29.07.08

00:36:00, Categorias: Cinema, Cotidiano  


Os cinemas que eu freqüentava em minha infância e pré-adolescência eram dois: Cine Center e Cine Ópera. O Cine Center era no único shopping que havia na cidade e era um cinema bem pequeno. Foi lá que assisti a um filme sozinha pela primeira vez. Era a Bela e a Fera. Meu irmão mais velho me levou e depois foi me buscar. Não sei por que ele teve essa idéia. Não fui eu que pedi. Ele falou, "July, está passando A Bela e a Fera. É bem legal. Quer ver? Eu deixo você no cinema e depois volto pra te buscar." Acho que ele quis estimular minha independência. Aliás, eu nem era muito criança. Acabo de conferir o ano de lançamento do filme, foi 1991, portanto eu tinha 11 aninhos. Claro, que eu a-d-o-r-e-i ir sozinha, me senti super adulta. Mas como já era um tanto paranóicazinha fiquei olhando para trás o tempo todo com medo de que alguém tentasse me degolar. (Tipo, o cara teria que ser muito, mas muito psicopata mesmo, pra ir numa sessão vespertina de A Bela e a Fera, com o intuito de degolar uma menina de 11 anos… Mas, vai dizer isso pra mente morbidamente fértil de uma garotinha!)

Além dessa experiência de grande valor para a formação do meu caráter, freqüentei muitas outras vezes o Cine Center e mais ainda o Cine Ópera. Este último era uma sala enorme, com um cheiro de carpete/mofo/cadeiras de couro. Há gente que gosta do cheiro de gasolina, então não estranhe o fato de eu gostar do cheiro de uma sala de cinema antiga e mofada. Lá tive noites de domingo memoráveis! Foi onde assisti a Lendas da Paixão, filme que estava dando o que falar entre as meninas do Colégio Madre Teresa Michel, por um único e simples fato: a bunda do Brad Pitt aparecia em uma cena! Fui assistir lógico, mas na ida eu e minhas amigas resolvemos cortar caminho pela Pracinha do Congresso. Uma delas viu um "cara mal encarado" e gritou! Nós corremos, disparadas pela praça. Bem, parafraseando Drummond, tinha uma árvore no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma árvore! E no meio do caminho da árvore tinha a minha cara em alta velocidade. Fiquei com o rosto todo arranhado, e por sorte não levei uma galhada no olho. Ficou feio mesmo e todo mundo perguntou se eu não queria embora. (Mentira, ninguém perguntou nada, minhas amigas estavam nem aí pra minha cara de boxeadora pós-nocaute. Estavam era rindo muito, isso sim.) Bom, mas mesmo que me sugerissem ir pra casa, você acha que com 14 anos de idade eu iria perder a chance de ver o derriére do Brad Pitt? Imagina! Meu rosto retalhado poderia esperar.

Foi também naquele cinema que me apaixonei por Keanu Reeves (e é nesse momento que meu namorado está praguejando e maldizendo o minuto em que começou a ler este post). Sim, Keanu Reeves foi minha primeira paixão. Fui pra casa suspirando após assistir Velocidade Máxima. Você sabe o que é uma adolescente com uma paixão platônica? Olha, quando a gente tem 12, 13 ou 14 anos de idade as paixões por artistas são ridículas! Porque a gente fica mesmo imaginando situações, achando que é possível encontrar o cara em uma viagem à Disney, por exemplo, e ele se apaixonar pela gente. Aí você se imagina indo comer um hambúrguer com ele, ele mexendo no seu cabelo e dizendo o quanto você é linda, vocês dois indo para a mansão dele, você acordando de manhã e ele trazendo o café na cama… A polícia chegando e prendendo-o por pedofilia… Não, isso você não imagina, claro, mas nessa história mirabolante seria o único desfecho que faria sentido. Mas, sério, uma pré-adolescente apaixonada por um astro qualquer é uma lunática! Pode ter certeza que ela tem esses tipos de delírios e acredita que são perfeitamente possíveis. Hoje em dia, não. Você, no máximo, imagina que se, por acaso, vir o Brad Pitt no aeroporto você vai correr em direção a ele, se ajoelhar, gritar, talvez tirar a roupa e implorar para que ele a possua, mas você sabe que na melhor das hipóteses vai ganhar um pedaço de papel com o nome dele escrito!

Mas saindo das platonices adolescentes e voltando ao amor eterno pelo cinema, eu me sentia em casa no Cine Ópera. Hoje lá não há mais uma telona, apesar de ainda acontecerem grandes interpretações e recordes de bilheteria: noite do descarrego, reunião dos empresários, os 318, fogueira santa e outras superproduções. Agora minha cidade tem outros cinemas, nos dois shoppings que hoje existem lá. Mas o cinema de outrora, naquela sala que mais parecia um auditório faz parte do meu passado. Hoje vou ao cinema e não sinto mais o cheiro de carpete e das poltronas de couro. Há apenas aquele cheiro de limpeza, de lugar bem desinfetado. É por isso que sexta-feira passada ao ir ao cinema do Centro Integrado de Cultura, aqui em Florianópolis, me bateu um saudosimo, uma sensação de "volta às origens". Era uma sala pequena como a do Cine Center e em estilo meio décadence avec élégance como o Cine Ópera. As poltronas forradas com tecidos vermelhos e o carpete bege, onde quase dava de ver os ácaros pulando e festejando. Aquele cheirinho de mofo que só os cinemas antigos tinham. Aaahhh… respirei fundo e me senti em casa!

Estava tudo muito bem, tudo muito cult, tudo muito nostálgico, até que começa o filme. Na Natureza Selvagem, com direção de Sean Penn. Esse é assunto para um próximo post. Só vou dizer que em 10 minutos de filme eu já queria estar no ultra-super-hiper tecnológico e capitalista Cinemark vendo qualquer pancadaria movie`s e me entupindo de pipoca e Coca-cola…

-----

Permalink 1028 palavras por Ju Dacoregio, No views Comentários (0)
Indique: del.icio.us Gafanhoto Rec6 Ueba Ueba

Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/24318

Posts similares:
Memorabilia
Os filmes mais tristes da minha história
Cine Paradiso

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários, Trackbacks:

Sem Comentários/Trackbacks para esse post ainda...


Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: Ajude-me a consertar meus cabelos loirosPróximo post: Diálogos do Cinema









Quem?

Juliana Dacoregio
Jornalista, leitora voraz, escritora, cinéfila.
Observadora, vaidosa, passional, sensível.
Lágrimas abundantes e gargalhadas sinceras.
Leal aos amigos e ligada à família.
Cheia de opiniões e de capacidade de analisá-las e transformá-las.
Hábitos simples e pensamentos complexos. Ou vice-versa.

Redes Sociais
Heresia Loira no Orkut
Resenhas sobre cinema e literatura no Amálgama


Assine o Feed

Assina meu feedzinho aí, tio. Só pra ajudar!
O que é RSS?

Assine por email:

Heresia Loira








Jô Chama Eu

 Lost in Chick Lit

Image and video hosting by TinyPic


Eu no Digestivo Cultural:

b2evolution