
Quando eu estava no jardim de infância olhava para as meninas do pré-escolar e achava-as muito altas. Queria estar logo no pré para estudar no segundo piso da casa onde funcionava a escolinha. Tenho bem clara em minha memória a imagem de uma menina grande,(era assim que eu a via), de mãos na cintura, parada na minha frente no parquinho, me dando ordens, como conviria a uma giganta do pré-escolar falando com uma pirralhinha do jardim I. O toque de midas, o que mais me encantava é que ela usava relógio! Ela parada na minha frente, com o pulso bem diante dos meus olhos e aquele reloginho mostrando o quanto ela era poderosa e eu, uma pequena formiga submissa. Meu deus, era minha inspiração! Era lá que eu queria chegar: estudar no segundo andar, mandar as meninas mais novas me servirem e usar relógio. Quando cheguei à pré-escola meu sonho não se realizou por completo, já que eu mudei para um colégio que tinha pré-escolar, ensino fundamental e médio, portanto eu estava a anos-luz de ser a mais velha do pedaço.
Quarta-série do primário, aquela idade em que os pensamentos e o corpo começam a dar os primeiros sinais de mudanças. Olhava para as garotas do segundo-grau (o atual Ensino Médio) e não via a hora de chegar a minha vez! Eu teria seios grandes, meus cabelos seriam jeitosos como os das modelos das revistas, poderia sair sozinha e ir aos "points" da moda. Sobretudo eu acreditava que ao chegar à tão sonhada adolescência eu não seria mais aquela menina acanhada, nem teria vergonha dos meninos. Imaginava-me poderosa com a chegada dos 15 anos. De repente eu estava lá: primeiro ano do segundo-grau. Unhas pintadas de vermelho, alguns sapatos de salto no armário, mas meu cabelo continuava incapaz de segurar uma tiara, de tão escorrido que era; só usava sutiãs de teimosa, pois não seria nem um pouco necessário, e os meninos… Ah, os meninos ainda eram seres que me deixavam muda de tanta timidez. Quanto às festas e baladas, elas só eram freqüentadas depois de muitas negociações com os pais – os carrascos de todo adolescente.
Então, nessa época, eu olhava as pessoas de 25 anos ou mais e acreditava que fossem todas muito adultas. Independentes, fortes, seguras de si. Ora, a Juliana adolescente via a Juliana de 28 anos como uma jovem senhora, com um emprego estável e bem remunerado, sem neuras, com todos os problemas de auto-estima resolvidos. A Juliana de 28 anos não choraria por qualquer coisinha, não cometeria gafes bobas, não seria mais tão carente e teria sempre o controle da situação. Os 28 anos chegaram. E posso dizer que em muitos momentos me sinto tão criança quanto aquela menina do Jardim I, que desejava ser grande e estudar no segundo piso da escola. Ainda sou a menina de 9 anos, meio desajeitada com o próprio corpo, às vezes adorando o que vê no espelho, às vezes, evitando lançar os olhos ao próprio reflexo. As lágrimas continuam rolando pelos motivos banais e jorrando pelos motivos genuínos.
Os 28 anos chegaram e eu vejo que não era como eu imaginava. Mas muitas perguntas que antes eu não saberia responder, hoje eu sei. Tantos sentimentos que eu não conseguia controlar, agora consigo. Idéias que nunca imaginei que teria, eu tive. E tomei iniciativas que fariam a Juliana de 15 anos ficar admirada. Muita burrada já fiz e consertei. Muito perdão já foi pedido e concedido. E ri muito, viajei, vi muito pôr-do-sol, ouvi e li palavras lindas, ganhei abraços inesquecíveis, comemorei grandes e pequenas vitórias, e ouvi elogios que a menina tímida dos cabelos escorridos nunca imaginou que receberia. Milhares de momentos, daqueles que nos dão certeza de que a vida vale a pena, eu vivi! Então, motivos não me faltam para me alegrar por ser quem eu sou. Porque minha vida não é como eu imaginava que seria. Ela é muuuito mais interessante!
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