
Tem esse cara que anda comentando no meu blog e fui dar umas olhadas no blog dele. Ele citou o Poema em Linha Reta de Álvaro de Campos (uma das "catolze mil pessoas" que moravam dentro de Fernando Pessoa).
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda (...)
Não conhecia o poema, mas quando o li percebi que os amigos que mais amo e mais amei não são como aqueles eternos campeões descritos ali. E lembrei do que escrevi em junho...
Aos amigos desajustados (que se ajustam perfeitamente)
Amo meus amigos! Meus poetinhas de internet, malandros, escandalosos, ricos de sentimento e não de dinheiro, cheios de dores, vícios e manias...
Amo-os.
Porque eles entendem que o estômago quase sempre dói, que o sono bate às duas da tarde e a euforia às duas da manhã e que às vezes não dá para sair de casa porque se está simplesmente "mal".
Como assim, "mal"?
Não, não tem "como assim".
É só:
- Hoje não dá, estou meio mal.
- Ah, tudo bem, quer conversar?
- Não precisa, amanhã já passa.
- Então tá.
Amo-os quando eles não se conformam de não estarem em Paris, quando fingem que o bar da esquina é um pub londrino, quando preparam dry-martinis nas taças certas, mesmo que estejamos no lugar mais simples do mundo ou fumam Cohiba como se fosse charuto de macumba.
Os luxuosos sem palácio, os escritores sem livros, os cineastas sem filmes, o pão com alface no casarão.
Amo-os porque eles sabem que voltinhas de carro, cigarros, choros, palavrões, krepes e salgadinhos não resolvem nada, mas há momentos em que são as alternativas mais salutares para a mente não entrar em parafuso.
Amo-os porque nunca censurariam uns aos outros ao ouvir:
- Vou tomar um Dormonid e amanhã é outro dia.
Eles sabem que mais importante do que ser saudável é não surtar. Eles sabem e assumem que não são campeões em tudo. Eles sabem que atos ridículos podem virar lembranças sentimentais. Amo-os porque eles não se espantam com quase nada.
Fernando Pessoa bradou "Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?"
Mas eu sei que não sou a única. Porque os tenho. E me fazem rir dos meus problemas. E me ajudam a pular os meus muros, exorcizar os meus demônios, galgar os degraus do meu auto-conhecimento. Espero sempre poder fazer o mesmo por eles.
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Juliana Dacoregio