29.05.10

01:17:12, Categorias: Links, Crônicas, Leitura, Losing my Religion  


De Imagens Heresia Loira

Crônica de Contardo Calligaris sobre o artigo "Será Deus um Acidente?", de Paul Bloom, psicólogo da Universidade Yale, será que Deus é um acidente?):

Bloom trata de nosso dualismo, ou seja, de nossa crença "espontânea" na idéia de que nossa subjetividade seja separada de nosso corpo. O fato é que, mesmo se sou materialista, falo sem hesitar que "tenho" (e não que "sou") meu corpo, como se "eu" fosse uma coisa bem diferente dos 72 kg de matéria que carrego habitualmente comigo.

Isso, afirma Bloom, não é efeito de uma crença. Uma série de pesquisas mostram que crianças pequenas (sem sistemas organizados de crenças) enxergam a vida do corpo e a vida da mente como coisas separadas. Eis um exemplo. Um grupo de crianças assiste a um filme em que um crocodilo devora um ratinho. Depois disso, o pesquisador coloca perguntas sobre as funções corporais e as funções psicológicas (subjetivas) do ratinho, que obviamente está morto. "Agora que o ratinho morreu, ele ainda precisa ir ao banheiro?" "Claro que não", dizem as crianças. "Será que sua cabeça funciona?" "Claro que não." "Será que ele ainda sente fome e vontade de voltar para casa?" Pois é, "claro que sim", dizem as crianças.

Bloom observa: não somos dualistas porque acreditamos (religiosamente) numa vida além da morte, mas, ao inverso, acreditamos numa vida além da morte porque somos dualistas (ou seja, porque concebemos espírito e corpo como coisas separadas). Se não coincido com meu corpo, por que eu não sobreviveria quando ele morrer?
Agora, o que será que nos faz conceber espírito e corpo como coisas separadas?

Bloom apresenta pesquisas e exemplos clínicos que mostram o seguinte: nossa capacidade de compreender o social (os outros, nossos semelhantes) desenvolve-se por um caminho diferente e separado do caminho pelo qual nos tornamos capazes de entender o mundo físico e material. É como se construíssemos e usássemos dois computadores distintos: um computador para entender, por exemplo, a causalidade mecânica e outro computador para entender as intenções humanas.

Nenhum terapeuta se oporá a essa idéia: há condições (a síndrome de Asperger, por exemplo) em que um sujeito pode sofrer de um déficit doloroso de compreensão das relações humanas e, ao mesmo tempo, ter uma perfeita compreensão do mundo físico e até ser um cientista de valor.

Último argumento de Bloom: de nossos dois "computadores", um se desenvolve mais e invade o terreno do outro. É o "computador" para compreender nossos semelhantes, que acabamos usando também na hora de entender a natureza. Aqui, as experiências mostram com quanta facilidade os humanos atribuem intenções ao mundo inanimado. De fato, todos ouvimos dizer que a Aids seria um "flagelo divino" contra homossexuais, drogados e promíscuos ou que o tsunami seria uma "vingança" da natureza.

Conclusão de Bloom: tendemos a ser religiosos (a acreditar numa vida além da morte, num sentido para o mundo e numa intencionalidade suprema) como efeito de nosso desenvolvimento mental e cognitivo.
Tudo isso não nos diz se Deus existe ou não nem se existe ou não vida após a morte. Mas, por uma vez, fato notável, a religiosidade é explicada não por seu uso ou por sua finalidade, mas como efeito de nossa constituição psíquica.

Permalink 582 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (4)
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Comentário de: Luciano Maia · http://reverendomaia.blogspot.com

Como Saramago me disse num almoço político há mais de sete anos: "Você não pode provar que o Deus que vc diz existir existe. e eu não posso provar que o deus que vc diz existir não exista".

PermalinkPermalink 30.05.10 @ 21:20



Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com

em Deus, um Delirio, Dawkins gasta um capitulo ( Um dos últimos) pra explicar nossa crença em deus. E é exatamente esse o argumento dele: nossa capacidade de dotar a natureza e objetos de intenção. Ele também explica que essa “humanização” do mundo inanimado foi uma característica adaptativa selecionada naturalmente que nos ajudou muito a chegar ao nosso atual “estagio” mental.

PermalinkPermalink 01.06.10 @ 11:27



Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com

concordo com Luciano. mas Isso também não quer dizer que as chances de existência de deus sejam iguais. 50/50. não mesmo.

PermalinkPermalink 01.06.10 @ 11:28



Comentário de: André Tadeu de Oliveira

Cara Rayssa, me perdoe, mas, filosoficamente, ambas posições,cética e cristã, gozam de um resoluto empate técnico.

PS : É minha humilde opinião.

PermalinkPermalink 11.06.10 @ 20:54



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