02.01.09

13:28:55, Categorias: A, Comportamento, Crianças, Losing my Religion  


“quero chorar a teus pés...”
“me abrigarei debaixo de tuas asas...”
“tu és minha fortaleza...”
“em ti me refugio...”

Esses são só alguns exemplos de versos recorrentes em músicas cristãs. Eles demonstram o desejo que todos nós temos de ter alguém mais forte do que nós para nos proteger e embalar. Somos todos órfãos, no fim das contas. Não importa se somos “trintões” mimados pelos pais ou se fomos criados em um orfanato. Somos todos carentes; bezerros desmamados saudosos dos tempos em que nossas ambições se resumiam a ter um colo quentinho. Com poucos anos de vida já descobrimos que todos morrem, que os pais não estarão por perto para sempre e aí já começa a sensação de desamparo que não pode mais ser aplacada com um simples colo. A partir de então seguimos buscando a mesma certeza de segurança que sentíamos na primeira infância ou mesmo no útero; não sabíamos da morte, nem das misérias humanas, não conhecíamos bondade ou maldade, simplesmente éramos. Éramos plenos. Confiávamos na proteção do adulto que cuidasse de nós. Desde que ele estivesse lá para atender a cada choro, nada mais importava; estávamos seguros.

Mas chega um momento em que nem todo o carinho do mundo aplaca nossa angústia. A partir do momento em que temos consciência de que “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe” passamos a viver com uma ansiedade que nos acompanha pelo resto da vida. Os pais amorosos, os amigos verdadeiros, o cônjuge fiel, nada disso vai durar para sempre e só nos resta desejar com todas as forças que dure o máximo de tempo possível. Como não viver angustiado com uma expectativa dessas?

Daí que não nos conformamos em não ter ao menos um símbolo de segurança que nunca pereça; um ser que esteja sempre ali, firme e forte, agüentando o tranco quando nós já não agüentamos mais. Pronto: Deus! Deus é nosso útero, nossa chupeta, nosso dedão na boca, nosso colo quentinho, nosso leite materno, nosso beijinho no machucado, nosso pai fortão que dá um jeito em tudo. Todos os símbolos de calor e proteção que já conhecemos um dia são substituídos pela idéia do Deus Todo-Poderoso, Almigth Lord! É bonito e romântico acreditar nisso e cantar versos sobre a proteção suprema que só Ele pode nos dar.

Nosso desejo de nos sentirmos seguros é tão forte que fingimos não perceber que “a presença de Deus em nossas vidas” não nos protege efetivamente de coisa alguma. Continuamos suscetíveis a todos os perigos, doenças, tragédias, erros, micos e mancadas. Continuamos tendo de tomar todas as precauções necessárias: o cinto de segurança, a tranca na porta, a vacina, a água filtrada. Continuamos chorando às vezes sozinhos, sem saber por que; continuamos nos apavorando diante da morte, continuamos levando nossos filhos ao médico ao primeiro sinal de uma dor de garganta. Mas o desejo de ser protegido por algo ou alguém bem mais forte do que nós, o desejo de sentir-se seguro é tão grande, tão avassalador, que seguimos crendo nessa figura Poderosa mesmo sabendo que no fim das contas estamos por nossa própria conta e risco.

Mesmo que tudo de ruim aconteça, continuamos crendo que quando ninguém mais pode nos ajudar, ainda há Um que sempre vai estar presente. Crer em Deus é fruto do desejo de que as coisas sejam tão simples quanto eram na primeira infância. Ele nunca te abandona; Ele nunca te trai; Ele nunca te engana; Ele nunca quer o teu mal.

Mas na verdade, não é Deus que nunca abandona aqueles que crêem Nele, e sim a certeza de crer em algo. A certeza é a grande deusa. É ela que nunca abandona aqueles que crêem. Eles têm tanta certeza de que crêem na coisa certa que dizem não apenas crer que Deus existe, mas saber que Ele existe. Eles sabem. Assim como o bebê sabe que estando no colo da mãe ele está livre de todos os perigos para sempre. Bom para eles.

Permalink 737 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (14)
Indique: del.icio.us Gafanhoto Rec6 Ueba Ueba

Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/28361

Posts similares:
Um Desejo
A polêmica do Pastor Moisés
Mestre Delih Responde

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Daniel · http://www.verbeat.org/blogs/razbliuto

Deus é catástrofes naturais, tmb :)

quem diz é o Ratzinger, em livro que li ano passado. próxima semana entra um texto a respeito, que programei no Amálgama.

beso.

PermalinkPermalink 02.01.09 @ 13:34



Comentário de: Thiago Mendanha · http://thiagomendanha.blogspot.com

É, bom para nós... =)

Abraço!

PermalinkPermalink 02.01.09 @ 23:20



Comentário de: desestressa mano · http://diariodetento.blogspot.com/

Mandanô a letra certa mano

PermalinkPermalink 03.01.09 @ 01:38



Comentário de: Madame Poison · http://mulhereshiperfeitas.blogspot.com

Li e gostei. Por isso o comentário.

Inté.

PermalinkPermalink 04.01.09 @ 19:23



Comentário de: joao~grando · http://joaogrando.wordpress.com

Parece, mas não é tão simples não.
Só a fé é simples, e a fé à qual me refiro é a da certeza, da certeza de alguma crença, mesmo que seja de não haver nada. Por fim é sempre um colo.

PermalinkPermalink 05.01.09 @ 14:02



Comentário de: Sabrina · http://www.bibidivagaemlorota.blogspot.com

quero colo, mas algúm palpável...

PermalinkPermalink 05.01.09 @ 16:59



Comentário de: Mary West · http://www.deferiasnesteplaneta.blogspot.com

Acho que a fé naum deve ser medo do desconhecido e sim saber contar com o apoio do mesmo.

PermalinkPermalink 05.01.09 @ 22:21



Comentário de: Edmilson Silva

Belo comentário. Deus é nosso refúgio e fortaleza.
Ju, parabéns pela beleza com que escreves.

PermalinkPermalink 06.01.09 @ 00:53



Comentário de: Rodrigo[NightSpy] · http://www.rodrigocavion.com.br

Lindo post, gostei muito... acho que o melhor seu na minha opinião.

PermalinkPermalink 06.01.09 @ 16:54



Comentário de: Kennedy Lucas · http://geracaorenovada.blogspot.com

Ótimo post!

PermalinkPermalink 11.01.09 @ 20:01



Comentário de: Rogério Rocha Martins

É bom voltar por aqui!
Somos como a erva no campo, que brota, dá o seu fruto no tempo determinado e morre. E o que vem depois? A morte é o fim de tudo ou é um novo começo?
Efêmera é a vida no planeta Terra. Enquanto isso, ficamos presos em nossas limitações cotidianas, tentando encontrar o melhor sentido para a vida.
Uns não acreditam em nada que a ciência não explique, outros depositam (literalmente) tudo na conta da fé e ainda outros que entendem o que a ciência consegue explicar e usam a fé para aquilo que não se explica, mesmo que essa última seja totalmente pessoal e sem sentido lógico. Acho que faço parte do último grupo.

Grande abraço!

Rogério

PermalinkPermalink 14.01.09 @ 11:20



Comentário de: bete · http://tsarphatah.blogspot.com/

Loiraaaaa, eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora
meus olhos te vêem!

Explico: eu via uns flashes seus lá no Pava, e sempre
gostei. Por algum motivo que desconheço, não consigo
fixar sua url no meu Readers...

Mas tudo bem, vamos ao que importa: o teu blogue é o
que importa: gatão! E esse texto aí, sobre o Paizinho, um gut
guti guti. Muito valeus.

PermalinkPermalink 16.01.09 @ 09:21



Comentário de: Fernando

Oi Juliana,

Penso que há uma grande diferença entre crenças, ou “crer” e fé, crença é uma coisa totalmente ligada ao ser humano, em valores e necessidades, acaba parecendo com o pensamento positivo, onde vc “torce” para “dê certo”.

Agora acho a definição de fé um pouco mais complicada, não tem ligação com a moral ou conceitos de certo e errado, nem a certeza de que algo milagroso aconteça, isso eu sei que não é, não é do nosso jeito e não se sabe o jeito que é, me parece que a fé é mais madura, não como a criança que quer a qualquer custo a atenção para elas. Sei lá. Difícil fala sobre ela, mas é fácil reconhecer quando se vê. É apenas uma opinião.

Abraços

PermalinkPermalink 16.01.09 @ 14:06



Comentário de: Felipe Mafra · http://presentealimpo.blogspot.com

Fantástica a sua visão nesse post. Tenho um relacionado a isso... Dá uma olhada?
Beijo

http://presentealimpo.blogspot.com/2009/01/que-deus-nos-livre.html

PermalinkPermalink 16.01.09 @ 21:13



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: É consumismo, é obrigação, é capitalismo, mas é ótimo.Próximo post: Similitude









Quem?

Juliana Dacoregio
Jornalista, leitora voraz, escritora, cinéfila.
Observadora, vaidosa, passional, sensível.
Lágrimas abundantes e gargalhadas sinceras.
Leal aos amigos e ligada à família.
Cheia de opiniões e de capacidade de analisá-las e transformá-las.
Hábitos simples e pensamentos complexos. Ou vice-versa.

Redes Sociais
Heresia Loira no Orkut
Resenhas sobre cinema e literatura no Amálgama


Assine o Feed

Assina meu feedzinho aí, tio. Só pra ajudar!
O que é RSS?

Assine por email:

Heresia Loira








Jô Chama Eu

 Lost in Chick Lit

Image and video hosting by TinyPic


Eu no Digestivo Cultural:

b2evolution