existe motivo.
Meu primeiro diagnóstico foi distimia: 2004. Remédios, terapia cognitiva-comportamental. Ia trancar a faculdade. Não tranquei. Consegui terminar encarando o último semestre com 6 disciplinas + monografia + trabalho final de TV + trabalho final de jornal (esses trabalhos equivaliam a um espécie de monografia também, TCC, como se diz agora).
Num certo ponto, parei com os remédios e com a terapia. Larguei a igreja, me separei. Arrumei um trabalho e um namorado. Estava feliz. Exultante. Feliz, feliz, feliz... O novo psiquiatra achou que eu estava feliz demais (tinha abandonado o primeiro com a desculpa para mim mesma de que "ele receitava muitos remédios"). Segundo diagnóstico: bipolaridade: 2005. Terapia, estabilizador do humor, anti-depressivos. Em algum ponto julguei que ele estava errado. Eu só estava feliz porque tinha conseguido um emprego, me libertado de uma relação que não funcionava mais e estava apaixonada, oras! Larguei os remédios.
2006: sem emprego, sem namorado. Terceiro diagnóstico: transtorno de personalidade borderline. Novo profissional, dessa vez uma psiquiatra/psicóloga. Tratei-me com ela por quase três anos. Primeiro sem medicamentos, depois apenas com antidepressivo. Tomei boas decisões que não se sustentaram por muito tempo. Ela chegou a me dar alta. Saí de casa. Voltei. Retornei à terapia até que desisti por um "desentendimento com ela". Saí de casa de novo. Voltei outra vez. Namorei, morei com o namorado, desnamorei.
Início de 2010: de volta ao começo. Procurei novamente meu primeiro psiquiatra. Ele percebe que estou mais ansiosa do que melancólica, como na primeira vez em que o procurei.
Hoje me trato com ele. Tomo os remédios, faço psicanálise.
Tenho transtorno do humor. E não é nada bonitinho ter transtorno do humor. Agora é moda. Mas é uma moda bem feia. Se as pessoas vissem como são as "roupas bipolares" do avesso, elas não gostariam de vesti-las. Elas as jogariam longe.
![]() |
| De Imagens para blogs Ju Dacoregio |
Eu só estou contando isso porque não sei o que vou fazer nos próximos 15 minutos. Sei que o que muita gente pensa que eu tenho é uma "frescura de menina mimada". Tudo bem. Eu sou uma menina mimada. Mas eu sei quando é só o "mimo" que está presente. Meninas mimadas não têm os olhos vidrados, sem brilho. Meninas mimadas não ficam cinco dias sem tomar banho. Meninas mimadas não faltam à academia, nem adiam até não poder mais a hora de pintar o cabelo ou fazer as unhas. Meninas mimadas levantam cedo pra ir trabalhar, com preguiça, mas passam rímel e blush. Meninas mimadas são bem mais divertidas que meninas bipolares. Pode crer.
Hoje consegui lavar a cabeça.
As outras pessoas insinuam que sabem como é estar deprimido porque passaram por um divórcio, perderam um emprego ou romperam relações com alguém. A verdade é que essas experiências trazem consigo sentimentos. Já a depressão é neutra, oca e insuportável. Ela é também cansativa. Ninguém agüenta ficar ao lado de quem está deprimido. As pessoas podem achar que deviam ficar, e podem até tentar, mas você sabe e elas sabem que você está incrivelmente chato: irritável, paranóico, sem senso de humor, sem energia, cheio de críticas e exigências, e nenhum tipo de esforço para reanimá-lo jamais é suficiente. Você está assustado e está assustador.
(Uma Mente Inquieta - Kay Redfield Jamison)
obs.: texto sem revisão porque se eu for reler apago tudo.
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/43249
Posts similares:
Férias
Mentes inquietas
Aviso Importante para TODOS os leitores:
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
eus” nos chama pelo nosso nome, nos fazendo lembrar da nossa vocação através do seu chamado.Post anterior: Antes queimávamos sutiãs, agora os exibimos!Próximo post: Marilyn por mim
Juliana Dacoregio