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Trechos de "Gritos que fizeram história", texto de Marta Góes, publicado originalmente na Revista Veja - Edição Especial Mulher:
Num passado não muito remoto, quando uma mulher tinha profissão ou emprego, dizia-se que trabalhava fora. O trabalho dos homens dispensava explicação – só podia mesmo ser fora. Essa diferença nem tão sutil traduz à perfeição o velho modelo da existência feminina: a casa era a regra, o mundo a exceção e a atividade doméstica, leve ou pesada, não era reconhecida como ocupação. Agora que a mulher representa metade da mão de obra do mundo ocidental (no Brasil, 42,4%), e que a avalanche de informação por vezes obstrui a visão do caminho percorrido, é bom lembrar expressões que envelheceram e saíram de cartaz, ou que entraram em cena, rompendo silêncios seculares. Elas nos devolvem imediatamente a consciência do avanço.
"Pai ou responsável", lia-se, sob a linha destinada à assinatura, abaixo das notas, nas cadernetas escolares que as crianças levavam para casa todo mês. Se o pai não estivesse, ou não pudesse assinar, o.k., a assinatura da mãe servia. Até a Constituição de 1988 e a reforma do Código Civil, em 2002, a estrutura familiar era uma escadinha cujo degrau mais alto era ocupado pelo marido. Entre outros direitos, ele podia anular o casamento se a noiva não fosse virgem e deserdar a filha se ela não fosse "honesta". Hoje, ao menos teoricamente, marido e mulher figuram lado a lado (cerca de 35% das famílias são chefiadas por uma mulher).Já não se fala em pátrio poder, porque ele não existe mais. Foi substituído pela autoridade familiar. Já era tempo.
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Na década de 60 falar sobre pílula e divórcio ainda era tabu
Direitos da mulher eram assunto espinhoso. Ao estrear, em 1963, na revista CLAUDIA, a coluna A Arte de Ser Mulher, em que defendeu a pílula, o divórcio e a inserção no mercado de trabalho, a jornalista e psicóloga Carmen da Silva foi ameaçada por maridos furiosos. Quase dez anos depois de a edição de REALIDADE ter sido recolhida das bancas, em 1967, por estampar a fotografia de um parto e a informação de que uma em cada quatro brasileiras já provocara um aborto, um número do jornal Movimento que não trazia uma palavra sobre sexo (nem sobre política) foi proibido na íntegra – seu tema, mulher e trabalho, foi considerado provocador.
Mas tudo isso ficou para trás. Tensão pré-menstrual, quem diria, virou nome de revista; vagina foi parar no título de uma peça de teatro, por sinal, comédia (Os Monólogos da Vagina); e, duas décadas depois de o quadro "Comportamento sexual" ter sido tirado do ar porque a sexóloga Marta Suplicy falava sobre orgasmo, uma senhora de aparência
austera, a enfermeira Sue Johanson, exibe na televisão vibradores fosforescentes e piercings genitais. Provoca, no máximo, espanto.
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Feminismo não é queimar sutiãs
Pela maneira como é descrito hoje, o feminismo parece um movimento longínquo, personificado por radicais que queimavam sutiãs e combatiam, além dos homens, irrelevâncias como o batom e a depilação. Na realidade, trata-se de uma ação continuada, competente e internacional, que soube pôr no coração do poder questões cotidianas e urgentes para milhares de indivíduos que permaneceriam invisíveis sem essa pressão. Cada conferência da ONU para as questões de gênero – no México, em Nairóbi, em Pequim... – correspondeu a novas ações governamentais para reduzir a desigualdade.
No Brasil, quando se delineou a perspectiva de uma nova Constituinte, o movimento feminista já era forte e articulado o bastante para pôr a igualdade na letra da lei. Outro slogan cunhado à época – "os direitos da mulher são direitos humanos" – revela que uma verdade aparentemente
óbvia pode levar séculos para ser reconhecida.
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Mulheres sem medo do ridículo
Hoje, quem se diverte ao ver esmiuçados com graça os temas "de menina", em programas como Saia Justa ou a série americana Sex and the City, nem imagina como isso já foi perigoso. O mundo estava sempre pronto a classificar como ridículo tudo o que fosse exclusivo das mulheres, e o medo desse rótulo levava muitas delas a proclamar um sonoro horror a "mulherzinhas" – Camille Paglia foi implacável com elas – e a feministas. "O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris", ironizou Millôr Fernandes. Por alguma razão, entretanto – alguns vão falar em genética, outros em cultura –, a maioria não teve medo de ser chamada de ridícula.
O escritor Paulo Coelho foi o primeiro a manifestar admiração por essa capacidade. Acusado, num de seus muitos debates com a crítica literária, ainda na década de 90, de só ter se tornado um campeão de vendas graças à preferência do público feminino, aí entendido como consumidor de bobagens, ele celebrou. Se não fosse a liberdade das mulheres de gostar daquilo que o establishment desaprova, não haveria cultura pop, argumentou Coelho. Fenômenos como Elvis Presley, os Beatles e a Jovem Guarda só explodiram porque garotas capazes de gritar e arrancar os cabelos de entusiasmo, sem medo do que os outros iriam pensar, lotaram auditórios e estádios.
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Sempre julgadas pela aparência
O machismo não costuma ser gentil com quem ousa desafiá-lo. Autora do livro A Mística Feminina, cuja edição de bolso, lançada em 1964, vendeu 1,3 milhão de exemplares na primeira impressão, a escritora Betty Friedan (1921-2006) era mencionada sempre pela aparência física. Era feia. Um episódio de sua visita para lançar a edição brasileira de sua obra, em 1971, deu origem a uma brincadeira repetida até hoje por jornalistas da velha guarda. Um grupo esperava o elevador em um edifício de São Paulo quando as portas se abriram. Havia dois passageiros: o presidente da empresa e a escritora, que fora convidada para um almoço no restaurante da diretoria, no último andar. Quando as portas se fecharam e os sorrisos murcharam, um jornalista perguntou: "Essa é a americana que quer liberar as outras?". Diante da confirmação, tascou: "Por mim, está liberada". Boa parte da humanidade,contudo – metade, no mínimo –, precisa até hoje de mulheres como ela.
Liberdade de Escolha
Até que Simone de Beauvoir desfizesse o mito do destino biológico, a maternidade constituía um dever inescapável, e não uma escolha. Para a autora de O Segundo Sexo, gravidez, aleitamento e criação dos filhos eram o motivo da dominação da mulher pelo homem. Feministas de outras gerações foram além, ao mostrar que a dominação é que tornava a maternidade um grilhão, e não o contrário. Novas técnicas conceptivas e contraceptivas reforçaram o direito da mulher à escolha, e sexo separou-se de vez de reprodução. As mulheres ainda querem filhos, mas já não passa pela cabeça de ninguém ser apenas mãe.
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Contra Machismo
Vírus Planetário
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/42755
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Juliana Dacoregio