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| De Imagens para blogs Ju Dacoregio |
Fernanda Young, em seu novo livro Tudo que você não soube, fala sobre como é conflituoso ser uma mulher no Brasil e sobre como recebemos orientações contraditórias desde a infância, antes mesmo de começarmos a entender de fato alguma coisa. Antes dos três anos de idade, provavelmente, nos reprimiram por coçar nossas partes íntimas, por exemplo. Uma mulher adulta coçando discretamente sua genitália: ó meu Deus, que coisa feia! Mas um homem coçando levemente o saco, ou dando a famosa "ajeitadinha" pode até ser feio, mas não causa espanto a ninguém. Uma mulher com coceira é quase nojento. Mas ei, as pessoas sentem coceiras e elas nem sempre são problemas dermatológicos ou algo do tipo! Uma mulher pode simplesmente estar dando uma ajeitadinha também. Pensa que uma calcinha de renda meio enrolada não incomoda?
Já ouviu a clássica: "O que é isso, tá coçando o saco?!" Peraí, só posso ter coceira se tiver saco? Não posso ter coceira nos pequenos, médios, grandes lábios e no escambau a quatro que faz parte da minha anatomia feminina?!
E depois ainda dizem que não precisamos mais do feminismo... Não podemos nem nos coçar sossegadas, ora bolas!!!
Mas divaguei nas coceiras. O texto de Fernanda Young não fala exatamente sobre isso, mas é uma grande verdade sobre a pressão que está sobre as mentes femininas. LEIA!
"Tente imaginar o susto que é ser uma garota. Na rua somos cantadas, em casa, somos reprimidas. Querem-nos belas, mas nos agridem se tentamos. Somos violentadas sob a capa do afeto. Não há como evitar: ser menina é um problema. Principalmente para as meninas que nascem aqui no Brasil, um país onde a mulher, além da obrigação de ser bonita, tem a obrigação de ser a dona da alegria. Tem que fazer comida e fazer charme. Tem que ter coragem e bunda. Tem que saber sambar e saber o seu lugar. Uma barbárie.
(...) nos querem festivas e subjugadas. Efusivas e caladas. Dadas e reservadas. O Brasil é macho, muito macho. É o pau-brasil, o bumba-meu-boi, o saci-pererê, o berimbau, o futebol. E as meninas brasileiras são criadas para seguirem em frente sem perceber o quanto são ridicularizadas. Aqui é pior que na China, na Índia, países onde as mulheres são oficialmente inferiorizadas. Aqui, se disfarça. Somos enganadas, levadas a crer que ser menina é isso mesmo: tomar na bunda sorrindo.
Seja uma menina no Brasil, e nada ao seu redor fará com que você se ache um indivíduo necessário. Conhecidas me deram parabéns por agora eu estar vivendo da minha própria pensão. Eu deveria me sentir satisfeita, porque passei a ser uma dondoca inútil. (...)
Os homens envelhecem e ficam mais maduros, as mulheres envelhecem e ficam desesperadas."
Fernanda Young - Tudo o que você não soube
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| De Imagens para blogs Ju Dacoregio |
Volto a divagar... Isso de sentir-se feliz por conseguir uma boa pensão me fez lembrar de uma conversa com um amigo. Ele nem imaginava que, desde crianças, a maioria das meninas também escuta que "tem que arranjar um marido rico”. E ao mesmo tempo fala-se sobre independência, carreira. Mas o fantasma do "marido rico", do príncipe encantado, fica ali cravado na cabecinha infantil. Viver num castelo é a meta inconsciente de toda menina. Como não poderia ser se, nas histórias que nos contaram, todas as belas e bondosas mocinhas eram recompensadas com um final feliz ao lado de um homem num belo palácio? Está feito o estrago: é bom seja independente, maaas não deixe de ser bela e de encontrar o príncipe que lhe salvará de todos os perigos. Ah, e seja bondosa também, porque as rainhas malvadas e as bruxas sempre se dão mal!
PS - Há também em Tudo que você não soube uma análise ótima sobre as relações de gênero no filme Atração Fatal. Recomendo!
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/42243
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Juliana Dacoregio