23.05.10

03:24:21, Categorias: Comportamento, Música, Televisão, Cultura Pop, Mulheres  


De Imagens Heresia Loira

Márcia Tiburi mandou muito bem nessa análise sobre Lady Gaga. Segue um trecho, sem as introduções filosóficas:

"O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.

No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens.

Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem. Um contraponto é criado no vídeo entre a imagem do rosto da própria Gaga levissimamente maquiado, demarcando o caráter angelical de sua personagem, em contraposição ao caráter doentio da personagem da mesma Gaga de cabelos arrepiados e olhos esbugalhados. Entre eles a bailarina sensual junto de suas companheiras faz o elogio do corpo que é obrigado a se erotizar diante de um grupo de homens.

A noiva é queimada. Sobre a cama, no fim, a noiva como um robô um pouco avariado, mas ainda viva, contempla o noivo cadáver. A ironia é o elogio do amor-paixão, do amor-doença e morte ao qual foi reduzido o amor romântico pela estética pop da ninfa pós-feminista. O feminismo só tem a agradecer.

Em “Telephone”, a estética eleita é a da lésbica e da pin-up. Ambas criminosas. A primeira por ser uma forma de vida feminina que dispensa os homens, a segunda por ameaçá-los com uma estética da captura (a mulher-imagem-de-papel, a mulher “cromo”, a mulher-desenho-animado que configura o conceito do “broto”, do “pitéu”). No mesmo vídeo o personagem de Gaga compartilha com Beyoncé uma cumplicidade incomum entre mulheres.

Esse sinal é dado no meio do vídeo, quando Beyoncé vai resgatar Gaga na prisão e ambas mordem um pedaço de pão, que logo é lançado fora como algo desprezível. A comida mostra-se aí como o objeto do crime. O vídeo é mais que um elogio ao assassinato do mau romance, ou da vingança contra o evidente amor bandido de quem a personagem de Beyoncé quer se vingar. Trata-se de uma profanação da comida pelo veneno que nela é depositado. O amor bandido é morto pela comida, uma arma simbólica muito poderosa associada à imagem da mulher-mãe, da mulher-doação, dedicada a alimentar seu homem na antipolítica ordem doméstica.

O palco é a lanchonete de beira de estrada como em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. O assassinato é o objetivo do serviço das duas moças perversas que, no fim do vídeo, dançam vestidas com as cores da bandeira norte-americana – meio Mulher Maravilha – diante dos cadáveres de suas vítimas, já que, além do amor bandido, todos morreram. Cinismo? Sem dúvida, mas como paradoxal autodenúncia.

Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?"

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Permalink 733 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (3)
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Comentário de: Gustavo Gitti · http://nao2nao1.com.br

Valeu, Juliana.

Fui lá ler o artigo inteiro.

To tentando levar essa temática ao PapodeHomem. Você topa escrever um artigo direcionado a homens que se esforçam para não cair no machismo, mas não reconhecem algumas visões machistas e acabam, sem querer, perpetuando algum tipo de restrição às mulheres?

Com esse público em mente, você pode abordar o assunto como quiser. Se topar, seguimos por email: gustavo@papodehomem.com.br

Abraço.

PermalinkPermalink 23.05.10 @ 04:28



Comentário de: Rodolfo T. Correa · http://www.rozaocorrea.blogspot.com

Não só o feminismo agradece, mas também aqueles ditos homens
que na boa descrição do amigo acima, rejeitam e se esforçam para não serem machistas.

A proposito, penso que o fim de toda essa dicotomia, está na eliminação das classificações ou dos rótulos. Bom, tento andar assim, você é a Juliana e eu Rodolfo (verde, amarelo, homem., mulher, isso não me importa).

Quanto ao post, muito detalhista, bacana mesmo.

abs, sucesso.

PermalinkPermalink 26.05.10 @ 19:25



Comentário de: Daniel Babugem · http://fadario7.blogspot.com

O texto é muito bom, de uma densidade tão equilibrada que
chego a invejar. Virei fã... Parabéns!

PermalinkPermalink 27.05.10 @ 00:39



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