
Um livro que se encaixa sob medida para aqueles que não se encaixam neste mundo e protelam até não mais poder a entrada na engrenagem social. Clara, a protagonista de “Mil e uma noites de silêncio”, o segundo romance de Mayra Dias Gomes, é uma mulher por volta dos seus vinte e tantos anos que prefere a segurança solitária do seu lar a ter de encarar o contato com pessoas de verdade que parecem viver vidas de verdade. Como se não bastasse, Clara trava uma luta árdua e infrutífera contra a insônia...
“Eu não conseguia dormir. Era atacada por pensamentos e lembranças, e virava de uma lado para o outro sem parar, lutando contra minha cabeça, sem sucesso. Meus olhos permaneciam doloridos por dentro... e mesmo com as pálpebras pesadas , eles cismavam em ficar abertos e vidrados. Eu estava tão fora de controle que nem meus próprios olhos me obedeciam.”
Não só o fato de ter sido abandonada pela mãe biológica aos 4 meses de idade a fez assim. Clara é essencialmente uma marginal, não no sentido de ‘vida louca e incoseqüente’. (Aliás, de inconseqüente ela não tem nada, ao menos não no início da trama.) Mas uma marginal no sentido de preferir viver à margem mesmo, olhando a vida comum da maioria e preferindo (ou não conseguindo) embarcar no ‘american way of life’...
“Pensava na interação com outras pessoas, e me sentia apreensiva demais. Temia ter me tornado um ser simplesmente anti-social e incapaz de sobreviver no meio de outros. Não conseguia entender como dividiria o mundo particular e intimista dos meus pensamentos com o mundo invasor da realidade.”
Sabe aquelas pessoas que não se encaixam em lugar algum? Para quem até o prosaico ato de acordar para trabalhar pode ser um suplício e motivo para crises de ansiedade sem fim? Essa é Clara. Mas após a morte da mãe adotiva ela se vê compelida a traçar novos rumos para sua vida que, se por um lado, não anulam sua inadequação, por outro a fazem descobrir verdades e conhecer mundos onde o caos é soberano e tudo acontece rápido demais. Nada que a desagrade profundamente, afinal Clara é uma alma caótica escondida atrás de um falso autocontrole...
“Meu corpo foi se acostumando com a fúria. Durante o caminho, ela mudava de direção. Eu olhava pelo retrovisor e sabia que a fúria era direcionada somente a mim. Sentia vontade de abrir a porta de maneira dramática. Queria pular do carro e voltar atrás. Correr até perder o fôlego. Mas eu continuava imóvel.”
A trama de Mayra Dias Gomes é bem amarrada, mas o que há de melhor em “Mil e uma noites de silêncio” é o mundo interno da protagonista, suas digressões e elaborações mentais sobre o que acontece ao seu redor e dentro dela mesma durante essa viagem rumo ao caos que a vida lhe impõe.
Me fez lembrar de um pequeno poema que abre o livro “Confissões de Adolescente”, de Maria Mariana...
“Meu mundo interno já nem se fala mais.
Ele berra, esperneia e urra.
Tem um bicho que briga na minha barriga;
Não me deixa dormir e me diz coisas que não quero ouvir.”
Leia também: Mundos Desconexos que fazem todo sentido
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Juliana Dacoregio