
Juro que às vezes eu queria ser uma bruxa. Nada do misticismo barato ou do glamour e mistério de ser uma feiticeira. Queria ter o poder de rogar pragas mesmo. Ou ser paranormal, como Carrie, a Estranha, para que o indivíduo que me irritasse profundamente sofresse nefastas conseqüências.
Não pense que eu gostaria de ter esses poderes para detonar alguma ex do atual ou atual do ex, nada disso. O desejo de ser uma bruxa vingadora sobrevém quando estou alegre e distraída fazendo minhas caminhadas matutinas e algum homem passa por mim e faz piadinhas de baixo calão ou então comete aquele gesto labial, acompanhado do som característico, de quem está chupando um espagheti, sabe?!
Claro que há aqueles que passam e dizem coisas graciosas. Depende muito do tom com que se fala também. Um “ô coisa linda” dito com um sorriso é bonitinho, um “ô coisa linda” acompanhado de um barulho de chupando macarrão é nojento. Nada contra as pérolas: “ta vendendo saúde” ou “com essa eu casava” - esse tipo de coisa não incomoda e a maioria das mulheres acha engraçado. Serve até pra levantar a auto-estima num dia mais down.
Mas alguns homens dizem palavras tão baixas, tão repulsivas, que nos fazem corar de vergonha ou morrer de ódio. Palavras que algumas mulheres não gostariam de ouvir nem do próprio companheiro numa noite de sexo selvagem. Normalmente são motoqueiros que diminuem a velocidade e abrem a boca para dizer essas sacanagens. Só sei explicar o quanto isso me deixa brava descrevendo tudo que se passa pela minha mente após ser alvo dessas baixarias: imagino o sujeito batendo de cara no primeiro poste e se arrebentando inteiro (mas nada de morte instantânea ou inconsciência, ainda vou passar por ele e dizer “vai, desgraçado, fala de novo o que tu me falou lá atrás, fala”); imagino o cara brochando para o resto da vida; imagino-me pegando a primeira pedra do chão e atirando na cabeça do idiota... Só os mais puros pensamentos. De qualquer forma esses homens que soltam impropérios às mulheres nas ruas quase sempre são uns pobres, ignorantes, que não aprenderam a respeitar as mulheres e não param para pensar que suas filhas, irmãs ou esposas podem ter que escutar barbaridades iguais de safados como eles.
Pelo menos é assim que pensamos: só os mais desfavorecidos financeira e culturalmente são capazes de desrespeitar de tal forma uma mulher. Não que o dinheiro faça automaticamente com que os ogros se transformem em gentlemans, mas espera-se que traga um mínimo de refinamento. Se o dinheiro não basta para ensinar respeito e bons modos, espera-se que um cargo público faça com que um macho não saia escancarando seus instintos sexuais, sem critérios, por aí.
Sobretudo se tal espécime masculino for um político que diz prezar a família, moral e bons costumes. Sobretudo se for um candidato a prefeito em ano de eleições. Mais ainda se ele conhece seu pai e já esteve em sua casa, tomando cafezinho no sofá da sala. É... mas para alguns homens nada disso é empecilho para soltar piadinhas infames e fazer propostas indecorosas.
O pior é que, às vezes, nós mulheres acabamos nos calando sobre esses assuntos, porque sempre tem aqueles que dizem que provocamos ou que homem é assim mesmo. Não me interessa como são os homens. Eles NÃO PODEM SER ASSIM MESMO e pronto! O que me interessa é que eu mereço respeito! O que me interessa é que um candidato a prefeito deveria pensar duas vezes antes de tratar uma mulher como prostituta, falando palavras de baixo calão ao telefone. Se não respeita nem uma jornalista, filha de um amigo, como esperar que respeite o povo?
Não tenho poderes mágicos para fazer justiça contra os homens safados, mas tenho as palavras e posso usá-las. Sobretudo, neste caso, tenho meu voto. E desejo, do fundo mais profundo do meu coração, que o sujeitinho perca... Perca a eleição e a ereção também, que é pra justiça ser completa.
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Juliana Dacoregio