
Já que hoje é Dia Nacional do Livro resgatei um de meus textos que já foi publicado em minha coluna da Rádio Criciúma e no impresso Jornal da Manhã.
Não li e não gostei
Há quem acredite que para demonstrar cultura literária é necessário criticar livros de Paulo Coelho e obras de auto-ajuda. Eu discordo. Não porque goste das histórias místicas do mago (mas também não desgosto) ou porque seja uma consumidora de livros que prometem mudar a vida daqueles que os lêem. Acredito sim que a leitura muda a vida das pessoas, mas quando o objetivo do livro é só passar uma lição qualquer, raramente ele cumpre o que promete.
Mas fico com o pé atrás quando fazem cara de deboche para Paulo Coelho. O problema não é criticar. Mas criticar sem nunca ter lido, o que é muito comum de acontecer em rodas de pessoas que se supõem intelectuais. Nunca leram e mesmo assim têm coragem de afirmar:
- Não gosto de Paulo Coelho!
- Mas qual livro dele você já leu?
- Nenhum.
E supra-sumo do pedantismo: fazem um ar de enfado quando descobrem um leitor de Paulo Coelho entre seus amigos ou colegas.
Não que seja preciso experimentar de tudo nessa vida. Como qualquer pessoa sensata diria: para saber que drogas não prestam, não é preciso experimentá-las. Mas em matéria de leitura a regra é exatamente o contrário. É preciso sim, experimentar de tudo um pouco! É preciso experimentar um autor ou uma obra, para só então, dar o seu parecer. Principalmente se o crítico em questão for um leitor assíduo ou supostamente intelectual. “Não li e não gostei” não cabe no vocabulário dos bons leitores.
Saber filtrar é a chave. Mas sem preconceitos. Preconceito é uma atitude tão criticada por qualquer pessoa com um mínimo de inteligência, não é? Pessoas não devem ser vítimas de preconceitos? Livros também não deveriam.
Até porque quem já tem o hábito da leitura não vai ser contaminado e “emburrecer” por causa de um Paulo Coelho, Roberto Shinyashiki ou coisa que o valha. Já quem não costuma ler, vai ser beneficiado com qualquer tipo de leitura. Porque gostar de ler só se aprende lendo. Seja gibi ou Dostoievski; auto-ajuda ou Nietzsche; Luís Fernando Veríssimo ou Shakespeare; Danielle Steel ou Clarice Lispector...
O próprio Luís Fernando Veríssimo afirma, em uma de suas crônicas hilárias, que na hora do desespero, sem livro algum em um quarto de hotel barato, vale até pedir a revista Tricô e Crochê da recepcionista.
Tenho me surpreendido positivamente com o nível dos comentários da galera de Jesus. Vários cristãos expressaram seus pensamentos com lucidez e gentilezas no post abaixo. Mas há aqueles que partem do princípio de que rejeitar a religião cristã e não acreditar mais em Deus faz de mim uma fracassada, loser, infeliz, rolando na sarjeta da rua da amargura. Ah, se eles soubessem...
Alguns até aproveitam o fato de eu ser mulher, loura e linda e fazem uma salada supondo que minha descrença seja algum subproduto de burrice e carência. Criticam-me com tanta força e raiva, mas querem me fazer acreditar que me desprezam e sou irrelevante. Antagonismo puro, já que a irrelevância não desperta fortes sentimentos. A esses comentaristas só posso sugerir que eles deveriam odiar pouco, julgar menos e relaxar mais. Relaxar e gozar. Ops, a parte do “gozar” é só para os casados já que tenho certeza que os solteiros, sendo cristãos tão ferrenhos, não cometeriam fornicação.
E há também os que apóiam meu afastamento da religião, mas mostram-se atônitos por eu me declarar atéia. Dizem que deve ser apenas uma fase. Sim, pode ser uma fase. Talvez um dia eu passe a acreditar em Deus como uma energia, uma força cósmica ou adore Baal. Não sei. Pode ser uma fase, mas é difícil acreditar que um dia eu volte a crêr num Senhor Todo-Poderoso que criou o céu e a terra. Da mesma forma que é muito pouco provável que eu volte a acreditar em Papai Noel.
E não poderiam ficar de fora os comentários do tipo, “você só se afastou do evangelho porque você não viveu verdadeiramente o evangelho”! Aí está o orgulho e a soberba que a religião faz aflorar no ser humano:
- Não, você só não acredita em Jesus, porque você não entregou seu coração de verdade a ele. Impossível entregar-se a ele de corpo e alma e não amá-lo. Impossível conhecer a verdade e não segui-la. Como assim, Bial? Cristãos amados, há milhões de pessoas neste exato instante falando a mesma coisa sobre Buda, Maomé, Alá, Krishna, ou sei lá mais o quê!
Como podem dizer que alguém “só não ama o evangelho porque não viveu de verdade o evangelho”? Seria o mesmo que eu dizer que você não ama dar o cu porque nunca deu do jeito certo.
- Mas, July, eu já dei e não gostei.
- Não, meu irmão, você nunca viveu “o dar o cu” verdadeiramente. Quando você viver, nunca mais vai deixar de dar.
Sei que muitos dizem com a melhor das boas intenções que vou voltar a acreditar em Deus. Não é problema algum você achar que eu possa mudar de idéia. O problema está em você ter certeza que a sua crença é tão correta, mas tão correta, que é impossível que um dia eu não me curve a ela. Você não pode ter certeza nem a respeito de SUAS próprias opiniões, que dirá ter certezas sobre as minhas. Eu também tinha muita certeza que Jesus era o Senhor e Salvador da minha alma.
Àqueles que escrevem com carinho que vão orar por mim, eu agradeço. Mesmo. De coração. Agradeço àqueles que, mesmo não concordando com nada do que escrevi, não tiveram ganas de me esganar. Agradeço aos que argumentam com respeito, demonstrando seu ponto de vista, seja discordando ou concordando. Mas aos que tentam me humilhar, espezinhar, ridicularizar, difamar, em defesa do deus que acreditam seguir... Suas vidas são tão frustrantes que vocês precisam de um saco de pancadas, não é?
Então, estamos aí para isso mesmo. Servimos bem para servir sempre.
Essa semana acabei de reler 1984, de George Orwell. A primeira vez que o li foi em julho de 2004. Era casada e evangélica, mas minha fé já estava em crise, assim como meu casamento. Em maio daquele mesmo ano eu havia abdicado de ser uma das 12 apóstolas especiais da pastora. É um cargo que dá status dentro da igreja, mas também gera muito trabalho. Foi uma decisão difícil abrir mão do tal cargo porque ele é visto como uma espécie de chamado especial de Deus. Mas as responsabilidades eram muitas e eu as levava muito a sério: reuniões com minha célula (espécie de estudo bíblico), grupo de jovens sábado à noite (eu era líder), cultos de domingo à noite, cultos de domingo pela manhã uma vez por mês, reuniões semanais com a pastora e suas outras "apóstolas"... Reuniões essas em que rolava mais fofoca do que qualquer outra coisa. Você não é capaz de imaginar o quanto um bando de crentes reunidos pode ser fofoqueiro. Eu ainda tentava dissuadir as irmãs de ficar fofocando e partirmos para o lado espiritual. Eu era uma crente bem caxias mesmo.
Havia também os Encontros e retiros, que exigiam não só que perdessemos o final de semana do próprio evento, mas também que nos reuníssemos diariamente para orações e súplicas a Deus em prol dos tais retiros. Além disso, havia ainda os aniversários de membros da igreja, as conversas pessoalmente ou por telefone para aconselhar discípulos, as células do meu marido (um bando de rapazes ignorantes e incultos enchendo a minha sala), os aconselhamentos a jovens casais de namorados, as apresentações musicais da banda gospel do marido, os congressos, as viagens para congressos, as vigílias, os jejuns e uma infinidade de outras coisas que pudessem ser inventadas para manter as ovelhas marchando em perfeita harmonia e comunhão.
"Como é bom que os irmãos vivam em comunhão", diz a Bíblia. E se a Bíblia diz, é isso que vamos fazer: estar sempre juntos, unidos, amarrados uns aos outros por compromissos sem fim. Não era obrigatório participar de tudo, mas quem passa um bom tempo na igreja sem participar de nada, indo apenas aos cultos, logo se torna apenas um peão, um membro sem importância. Livre de muitas responsabilidades, mas também sem poder. Claro que ninguém admite que este é o motivo de estar presente em todas as ocasiões. Claro que é por amor a obra de Deus, por um chamado especial do Senhor Jesus, etc, etc, etc. Mentira. O amor ao poder move as rodas da igreja. É assim com a Católica Apostólica Romana e é assim com os protestantes, sejam pentecostais ou tradicionais. Eles estão sempre presentes às convocações porque quem está sempre presente sabe de tudo, vê tudo, ouve tudo, conhece mais e por conseqüência, pode mais.
Conhecimento é poder e isso é uma verdade entre os evangélicos também. Ora, por que gastar dinheiro e tempo em congressos do outro lado do Brasil e, quiçá, até do mundo? (A grande onda agora é ir a Jerusalém - é o sonho de consumo de qualquer cristão-pentecostal, sobretudo aqueles que seguem a Igreja em Células no Modelo dos 12.) Porque assim se está por dentro de todas as novidades, conhece-se as "estrelas" do mundo evangélico, ouve-se as pregações mais porretas (aquelas em que o pastor tem um domínio de público tão grande que promove catarses coletivas em que as pessoas choram, deliram, rolam no chão, pulam, gargalham e dançam freneticamente). Um Woodstock de Deus em que, ao invés de engolir LSD, engolem-se palavras dos pregadores e ao invés de se escutar boa música, escutam-se letras repetitivas dos cantores cristãos: Deus eu quero te ver; quero mais de ti; vem me tocar; me molha com tua chuva e por aí vai... (Mas isso é assunto para um próximo post.)
Por tudo isso e mais um pouco que naquele julho de 2004, George Orwell me conquistou. Eu sorria e abria a boca espantada lendo 1984. O livro é uma metáfora política sobre um mundo sutilmente escravizado por um partido político, que se apresenta na figura do Grande Irmão. George Orwell escreveu-o com o objetivo de ser um alerta sobre como os sistemas de governo podem controlar o cidadão. Mas eu via mais do que política naquele livro. Eu via, ali descrito, muitos dos métodos que a igreja usava para manter-nos pacíficos, fiéis aos seus princípios e incapazes de questionar os dogmas que seguíamos.
Hoje é muito estranho quando vejo algumas pessoas entregando grande parte de seu tempo, dinheiro e pensamentos para a religião. Não cogitam a possibilidade de faltar um culto de domingo, passam finais de semana acampados em lugares feios e úmidos, gastam seu dinheiro em dízimos, congressos e ofertas e convivem com pessoas que nada lhes acrescenta em termos culturais.
E eu era exatamente desse jeito. Fervorosamente, desse jeito.
Qualquer semelhança não é mera coincidência...
"Era a segunda vez em três semanas que faltava a um sarau no Centro Comunal: gesto audacioso, pois podia ter a certeza de que era cuidadosamente verificado o número de presenças no Centro. Em princípio, um membro do Partido não tinha horas vagas, e não ficava nunca só, exceto na cama. Supunha-se que quando não estivesse trabalhando, comendo ou dormindo, devia participar de alguma recreação comunal; era sempre ligeiramente perigoso fazer qualquer coisa que sugerisse o gosto pela solidão(...)"
(George Orwell - 1984)
Juliana Dacoregio