10.12.09

23:09:15, Categorias: Egotrip, Crônicas, Leitura  


Eu queria dizer, mas Clarice disse antes...

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.

Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.

Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.

Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.

Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

(Clarice Lispector - em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

Permalink 353 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (5)
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Comentário de: Bibi · http://divagandosobremoda.blogspot.com

Eu também queria dizer tudo isso, mas Clarice chegou primeiro...hehehehe


PermalinkPermalink 11.12.09 @ 08:40



Comentário de: Carlus · http://sr-carlus.blogspot.com

Esse texto é um soco na boca do estômago
um tapa na cara da hipocrisia

"temos disfarçado com falso amor nossa indiferença"

é bom quando poetas como Clarice falam o que tanto queremos falar!

Bjos

redescobri você (vinha aqui quando escrevia no Three Love´s), te achei no orkut e cheguei aqui. Posso te "seguir"?

PermalinkPermalink 11.12.09 @ 18:50



Comentário de: Nailson

Poisé... eu vivo a vida, do jeito que acho bom... alguns chamam de loucura, mas loucura e não aproveitar a vida...

PermalinkPermalink 12.12.09 @ 11:48



Comentário de: Helen Araújo · http://incumbencia.blogspot.com/

Ih menina, to lendo esse livro, e até agora esse é um dos trechos que mais me chamaram atenção, inclusive ia postar no meu blog... Clarice disse antes e vc postou primeiro haushaushaus x)

PermalinkPermalink 14.12.09 @ 02:02



Comentário de: Leticia

Impressionante esse dom que uns poucos têm, essa capacidade de perfeitamente coletar, num recipiente de cristal límpido e transparente, os líquidos disformes das percepções que a todo momento se espraiam por nossos pátios de concreto cinzento.
Que venham os jardins, para que possamos regá-los. Já há água demais dispersa no concreto!

Jú, ótimo post, a Clarice é o máximo!

PermalinkPermalink 26.12.09 @ 09:30



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Juliana Dacoregio
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