
Um amigo se foi.
Não era íntimo, mas era íntimo dos íntimos.
Não era íntimo, mas já havíamos compartilhado das mesmas baladas, o que acaba criando aquela intimidade rápida e louca de pessoas que se unem em uma rodada de dança, música, bebidinhas e muito riso. Aquelas noites que geram piadas internas que duram o ano inteiro. Esteve aqui em casa.
E antes disso... Antes disso ele já era o menino da vídeo-locadora...
O menino da vídeo-locadora com um gosto cinematográfico bem diferente do meu. Eu nunca deixava ele me dar muitas indicações. Mas ele sempre queria dar suas dicas e falava muito, às vezes, contava mais dos filmes do que eu gostaria de saber antes de assisti-los. O menino da vídeo-locadora com cabelos cacheados. O único alto e magro da vídeo-locadora. O menino da vídeo-locadora que cursava psicologia.
Para mim ele era isso, mas era muito mais para muito mais gente. Ele era tanta coisa. E hoje todas essas coisas estão muito mais cheias de significados. Ele era tanta coisa. E se foi.
Daí olho ao meu redor, vejo os que estão por aqui e percebo que às vezes coisas tão pequenas me afastam deles. Vale a pena? Vale a pena a irritação, vale a pena o orgulho, vale a pena olhar para o que deixaram de fazer por mim? Vale a pena desconfiar e acreditar sempre que as pessoas tem as piores intenções possíveis? Não vale. Não vale, porque pessoas são falhas e diferentes. E esse "diferente" não quer dizer melhor ou pior, é apenas diferente. E da mesma forma que é diferente o jeito de comer, de falar, de andar, é diferente também o jeito de amar, de valorizar e de demonstrar. É diferente o que machuca e o que alegra. Mas a amizade está ali, talvez mais forte do que você imagine. E um amigo que se vai, coloca as pequenas coisas e as pequenas diferenças em seus devidos lugares. Lugares minúsculos, lugares de pequenas coisas, pequenos lugares que deveriam receber apenas um breve olhar míope de nossa parte.
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Juliana Dacoregio