Primeiro achei o Murilo um bocó e a Julia uma sem noção parasita. Mas, pera aí... Quem me contou a história toda foi Carla, a mulher de Murilo que é amicíssimo de Julia desde os tempos de colégio. Carla casou aos 18 anos por impulso. Talvez mais para sair de casa do que por vontade de viver com Murilo. Sabe quando a guria encasqueta de provar pra todo mundo que pode se virar sozinha, ser uma ótima dona de casa, que não é filhinha de papai coisa nenhuma, que não precisa viver na barra da saia da mãe? Sabe quando para fazer tudo isso ela decide-se pelo caminho mais arcaico, o casamento? Foi mais ou menos assim com Carla.
Então, como vou confiar numa mulher dessas quando ela faz a caveira da melhor amiga do marido? Ainda mais quando a amiga do marido é uma artista, com todos os encantos e os dramas que essa condição traz. Julia é um pouco parasita, sim, mas, vejam bem, ela cuida da filha de Carla para que Carla possa ir à faculdade! Ela gasta horrores na loja em que Carla trabalha para que Carla possa ter uma polpuda comissão. Mas Carla não perdoa. Só perdoa porque precisa da babá e mesmo assim faz pouco do talento, dos dramas e da profundidade de Julia.
Ora, Julia é uma artista, confusa, volátil, insegura e ególatra como toda artista. (As exceções só confirmam a regra. Quando se trata de artistas as generalizações se aplicam muito bem. Artistas são caricatos por natureza.) Já Carla... Qual o talento de Carla? Vender roupas, estudar, cuidar de marido e de filho. Quer dizer, cuidar do marido, mas falar mal dele o tempo todo. Carla não consegue nem entender uma conversa mais filosófica, Carla acha que cama não é lugar para se discutir religião (cama é lugar para se debater qualquer coisa quando se está apaixonado. Quer momento mais íntimo do que um casal nu filosofando sobre cultura, religiosidade, sonhos e história de vida depois de transar? Desculpe, Carla, mas eu acho lindo e o Murilo pode até ser meio chato, mas não havia motivo para você ficar brava daquele jeito na lua-de-mel!). E Carla se preocupa com o caráter do pai da filha dela por causa de uma conversa sobre suicídio que ele teve lá na adolescência! Murilo era adolescente e metido a intelectualóide, só tinha 15 anos, ora bolas... E no fim das contas ele não incentivou suicídio nenhum (talvez sem querer tenha até ajudado a evitar, se bem que Libeca não ia se matar coisa nenhuma, falassem o que falassem), mas Carla não perdoa.
Porque Carla é a típica esposa arrependida que casou pelos motivos errados. Mas quando ela lhe contar a história toda talvez você discorde de mim. Não sei porque me identifiquei tanto com Carla num primeiro momento se eu, definitivamente, estou muito mais para Julia nessa história.
Quer saber do que estou falando?
Carla, Murilo e Julia são os personagens de Mulher de Um Homem Só, o novo livro do ótimo escritor e blogueiro Alex Castro. Um livro cujo único defeito é não ter mais umas cem páginas contando mais e mais da história desse triângulo amoroso.
Obs.: Alex Castro tem um dos melhores textos argumentativos que já li e as opiniões dele são muito parecidas com as minhas em diversos assuntos. Foi um dos primeiros blogs que comecei a ler com assiduidade e, mesmo ele blogando desde 2002, creio que já li quase todos os posts porque cada vez que entrava no blog dele ficava horas lendo os posts novos e os antigos, não só no LLL, como também no Sobre Sites. Sou fã mesmo!
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Juliana Dacoregio