Eu estava gripada... Tossindo, espirrando e cansada. Mas fui. Fui pra São Paulo. Pra quê? Pra passear com a Ana, pro Twitter-lunch, pra conhecer algumas pessoas que só conhecia virtualmente, pra estar só e conhecer mais essa pessoa que me acompanha há 28 anos, mas que ainda me é tão misteriosa às vezes.
E lá estava ela chorando durante a decolagem, de pura ansiedade e nervosismo, talvez até de cansaço e calor. Sabe, bebês choram quando estão cansados... e ela não é muito diferente. Lá estava ela no hotel, sozinha. Pela primeira vez num hotel sozinha. Só se deu conta disso na última hora. Já tinha voado sozinha inúmeras vezes. Mas sempre pra encontrar alguém muito familiar ou pra voltar pra casa. Nunca pra se lançar em uma cidade desconhecida, disposta a conhecer pessoas que nunca tinha visto antes, munida apenas de seus números de telefones. Não que não conhecesse São Paulo. Já tinha estado lá, mas apenas muito bem acompanhada e protegida, para passeios culturais e compras na "25 de março".
E de repente lá estava ela, andando até se cansar, negociando valores com taxistas, emendando um programa no outro, sem ir para o hotel tomar banho e trocar de roupa. (É por isso que as revistas femininas sempre trazem aquelas matérias de moda que ensinam a ir direto do escritório para a happy hour, com a mesma roupa, trocando apenas um acessório.)
E lá estava ela: pegando metrô sozinha, de olhos arregalados, tentando (e provavelmente não conseguindo) não parecer uma turista; andando pela cidade grande, atravessando avenidas movimentadas, derretendo de calor, se guiando por torres e instinto, segurando a bolsa com força, mas com ainda mais força segurando a alma, orgulhosa de si mesma.
Sempre tão cheia de controle: não sai de casa sem saber aonde vai, não fala com quem não conhece, dirige o próprio carro e sempre manda em seu próprio horário. Lá estava ela: saindo sem saber exatamente aonde ia chegar, ligando sem conhecer a voz que iria atender, comendo em lugares que nunca imaginaria comer, cantando num karaokê!
No filme Sim, Senhor, Jim Carrey faz o papel de um cara que se propõe a dizer mais SIM em sua vida. Um cara que nunca aceita nada que possa fugir ao seu controle, mas que começa a dizer sim pra qualquer oportunidade e pedido que se apresente diante dele. Claro que há limites pra tudo. Mas ao dizer sim, sem saber o que vai acontecer, pode-se descobrir situações e lugares maravilhosos, pode-se conhecer pessoas inesquecíveis. É o que acontece a Jim Carrey no filme. Ele começa a dizer SIM a todos os seus antigos desejos: aprender uma nova língua, tocar um instrumento... E tudo que ele aprende de novo, em um momento ou outro, acaba sendo útil. Claro, sempre é! Ele também diz SIM a pedidos inusitados, que acabam levando-o a encontrar a mulher por quem ele se apaixona. Algo parecido, certamente, já aconteceu comigo e com você. Por exemplo: o homem que está ao meu lado há mais de dois anos, o responsável direto por eu ter começado um blog, o cara por quem sou apaixonada... encontrei em uma viagem que decidi fazer sem nem ter muito porquê. Apenas um convite, que eu já havia recebido tantas vezes e tantas vezes dito não. Mas um belo dia eu disse SIM. E lá estava meu destino, minha surpresa, meu amor. Da mesma forma, disse SIM para essa viagem agora e me surpreendi com tudo que vi, ouvi, vivi. Surpreendi-me, principalmente, com o tanto que, olhando para fora, descobri dentro de mim. Tudo por causa de um SIM.
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Juliana Dacoregio