Leia Clarice se não tiver medo de descobrir suas próprias perguntas.
"O ovo e a galinha" é um de seus contos mais famosos. Na verdade, não se pode chamá-lo somente de conto. Ele é dissertação, filosofia, crônica, poema, tese. Eu acredito até que ele possa ser usado como uma espécie de livro de meditação ou como aqueles livrinhos de bolso com uma mensagem edificante para dia. Com a diferença de que O ovo e a galinha não vai dar a você uma mensagem de auto-ajuda. Pode ser que dê. Mas pode ser que lhe dê uma pergunta, pode ser que lhe dê esperança, pode ser que lhe dê maturidade, resignação, desejo. Escolha…
Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo.
Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto.
Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara.
É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu.
O ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe.
Deve-se dizer "o ovo da galinha". Se eu disser apenas "o ovo", esgota-se o assunto, e o mundo fica nu.
Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem.
Leia o conto inteiro - O ovo e a Galinha e depois me diga: quem ou o quê o ovo representa?

Clarice escreveu também para crianças. A mulher que matou os peixes, de autoria dela, foi um dos primeiros livros que li na vida. Li e reli dezenas de vezes, imaginando cada situação, cada personagem, cada bicho ali descrito. Li e imaginei tanto que ele está bem guardado na minha memória até hoje.
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Juliana Dacoregio