
A visão das pessoas andando pelo centro da cidade, à noite, com chuva de verão despencando, me fez lembrar o que eu já sabia: o Natal é uma época linda e necessária, sim. Claro, eu também quase derreti ontem à tarde. Também só desejei chegar em casa e não ver mais ninguém carregando sacola, não ver mais vitrine, não ser obrigada a esbarrar nas pessoas no supermercado. Eu também praguejei contra o consumismo, a ilusão do Natal, o “capitalismo selvagem” que nos dá hora e data certa para presentearmos aqueles que amamos (e que não amamos tanto assim).
Mas e daí? Vivemos mergulhados nesse “sistema”, o consumismo rege a vida de todo cidadão comum e programamos nossas vidas de acordo com datas comemorativas, celebrações e rituais de passagem. Querem que compremos desvairadamente, nos dão a "oportunidade" de nos endividarmos, mas no fim das contas, paira uma mensagem de amor e esperança no ar. Cafona, mas real. Contraditório, mas verdadeiro. A maioria das pessoas desperta um lado esquecido no Natal, um desejo de viver em paz, de estar perto de quem se ama, de tentar esquecer as rusgas do presente e do passado. Todo mundo se sente na obrigação de dar presente, mas também de olhar para o que há de melhor no outro.
Para muitas pessoas é a única oportunidade de estar com a família, de preparar uma comida gostosa, de estar bonito para os outros e dizer “eu te amo” sem parecer piegas. É uma trégua nas desavenças familiares e entre amigos, é a desculpa perfeita para passar algumas horas juntos.
Acaba sendo uma obrigação, sim, mas dentre tantas obrigações que a vida nos impõe, essa não é das mais doces? É uma imposição do comércio, da igreja e da vida em sociedade nos reunirmos no Natal, mas às vezes precisamos de uma convenção e de uma obrigação para fazermos exatamente aquilo que gostaríamos de fazer.
Quem disse que os ouvintes de FM querem escutar os radialistas e locutores falando um carrilhão de bobagens ao meio-dia e às 6 da tarde? Logo nos momentos mais estressantes do dia, em que se está correndo pra chegar em casa, pra almoçar, pra descansar, eles nos obrigam a ouvir piadinhas sem graça e aquelas conversas infantilizadas e afetadas. Se não tenho um CD disponível desligo o rádio na hora. Prefiro Calypso, Latino, qualquer coisa. Qualquer estação, qualquer música, qualquer noticiário é melhor do que aquela falaçada sem sentido, burra e de mal gosto. Deixem uma seleção rodando e vão bater papo no bar!
Um meme lá do Razbliuto. Faz um tempinho, mas já que a nova onda do verão é o slow-blogging (desculpa ótima), só estou respondendo agora.
1. Livro/Autor(a) que marcou sua infância: A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector; O Menino que era filme, de Ulisses Tavares; Praga de Unicórnio, de Ana Maria Machado e Rosa Maria no Castelo Encantado, de Érico Veríssimo. Agora que dei um google que descobri que a Rosa Maria é do Érico Veríssimo. Obrigada manhê, por só colocar grandes autores na minha biblioteca infantil!
2. Livro/Autor(a) que marcou sua adolescência: A pré-adolescência foi profundamente marcada por O Diário de Biloca, lido aos 12 anos. A tal da Biloca também tinha 12 anos também e suas angústias, vontades e encanações coincidiam muito com as minhas.
Já na adolescência mesmo eu caí nas drogas: dos 14 anos em diante foram Brida, do Paulo Coelho, milhares de “Sidneys Sheldoms”, "O.Gs Mandinos" e aquela bomba do Operação Cavalo de Tróia, que eu achava que era o supra-sumo da literatura! Por isso que eu digo que não se deve subestimar os leitores de Paulo Coelho e outros autores caça-níqueis, pois de uma adolescência chafurdando na lama eu passei para...
3. Autor(a) que mais admira: George Orwell, como os leitores deste blog estão carecas de saber. E não é só por causa de 1984 e A Revolução dos Bichos, não. Dentro da Baleia também é bom demais da conta!
4. Autor(a) contemporâneo: Fernanda Young, Luis Fernando Veríssimo, Douglas Adams (esse já "se fué", mas faz tão pouco tempo e ele era tão novo que temos que considerá-lo nosso contemporâneo).
5. Leu e não gostou: Recentemente comecei O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway e achei um saco. Fazia bem jus ao título: o tempo todo era só o tal do velho, num barco, pescando. Pelo menos até o trecho onde li. Era uma prosa bem descritiva, cheia de detalhes sobre pescaria, marés e esse tipo de coisa. Como não to nem aí pra pesca foi difícil do livro me prender. Mas talvez eu retome a leitura. Nunca diga nunca, sobretudo quando se trata de livros.
6. Lê e relê: As crônicas de Luis Fernando Veríssimo quando é pra descontrair mesmo; O Demônio do Meio Dia, de Andrew Solomon, quando fico (ficava) deprimida e sempre, sempre, sempre A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, um livro de aforismos de pura sabedoria e perspicácia. Escrito há mais de três séculos, mas incrivelmente atual.
7. Manias: Escrever meu nome, mês e ano na primeira página do livro.
Passo a bola para quem mais quiser responder. Já que nessa época de fim de ano tá todo mundo na correria não vou impor memes a ninguém.

Ultimamente ando querendo mudar meu estilo. Não só estilo de vestir, mas de forma geral, me libertar desse jeito menininha de ser. O blog todo rosa e lilás tem me causado certo desconforto. Vou segurar o desejo de mudança por mais um tempo. Primeiro porque nem sei direito o que quero. Segundo, não vou ficar pentelhando o Paulo Henrique pra mudar quinhentas coisas agora e mês que vem querer transformar tudo de novo.
Também dei pra ficar encucando se essa profusão de cor-de-rosa e essa foto perua não vão espantar leitores. Pessoas que vão abrir a página, passar os olhos e pensar “ah, é uma patricinha, periguete, que escreve um diário on-line, nem vou perder tempo”! Claro que perderiam a oportunidade de ver que é possível uma mulher lindíssima como eu ser tão inteligente e boa escritora. (Vocês podem notar que a crise é só de identidade, não de auto-estima). Que nada! Parece que me acho o máximo, mas às vezes penso se não estou me enganando o tempo todo.
Gostaria de não ser tão óbvia visualmente, tão clichêzinha: luzes nos cabelos desde os 16 anos, estampas de oncinha, rímel e blush usados à exaustão. O pior é que isso nem representa exatamente o que eu sou. Queria externar meu lado mais rebelde, rock`n roll, intelectual, descolada, cool! Usar menos lilases, florzinhas e strass, talvez me vestir como uma escritora. (Como se veste uma escritora, hein, Bia?)
Aí vejo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e decido: quero vestir-me como uma francesa! Penso em chamar a Bibi pra me ajudar a renovar o guarda-roupa, mas cadê dinheiro pra renovar o guarda-roupa? E depois eu sei, EU SEI, que quando eu estiver andando por aí de sapatilha e roupas indies vou encontrar aquela minha amiga peruíssima e vou querer correr para os meus saltos, meus brincos gigantes de strass, meu jeans “mamãe sou gostosa” e aquela blusa amarelo-ouro!
Depois de ruminar todos esses pensamentos é claro que concluo que não tenho estilo próprio, nem personalidade na hora de me vestir. Mas logo lembro que talvez meu estilo seja esse mesmo: uma mistura de Patricinhas de Beverlly Hills com Britney Spears na fase trash? Talvez eu seja tão radical, mas tããoo radical, que minha rebeldia está em ser uma intelectual-escritora-descolada-cool, leitora de Nietzsche e, ao mesmo tempo, contrariando as expectativas de quem conhecesse apenas meus gostos, escrever num blog todo rosinha, calçar scarpins para ir ao banco, fazer as unhas toda semana e adorar intervenções estéticas. Já sei: tenho uma identidade secreta! A peruíce é meu disfarce.

Uma viagem de ácido sobre Dom Casmurro. É a definição que melhor resume minha opinião sobre a microssérie Capitu, inspirada em Dom Casmurro, de Machado de Assis. Reli o livro no início do ano e só pude ter ainda mais certeza que adoro a história e que acho o máximo a sutileza e ironia do autor.
Fiquei sabendo da microssérie através de uma twittada do Inagaki, que me levou à leitura coletiva. Claro que a partir daí esperei ansiosamente a noite de ontem e até desmarquei um compromisso por causa disso. Não vou dizer que me arrependi de ter cancelado meu compromisso para ver a estréia de Capitu. Não posso dizer isso. Mas também não posso dizer que foi uma experiência tão envolvente quanto a leitura do livro.
É uma alucinação guiada por Bentinho. É fiel ao livro, sim. Mas tudo é rápido demais (em cinco capítulos teria mesmo que ser rápido). São pinceladas de Dom Casmurro. Pinceladas suficientes para fazer com que a narrativa seja compreendida, mas não o suficiente para ser fisgado pelas tramas de Machado de Assis.
Tudo se passa de uma forma teatral, não há cenários (não cenários “normais”), é uma espécie de Dogville Machadiano, numa estética de videoclipe. Tudo é lindo e enche os olhos: cores, formas, figurinos, maquiagem, fotografia. Antigo e contemporâneo se mesclam (a cena inicial se passa no metrô, a tatuagem da atriz que interpreta a Capitu jovem não foi escondida, Beirut faz parte da trilha sonora e talvez outros elementos que me tenham passados despercebidos). A mistura é interessante e não chega a chocar, mas não é o que há de mais brilhante. Brilhante mesmo é a atuação de Michel Melamed que faz o Bentinho já na idade adulta, o Bento Santiago, narrador da história. Uma composição perfeita de um personagem atormentado pelas dúvidas do passado, mergulhado em reminiscências e tédio, nostalgia e resignação. Ele expressa muito bem tanto o êxtase de quem relembra lindas cenas da juventude, quanto a amargura de quem acredita ter sido vítima e algoz de sua amada. Tudo sempre de uma forma lisérgica, lúdica e dramática.
Letícia Persiles é a Capitolina de 14 anos. Uma Capitu linda e que se encaixa direitinho nas descrições de José Dias que dizia que a menina possuía “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e de Bentinho que descrevia os mesmos olhos como “fixos... sombrios... olhos de ressaca”.
Desconfio que quem apenas assistir à microssérie, sem ter lido o livro, vai acreditar nas desconfianças (infundadas ou não) de Bentinho. Se bem que também me pergunto se alguém que nunca leu o livro terá interesse em acompanhar os cinco capítulos da microssérie. Pois é uma produção para inciados. A história pode até vir mastigadinha, mas é muito pouca para fazer com que alguém se apaixone e deseje acompanhá-la. É preciso já ter percorrido página por página do romance de Machado de Assis.
Duas coisas: tive vontade de ver tudo aquilo, exatamente daquele jeito, encenado numa peça, no teatro. Outra: percebi mais uma vez o quanto Machado de Assis é genial.
Leia aqui uma ótima opinião sobre Capitu.
A Raquel Bacha, em seu blog, fez uma observação interessante: que achou a Capitu e o Bentinho adolescentes muito exagerados. Capitu adulta demais e Bentinho bobinho demais. Concordo.

Então a fantasia maior de toda criança que lê as histórias em quadrinhos de Mauricio de Souza aconteceu: a Turma da Mônica cresceu! São adolescentes agora e, supra-sumo da chegada da puberdade, começam a ensaiar os primeiros passos rumo aos namoricos.
Quando criança o que eu mais queria era que eles trocassem de roupa. Ansiava por ver a Magali vestida de azul, a Mônica de calças compridas, o Cebolinha de jaqueta jeans, por exemplo. Mas em nenhum momento eu imaginava-os namorando. Quando comecei a querer ler sobre namoros e beijos, larguei os gibis e parti para a Capricho e as extintas Querida e Carícia. Escondida da minha mãe que achava que aquilo ainda não era para a minha idade. E não era mesmo! Aos 10 anos lá estava eu lendo dicas e técnicas sobre beijos na boca, coisa que eu só poderia pôr em prática 4 longínquos anos depois.
Pois bem, quem lia Turma da Mônica quando criança não vai querer continuar quando chegar à adolescência. Não importa se os personagens tenham crescido, ou não. Claro que enquanto está esse bafafá todo sobre a Turma da Mônica Jovem todo mundo quer ver qual é, mas logo a febre passa e os únicos que vão continuar acompanhando as aventuras adolescentes da Turma são mesmo as crianças. Minha sobrinha (de 7 anos) já chegou em casa comentando que Mônica e Cebolinha se beijaram!
Como se não bastasse todo o apelo sexual que cerca as crianças por todos os lados, agora temos também Mônica e Cebolinha dando uns malhos pra quem quiser ver (tá bom, eles não dão uns malhos, eu estou exagerando, mas é que meu lado puritano nessa questão fala mais alto). E quem mais vai ter curiosidade de ver? As crianças, é claro! Porque crianças adoram umas histórias de namoradinhos, beijinhos e mãozinhas dadas. Mas não é porque elas adoram que deve fazer parte do universo delas.
Por isso não gostei mesmo desse negócio da Turma da Mônica crescer. Achei sem graça e sem propósito e não engulo a história de que é para conquistar um público jovem e adulto. Jovens e adultos que queiram ler gibis não vão escolher Turma da Mônica e se o fizerem, é muito provável que escolham a versão infantil. Aquela com a qual estavam acostumados. É por isso que algumas fantasias devem ficar apenas na fantasia. Inclusive essa de ver a Mônica toda gatinha de mini-saia e beijando o Cebolinha!

Juliana Dacoregio