
Não vou poder comparecer ao Porto Cai na Rede, em Porto de Galinhas, mas é por uma boa causa: de 26 de setembro a 8 de outubro vou dar uns giros por Paris e Londres. Quem quiser acompanhar a minha viagem com o @alexotan é só acompanhar o Blog de Turista.
Então, enquanto isso o Heresia Loira vai ficar meio paradinho, mas vou tentar dar as caras no Twitter, postar as fotos da viagem no Flickr e, claro, relatar nossas aventuras no Blog de Turista.
Vou mesmo tentar postar o máximo possível no intervalo entre um champanhe nacional e outro! Sem esquecer das poses existencialistas nos cafés parisienses. Te mete! Quanto ao idioma, sem problemas. Aprendi com o Mr. Bean que a palavra que mais vou usar na França é "gracias". Não tem erro.
Recebi um comentário da Helen com várias perguntas sobre minha relação com a fé e sobre meus tempo de evangélica. Resolvi responder por aqui mesmo, como um post, já que muitas pessoas já me fizeram questionamentos parecidos. Aí está então, a breve "entrevista" da Helen comigo:
E se Deus existir?
Se Ele existir eu espero que me ame como meus pais me amam. Isso dá e sobra.
O que Deus deveria fazer pra que você acreditasse em sua existência?
Vixi, não sei... Paz e amor no mundo inteiro, talvez.
Como você acha que Ele deveria exercer seu papel de Deus?
Usando o poder ilimitado dele para fazer com que mais nenhuma pessoa seja violentada, nenhuma criança tenha sua inocência maculada, ninguém passe fome, não haja guerras, essas coisas.
Por que Deus não pode simplesmente existir, você tem medo dessa possibilidade, ou melhor, tem medo Dele?
Ele pode simplesmente existir sim, mas dadas as condições da raça humana eu posso simplesmente duvidar da existência dele. Se ele for mesmo como os pastores o descrevem eu tenho medo dele sim. Se ele deixa que pessoas passem a eternidade no inferno, eu tenho muito medo dele.
O que faria/sentiria se Jesus voltasse agora e você se deparasse com a realidade de sua promessa?
Eu falaria "puta merda, aquele bando de crente louco tava certo!"
Por que você deixou de crer em Deus, por causa da experiência com os crentes e a igreja ou por outro motivo?
Por causa do inferno. Não posso crer num Deus que tenha o inferno como uma opção para suas criaturas. Eu tenho dó de queimar livros meus ou de jogar fora minhas bonecas de quando eu criança, imagina se eu iria criar um bando de gente, com alma, com sentimentos, com emoções e pensamentos próprios e depois ia deixar que elas passassem a eternidade queimando, gemendo e rangendo os dentes?! Então, basicamente comecei a questionar a doutrina do inferno, dentre outras incongruências da Bíblia. Por fim decidi que não poderia continuar frequentando uma igreja evangélica se não acredito nas premissas básicas da fé que ela prega.
Quando era cristã se sentia livre, amada por Deus?
Me sentia livre, mas desde que eu abrisse mão de certas coisas. Não apenas coisas que qualquer um deve abrir mão, mas coisas simples e inocentes, como ouvir Beatles, por exemplo. Se eu ouvisse "músicas do mundo" já me sentia culpada. Também me sentia culpada se eu passasse um dia sem orar, se eu faltasse ao culto, coisas desse tipo. Mas me sentia amada por Deus, sim. Minha imagem de Deus era de um cara meio hippie eu acho, gente boa pra caramba, doidão, mas paizão também. Com uma imagem dessas não é de se espantar que eu não conseguisse encaixar esse Deus com o Deus "Vingador", que tem fogo e enxofre para aqueles que não o quiserem. (Agora que me liguei no paradoxo: se minha imagem de Deus era de um hippiezão, por que eu me sentia culpada com coisas tão pequenas? Acho que eu alternava a imagem do hippie-paizão com a do Deus super formal, que exige certas atitudes dos seus filhos.)
Como foi parar na igreja, era crente de "berço" ou era do "mundo" e se converteu?
Era "do mundo" e me converti. Meu irmão que me levou para a igreja. Eram uns dias em que eu andava meio deprimida e acabei "me encontrando".
Você ouvia Diante do Trono?
Ouvia e gostava muito.
Acreditava em ato profético e afins?
No início nem sabia o que era isso, mas entrei numa igreja que estava começando a transição para o G12, adoração extravagante, atos proféticos, essas coisas, então entrei nessa "vibe" junto com todos os outros.
Era uma adoradora extravagante?
Totalmente extravagante. Achava lindo esse negócio de pular, gritar, rir, chorar, dar pirueta, virar cambalhota... Mas fazia tudo isso com sinceridade. Acho que até mesmo por ter uma personalidade bastante passional. Eu me jogava de cabeça na adoração! E não só com essas manifestações externas, também era capaz de ficar quietinha, só cantando, ouvindo um louvor e curtindo uma sensação boa demais que eu achava até que podia durar para sempre. Quase um transe. Hoje essas boas sensações me assaltam em outros momentos, mas são tão bonitas e puras quanto aquelas que eu acreditava serem proporcionadas por momentos com Deus.

Um amigo se foi.
Não era íntimo, mas era íntimo dos íntimos.
Não era íntimo, mas já havíamos compartilhado das mesmas baladas, o que acaba criando aquela intimidade rápida e louca de pessoas que se unem em uma rodada de dança, música, bebidinhas e muito riso. Aquelas noites que geram piadas internas que duram o ano inteiro. Esteve aqui em casa.
E antes disso... Antes disso ele já era o menino da vídeo-locadora...
O menino da vídeo-locadora com um gosto cinematográfico bem diferente do meu. Eu nunca deixava ele me dar muitas indicações. Mas ele sempre queria dar suas dicas e falava muito, às vezes, contava mais dos filmes do que eu gostaria de saber antes de assisti-los. O menino da vídeo-locadora com cabelos cacheados. O único alto e magro da vídeo-locadora. O menino da vídeo-locadora que cursava psicologia.
Para mim ele era isso, mas era muito mais para muito mais gente. Ele era tanta coisa. E hoje todas essas coisas estão muito mais cheias de significados. Ele era tanta coisa. E se foi.
Daí olho ao meu redor, vejo os que estão por aqui e percebo que às vezes coisas tão pequenas me afastam deles. Vale a pena? Vale a pena a irritação, vale a pena o orgulho, vale a pena olhar para o que deixaram de fazer por mim? Vale a pena desconfiar e acreditar sempre que as pessoas tem as piores intenções possíveis? Não vale. Não vale, porque pessoas são falhas e diferentes. E esse "diferente" não quer dizer melhor ou pior, é apenas diferente. E da mesma forma que é diferente o jeito de comer, de falar, de andar, é diferente também o jeito de amar, de valorizar e de demonstrar. É diferente o que machuca e o que alegra. Mas a amizade está ali, talvez mais forte do que você imagine. E um amigo que se vai, coloca as pequenas coisas e as pequenas diferenças em seus devidos lugares. Lugares minúsculos, lugares de pequenas coisas, pequenos lugares que deveriam receber apenas um breve olhar míope de nossa parte.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Ah, Fernando Pessoa, é por isso que te amo.

Povo tem mania de dizer que "odeia os pseudo-intelectuais". Tem até comunidade no orkut pra isso. Doce ironia: você está no orkut, usa-o com assiduidade e participa de comunidade para dizer que odeia pseudo-intelectuais. Sei não, mas algo me diz que o verdadeiro intelectual tem compreensão o suficiente dos mecanismos da vida em sociedade para não odiar alguém só porque ele é pseudo-alguma-coisa. Mas, vejamos, quem é o pseudo-intelectual, o tão odiado, desvalorizado, perseguido e subjugado pseudo-intelectual? Alguém que finge ser intelectual, mas não é, já que pseudo significa falso, algo ou alguém que exprime a idéia de falsidade.
Só que a maioria dos adeptos dessa palavra não a usa nesse sentido. Costumamos acusar de pseudo-intelectualidade qualquer um que tenha mais ou menos o mesmo grau de instrução que nós, mas que discorde de alguns dos nossos pontos de vista. Aí qualquer coisa vira motivo para classificar alguém como pseudo-intelectual: se o cara cita Nietzsche é pseudo-intelectual, se gosta de Tarantino é pseudo-intelectual, se reclama da novela é pseudo-intelectual, se lê Nietzsche e ao mesmo tempo adora novela, também ali está o indício de "pseudo-intelectualisse". Não leu os clássicos, é pseudo-intelectual; leu todos os clássicos e os cita em uma conversa, também é pseudo-intelectual. Todos julgando a si mesmos como os verdadeiros intelectuais, detentores de refinamento cultural. E a massa, como os pseudo-intelectuais, farsantes, dignos de pena e desprezo.
Pois bem, vamos aos fatos que fazem de você um verdadeiro intelectual... Já defendeu tese? Fala mais de três idiomas? Conhece culturas diferentes da sua, não só de ler e ouvir falar? Entende as diferenças entre um Schumman e um Beethoven? E as características principais entre Mozart e Wagner? Já leu os clássicos da literatura universal? Entende que existe cultura de massas e que ela também é uma forma válida de cultura? Toca algum instrumento musical, ou ao menos conhece a história de algum? Escolhe os candidatos em quem votar baseado nas propostas de governo? O mestrado e o doutorado estão em dia?
Não?! Então, querido, puxa aí uma cadeira e sinta-se em casa. Aqui somos todos pseudo-intelectuais. Todos pseudo-alguma-coisa. Estamos todos tentando acertar, tentando aprender, tentando elaborar algumas idéias e fazer algo diferente do que já foi feito, mas nem sempre conseguindo.
Não importa o conceito egocêntrico que nos faça apontar o dedo para alguém e vociferar "pseudo-intelectual"! Vamos continuar com nossas próprias limitações e elas não vão se desfazer simplesmente porque resolvemos que algumas pessoas não são tão cultas e inteligentes quanto nós.
Obs.: A tirinha é do Eu podia tá matando
Juliana Dacoregio