02.08.08

02:48:00, Categorias: Leitura  


Todo mundo já ouviu falar de Clarice Lispector.
Quem nunca teve uma professora de literatura que a citasse? Quem nunca foi obrigado a ler alguma obra da autora (ou seu resumo) para as famosas fichas de leituras? Principalmente, quem nunca viu frases soltas atribuídas a Clarice em blogs, fotologs, perfis do orkut? Mas daquilo que muito se fala, pouco se conhece. As novas gerações sabem que Clarice Lispector existiu. E que era uma escritora. Só. Os mais bem informados talvez saibam o título de alguns de seus livros. Fica apenas aquele nome pairando no ar, como uma espécie de Deus. Todos falam nele, mas ninguém sabe ao certo quem é, o que é ou mesmo se realmente é.
Clarice era e é.
Você já ouviu elogios aos romances e contos dela? Saiba que todos eles são válidos. Acabei de ler o conto O ovo e a galinha, conto este que foi o discurso da autora em uma convenção de Bruxas. Clarice não era declaradamente uma bruxa, apesar de sua obra nos fazer mergulhar em mundos profundos dentro de nós mesmos. Talvez a tenham convidado por causa desse fascínio que suas palavras exercem.
Clarice não é leve.
Ela trata de temas cotidianos, sim, mas daquele momento do cotidiano em que somos pegos de surpresa por nossas próprias inquietações. As personagens de Clarice que passam despercebidas pela vida nos são expostas abertamente e, vendo a ignorância delas, somos despertados para as questões mais angustiantes da existência. A ignorância, a mediocridade, a vaidade, o medo da morte, o medo da vida, as escolhas difíceis, a velhice, o amor: está tudo lá, sem julgamentos, sem lições de vida, nem respostas prontas. Quando você estiver num momento superficial e quiser permanecer assim, não chegue perto de um livro de Clarice. Porque os questionamentos, ou a inércia, de suas personagens expõem nossas entranhas e nos viram do avesso. Leia se você não sabe as respostas porque nem conhece as perguntas.

Leia Clarice se não tiver medo de descobrir suas próprias perguntas.
"O ovo e a galinha"
é um de seus contos mais famosos. Na verdade, não se pode chamá-lo somente de conto. Ele é dissertação, filosofia, crônica, poema, tese. Eu acredito até que ele possa ser usado como uma espécie de livro de meditação ou como aqueles livrinhos de bolso com uma mensagem edificante para dia. Com a diferença de que O ovo e a galinha não vai dar a você uma mensagem de auto-ajuda. Pode ser que dê. Mas pode ser que lhe dê uma pergunta, pode ser que lhe dê esperança, pode ser que lhe dê maturidade, resignação, desejo. Escolha…

Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.

Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo.

Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto.

Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.

Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara.

É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu.

O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe.

Deve-se dizer "o ovo da galinha". Se eu disser apenas "o ovo", esgota-se o assunto, e o mundo fica nu.

Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida.

Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem.

Leia o conto inteiro - O ovo e a Galinha e depois me diga: quem ou o quê o ovo representa?

Clarice escreveu também para crianças. A mulher que matou os peixes, de autoria dela, foi um dos primeiros livros que li na vida. Li e reli dezenas de vezes, imaginando cada situação, cada personagem, cada bicho ali descrito. Li e imaginei tanto que ele está bem guardado na minha memória até hoje.

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Comentário de: McFly · http://caducando.wordpress.com

Um dos contos favoritos da própria Clarice; e, segundo ela mesma afirmou, um dos poucos contos (seus, dela) que não entendia por completo. Muitos ainda a consideram hermética. Ela não é leve - ainda bem -, nem tem que ser.

PermalinkPermalink 20.10.08 @ 14:25



Comentário de: luis castilho

Lina Juliana!

Que bom saber que tú és admiradora de tão bela escritora.
Clarice, é sem dúvida, uma das mais brilhantes e eminentes
escritoras que já tive o prazer de ler, de me deliciar. Uma
linguagem rica, deliciosamente inteligente. Esta Russa, natu
ralizada, escreveu também: O Amor segundo G.H.
Quem não leu, leia.
Abraços, minha querida.

PermalinkPermalink 18.06.11 @ 11:37



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