Já virou clichê dizer 'é clichê, mas é verdade', porém vou ter que usar dessa expressão de qualquer forma: assistindo '127 Horas' fiquei pensando como as coisas tão banais do dia-a-dia podem ganhar uma importância descomunal quando se está numa situação de 'PUTZ FUDEU'!
E o diretor Danny Boyle consegue passar isso muito bem, mesmo contando uma história que poderia ser monótona, (afinal é um cara preso num buraco por 127 horas). Também não poderia ser diferente. Boyle dirigiu Quem quer ser um milionário?, Extermínio e Trainspotting e em todos eles deixou sua marca de filmes 'a la' video-clipe: frenéticos, com cenas fortes e cortes não usuais. Sem medo também de explorar o escatológico, aquilo que consideramos nojento, nos dá o impulso de virar os olhos e revira os estômagos mais sensíveis.
E é assim com 127 Horas. O filme é dinâmico, com imagens lindas dos canyons, é claro, mas também das pequenas coisas, como o interior de uma garrafa d'água, por exemplo. Não faltam também momentos de tensão e de crueza, ao mostrar o método desesperado do protagonista de se livrar daquela situação de horror.
Só que meu propósito aqui não é escrever uma resenha e sim registrar o quanto é bom lembrar que nas horas de privação e quando pinta um problema cabeludo mesmo, a gente enxerga a vida com outros olhos. A família, os amigos, momentos de diversão, tudo se mostra tão simples, tão bonito, tão DESEJÁVEL. E jogos amorosos, decisões egocêntricas, orgulhos bobos se revelam estúpidos e desnecessários. A vida adquire o valor que deveria ter sempre. É sempre bom conseguir captar isso num filme. Não lições de moral rasas, mas a verdade incontestável de que não é à toa que temos um instinto de sobrevivência. Porque nascemos para coisas grandes. E antes ficar preso porque meteu a cara e foi viver do que passar os dias pensando no que poderia ser.

Acabo de ter uma conversa com uma pessoa muito especial. E só quero registrar o seguinte: existem cristãos que se importam; que pegam na sua mão e não querem te converter a nada, querem te ver feliz. E, da forma deles, te ajudam a crescer, a superar, a resgatar sonhos. Nada é mais bonito que ver uma pessoa tendo o amor como prioridade: alguém que pode até se curvar diante de batalhas perdidas, mas que levanta sorrindo porque sabe que sua pedra é pequena, mas pode matar um gigante.

Faz algum tempo que não registro aqui críticas ao cristianismo, nem compartilho experiências de vida com relação à fé. "Coisas" tem acontecido e ando num momento de mera observação do que pode vir a ser um "agir de Deus" em minha vida. Nada posso afirmar ou negar. Então, por enquanto tenho preferido calar a esse respeito.
Mas, claro que não deixei de me interessar nem um pouco sobre o assunto e continuo com as antenas do pensamento crítico bem ligadas. Tenho lido e escutado sobre fé e sobre total ceticismo. Apesar de não ter perdido minha irreverência diante dos assuntos religiosos, tenho tratado-os com mais respeito e compreensão e não tenho negado a ajuda daqueles que me oferecem suas orações na minha constante luta contra o transtorno do humor.
Pois bem, como já dito, não venho postando aqui críticas religiosas ou minhas vivências, mas gostaria de apresentar a vocês a história de vida de alguém que por 33 anos foi um legítimo crente e hoje não deixou de acreditar em Deus, mas enxerga a divindade de um modo peculiar, além de não fechar os ouvidos para seus próprios questionamentos e de outros.

Aí está: um pouco da visão do jornalista André Roldão sobre sua caminhada como cristão, decepções e conclusões.
Ufa! Me livrei do cristianismo
(André Roldão)
No princípio era o Verbo
A experiência pessoal sempre será um dos filtros da realidade. Talvez o principal. A experiência
pode aprisionar, tanto quanto libertar. Em geral são as vivências que nos colocam num tipo de
mundo dentro do mundo comum a todos. É com treino, dores, alegrias e muita boa vontade
que podemos ir além de nós mesmos como referência do mundo. Digo isso para falar um
pouco da experiência de ter sido cristão dedicado para, depois de 33 anos, deixar de ser.
Nasci em lar evangélico numa época em que ser ‘crente’ tinha boa dose de vergonha. O que
para uns era constrangedor, para mim era ter luz. Quando garoto ouvia os demais rirem de
mim e me chamarem de ‘aleluia’. Nada disso me tirou a convicção plena de que estava com a
verdade e eles agiam por cegueira, perdidos, afastados da Glória do Pai. Meses antes de sair
de Porto Alegre (em dezembro de 1976), aos 10 anos, ganhei minha primeira Bíblia. Em três ou
quatro anos ela estava destruída pelo uso.
Expulsos por uma televisão
Aos 11 anos minha família foi expulsa da igreja Assembléia de Deus por ter uma televisão. Sim,
uma Semp 20”, preto e branco, de madeira à volta e à válvulas. Lembro-me quando meu pai
disse ao pastor Osvaldo, o inquisidor: “A televisão tem um botão de liga e
desliga e eu mando nele.” Havia disciplina na minha casa quanto ao uso da TV. Ah, não posso
deixar de registrar o quanto admiro meu pai e sua sabedoria. Semanas depois, ainda num culto
daquela igreja, em Jaguaruna, minha mãe se levanta e sai chorando em meio à reunião. Saí
atrás sem saber do que se tratava. Em casa, ainda em lágrimas, ela conta que Manoel
estava sendo consagrado Presbítero. Como podiam fazer aquilo? Ele também tinha TV em casa
e filhos mal comportados, exceto as filhas. Naquele dia meus pais decidiram procurar outra
igreja.
O encontro com a fé acolhedora e os estudos teológicos
Num domingo, a caminho de Laguna para visitar parentes, passamos na igreja Batista de
Tubarão. O pastor José Carlos nos recebeu muito bem. Lembro de maus pais conversando
com ele na calçada. No outro domingo estávamos, família completa, no culto Batista. Quanta
diferença. Silêncio, hinos bem cantados, nenhum ‘aleluia’ aos berros... Foi ali o meu primeiro
estudo bíblico de verdade. Inclusive um por correspondência (1978), cujo diploma ainda
guardo.
Aos 16 anos conheci o professor de teologia Dr. PhD Lonnie Byron Harbin, no Acampamento
Batista Catarinense, em Biguaçu. Ele me deu uma Bíblia novinha com um sorriso nos lábios.
Eu era o único adolescente naquele encontro de líderes da denominação. Meses depois
recebi uma correspondência da Faculdade Teológica Batista de São Paulo para estudar lá. No
domingo em que recebi a carta, endereçada à igreja, foi festa entre os irmãos. Em dezembro
daquele ano, 1983, aos 17 anos, fiz os testes em São Paulo. Em fevereiro de 1984 lá estava,
saído de uma cidadezinha de uns 12 mil habitantes, para a maior cidade da América Latina e
sozinho.
Foram dois anos e meio de estudos. Destaco Grego, Arqueologia Bíblica, Introdução ao
Velho Testamento, Psicologia, Ética e Filosofia. Nesse período as grandes discussões no meio
evangélico fundamentalista eram se podiam bater palmas nos cânticos, se pastor podia usar
barba e se bateria poderia ser instrumento sacro.
Desvio e reaproximação
Num dia qualquer do mês de julho de 1986 decidi voltar pra casa. Pedi saída do Banco Itaú, uma das agências da Avenida Paulista, e em quatro dias estava no bairro Presidente Vargas, em Içara, para onde meus pais haviam mudado.
Passado um ano, angustiado pelo ‘mesmismo’, tendo uns meses como ‘desviado’, fui para
a missão internacional Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo, fundada pelo teólogo
estadunidense, Dr. Bill Bright, o qual conheci naquele mesmo ano, 1987. Foram seis meses de
atuação dentro e arredores da favela do Parque das Américas, em Mauá.
Casamento, igreja e conflitos
Em junho de 1988 conheci minha esposa e nos casamos em dezembro. E aí tudo mudou
profundamente.
Os conflitos começaram na primeira semana. Não passamos mais que alguns dias em paz. No
princípio eu usava dos preceitos de livros de orientação para casais que havia lido. As técnicas,
uma a uma, mostraram-se tolas. Encontros de casais foram vários. Nada resolvia. Comecei a
cobrar de Deus uma solução. Afinal, entendia que meus esforços mereciam respeito e que era
digno de um milagre. Tantos anos de dedicação não me valiam de nada? Os questionamentos
começaram exponencialmente.
Vendo minha fé esvanecer decidimos, minha esposa e eu, visitar outros casais. Alguns deles
à beira de abandonarem a fé. Eis que, salvamos alguns de apostatarem. Isso de igual forma
não nos aliviou. Aos 33 anos decidi, enfim, abandonar o cristianismo pela simples falta de um
milagre. Sim, um milagre que salvasse meu maior patrimônio nessa vida: minha família. Ora,
se não era capaz de salvá-la de que me adiantaria o alívio de uma dor de barriga ou saber da
benção do outro?
Um novo caminho
Passei a observar a fé com outros olhos, os da dúvida. Analisei de forma recorrente os
testemunhos dos demais em busca dos meus erros. Os casos de ‘salvação’ estavam ligados
a coisas meramente humanas e do convívio num grupo como o da igreja. Aliás, a igreja,
aquele grupo de pessoas da mesma fé, foi totalmente omisso no meu caso. Pedi reiteradas
vezes que nos ajudassem. Nem uma visita sequer. “Por favor, converse com minha esposa”
pedi aos líderes e pastor muitas vezes. Ao deixar a igreja restou minha imagem de um cara
ruim, culpado pela ruína da minha família. Porém, o que eu achava que seria a ruína não foi.
Seguimos nossa vida até que a separação veio. Foram quatro anos e meio separados. Hoje
estamos juntos novamente e nossos filhos nos amando, numa relação muitíssimo diferente.
A vida ficou muito melhor. Sim, muitíssimo melhor. A fé cristã era uma prisão, cuja dimensão
só fui perceber quando dela me afastei. Hoje tenho desprezo pelo que fiz como crente devoto.
Tenho vergonha de mim mesmo por ter andado de Bíblia em punho, de tantas horas de oração
e da defesa dessa fé. “Como era ingênuo, cego e tolo”, penso hoje.
Mente aberta aos questionamentos
Questões bem básicas passaram a rondar minha mente e me dediquei a ponderar sobre cada
uma delas. Alguns exemplos: se Deus escolhe um povo rejeita todos os demais; a Bíblia não
vai além do mundo conhecido na época em que foi escrita; não há nela uma orientação clara,
sendo as doutrinas fruto de interpretações de vários textos dispersos; ela foi escrita no tempo
e espaço e isso exclui os de fora do espaço e de outras épocas, o que não combina com um
Deus que quer se revelar; nenhuma incredulidade pode ser maior que a vontade de Deus em
se comunicar, ou essa incredulidade seria mais forte que o próprio Deus; o crescimento ou
mesmo a existência das muitas formas de acreditar em Deus estão vinculadas às culturas e isso
não combina com um Deus que se manifestaria em todas as épocas e tempos; Abraão, pai da
fé cristã e judaica, não poderia ser, em hipótese alguma, o único homem de sua época digno
de ser chamado por Deus; o pior dos seres humanos é o mais digno de ser alvo da revelação
de Deus e não um Abraão, o cara certinho; o cristianismo só chegou na América 1,5 mil anos
após seu surgimento e isso também não combina com um Deus que quer se revelar; a pior das
tolices é achar que foi dado aos homens a missão de divulgar a mensagem de Deus, ou seja, a
Avon tem muito maior sucesso dada a proporção. Questões simples me fizeram perceber que
o cristianismo não vem de Deus, assim como qualquer outra forma conhecida de fé.
Foram mais de cinco anos de muitas lágrimas e sofrimento entre a decisão de abandonar a fé
cristã até que me senti liberto e em paz. Passada a fase da revolta tive a tranquilidade para
avaliar tudo e concluí que não há qualquer relação entre nós e Deus. Ele simplesmente nos
ignora. Isso significa que para mim Ele existe, apenas não nos distingue dentre tantos outros
seres. Absurdo? Claro que não. Observe que reivindicamos a condição de ‘coroa da criação’
somente porque pensamos de forma mais complexa. Qualquer ser humano desprovido dessa
condição não reivindica tal posição, sequer consegue entender um mínimo do que seria o
Criador. Além disso, a mente deteriorada por uma doença passa a criar um mundo paralelo,
tem alucinações etc. Ou seja, nossa relação com Ele depende de nossa condição mental, nossa
cultura, idade, posição geográfica e época. Enfim, com tantas variáveis como posso considerar
a possibilidade de que ele tenha dito alguma coisa objetiva?
Hoje penso assim.
Que Ele venha falar comigo se assim quiser
O que passei a ouvir dos cristãos, dada essa mudança, é outro capítulo. Em pensar que disse
a outros as bobagens que ouço agora... Mas se você acha que Deus tem algo para mim peço
encarecidamente que Ele mesmo venha conversar comigo. Estou ávido por isso!
A experiência pessoal sempre será um dos filtros da realidade. Talvez o principal. A experiência
pode aprisionar, tanto quanto libertar. Em geral são as vivências que nos colocam num tipo de
mundo dentro do mundo comum a todos. É com treino, dores, alegrias e muita boa vontade
que podemos ir além de nós mesmos como referência do mundo.
(Depoimento de André Roldão, jornalista, historiador, gaúcho, 45 anos, pai, marido, ciclista, apreciador de filosofia e polêmico por natureza. Blog do André)
2011 não foi um ano muito pródigo em leituras para mim. Não que eu não tenha lido bons livros. Mas li pouco. Vai aí uma breve retrospectiva de minhas leituras do ano que passou. Não são todos, mas os mais marcantes.

Liberal, Libertário, Libertino(Alex Castro) – já conheço o trabalho de Alex e sei a qualidade dos textos. O livro leva o mesmo nome de seu blog, que foi um dos primeiros que comecei a ler. Liberal, Libertário, Libertino é composto de crônicas sobre as experiências de vida de Alex. Algumas delas eu já havia lido no blog e sabia que valia a pena ter o livro. São crônicas sobre como sua vida mudou depois de que ele deixou de ser um cara rico e abriu mão da busca desenfreada por acumular bens em troca de uma vida de contemplação, estudo e trabalhos que lhe dessem a oportunidade de pagar suas contas e só. Mas há outras crônicas sobre outros assuntos. É um livro que mexe com nossas idéias pré-estabelecidas sobre praticamente tudo. Fecha com um relato de sua “desventura” quando morava em New Orleans exatamente no período em que a cidade foi devastada pelo furacão Katrina.
“Fui obrigado a evacuar uma cidade estranha, onde eu não conhecia ninguém, e não pude levar meu cachorro. Todo mundo teve uma opinião sobre isso. Não tinha jeito. Canalhice. Egoísmo. Fica assim, não. Etc.
Reparem: não estou nem dizendo que essas opiniões não têm valor. Têm sim, e muito. Para quem as emitiu.”
Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) – um clássico da literatura de ficção futurista que assim como Laranja Mecânica, Admirável Mundo Novo e 1984 mostra um mundo diferente daquele que conhecemos. No caso de Fahrenheit, um mundo sem livros, onde leitores são caçados como contraventores e a alienação impera. Um ótimo paralelo com nossa condição atual, que pode não ser tão rígida como o mundo apresentado por Bradbury, onde livros são considerados tão perigosos e inúteis que devem ser queimados, mas caminha a passos largos para a extinção do hábito da leitura.
“Queimar era um prazer. Era um prazer especial ver as coisas serem devoradas, ver as coisas serem enegrecidas e alteradas.”
Como morrem os pobres e outros ensaios(George Orwell) – vou me abster de comentar. Sou simplesmente fã incondicional de Orwell. Ele é mestre! O livro é dividido em tópicos. São eles: Os dias são sempre iguais, A insinceridade é inimiga da linguagem, A covardia intelectual é o pior inimigo, ‘Pacifismo’ é uma palavra grega, É melhor cozinhas batatas do que fritá-las, O sapo tem o olho mais bonito. Recomendo também Dentro da Baleia, outra compilação de ensaios do autor e o clássico 1984.
“Em certos tipos de texto, em particular na crítica literária e de arte, é normal encontrar longos trechos que carecem quase completamente de sentido. Palavras como romântico, plástico, valores, humano, morto sentimental, natural, vitalidade, tal como usadas na crítica de arte, não dizem rigorosamente nada.”
Coisas para fazer antes dos 30 – perder peso, escrever um livro, engravidar, vencer um câncer de mama (Lisa Lynch) – o livro trata de um assunto espinhoso: o câncer de mama da protagonista que, como sugere o título, se manifestou antes dos 30 anos de idade. Mas é cheio de momentos cômicos, de bom humor e a tradicional ironia fina inglesa. Claro que há momentos emocionantes, tristes e até raivosos, afinal a autora relata sua luta contra o câncer. Uma leitura que me prendeu e me fez enxergar a importância das coisas simples da vida.
“Fui muito tola de achar que podia colocar um pouco de glamour na situação entrando feliz no hospital, saltitando até a sala mais assustadora do mundo com minha saia de flores e tamancos, como uma consumidora perdida no mercado negro e não num shopping Center repleto de lojas lindas.”
Entrevista com o Vampiro (Anne Rice) – um dos poucos casos em que o filme ganhou do livro. A linguagem de Anne Rice não chega a ser rebuscada, mas às vezes é detalhada demais, ao ponto de ficar cansativo.
Rum: Diário de um jornalista bêbado (Hunter Thompson) – quem já conhece o gonzo jornalismo, do qual Thompson foi dos precursores, sabe mais ou menos como é: VIDA LOKA, MANOLO. Em Rum, o autor narra sua mudança de Nova York para San Juan em Porto Rico, a fim de trabalhar como jornalista. É autobiográfico, como os outros livros de Hunter Thompson, porém ele usa um personagem fictício. Ambos têm em comum o gosto pelo jornalismo, pelas mulheres e, óbvio, pelas bebedeiras. O livro começou a ser escrito quando o autor tinha apenas 22 anos, mas só foi publicado em 1998, depois de quase 40 anos.
“Chegar meio bêbado em território estrangeiro é um problema para os nervos. Você tem a sensação de que algo está errado, de que está perdendo o controle. Eu me sentia assim e, quando cheguei ao hotel, fui direto para a cama.”
Fugalaça (Mayra Dias Gomes) – levando-se em consideração que foi escrito quando a autora tinha 17 anos, é um bom livro. Também autobiográfico, fala sobre a vida desregrada da personagem Satine, após a morte de seu pai. Impossível não traçar um óbvio paralelo entre Satine e Mayra, filha do novelista Dias Gomes, morto quando a autora era uma pré-adolescente. O livro é em primeira pessoa, mas há toques de ficção. Quando se fala em vida desregrada, pensa-se logo em muito sexo, drogas e rock’n roll, mas no caso de Fugalaça não é tanto assim (ou ao menos não é tão chocante para quem já teve algumas experiências de vida no mesmo sentido). São as aventuras e neuras de uma adolescente meio perdida no mundo, enchendo a cara, usando drogas e metendo os pés pelas mãos quando se trata de paqueras. A obsessão da personagem pelo menino do qual gosta chega a ser irritante, mas, mais uma vez deve-se considerar que se trata de uma adolescente. As figuras de linguagem são caprichadas e é uma história dessas que você lê e pensa “é, não acontece só comigo”.
“Enchia minhas narinas das sensações que ele sentia. Era delicioso, eu passava a usar coroas, mesmo sem nenhuma em minha cabeça. Sentia-me como Napoleão Bonaparte. A onda era diferente de todas as outras, era realista e nada alucinógena e parecia compatível com qualquer situação.”
O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde) – a história de um jovem tão lindo que, quando se dá conta disso, faz uma espécie de pacto (não se sabe se com o Diabo) para nunca envelhecer. Oscar Wilde usa uma linguagem única: realista, sarcástica, sem esperanças na bondade do ser humano. Um clássico que trata de burguesia, vaidade, riqueza, coisas que Oscar conhecia muito bem. Publicado em 1891, O Retrato de Dorian Gray gerou entusiasmo e polêmica. Em mim gerou fascinação completa pela história e pelo modo como é narrada. Sua visão do mundo e da sociedade é atemporal.
“Os poetas não costumam ser assim tão escrupulosos; eles sabem bem da utilidade que a paixão traz para uma publicação. Nos dias de hoje, um coração partido transita por muitas edições.”
O Casamento (Nelson Rodrigues) – a princípio achei que se tratava de uma compilação de crônicas do autor, mas não, é um romance. É a história de uma moça prestes a se casar e as fantasias inconfessáveis que isso gera em seu pai. Como todo Nelson Rodrigues, não falta tensão sexual e obscenidade. A trama envolve assassinato, incesto, moralismo, rebeldia. É uma obra que desafia qualquer puritanismo que se tenha em mente. E mesmo para cabeças bem abertas e amorais, há momentos que você chega a ficar constrangida tamanha a liberalidade do autor.
“No elevador, Sabino ia pensando no ginecologista de batina – e coroinha na cabeça – que ele próprio imaginara. Mas já lhe ocorria outra imagem, de uma obscenidade absurda. Um São Francisco de Assis, de luva de borracha, um passarinho em cada ombro – fazendo o toque ginecológico.”
A Libélula dos seus Oito Anos (Martin Page) – a história de uma órfã, que vive solitária apenas com a companhia de seu camaleão de estimação e tem como única amiga uma ex-modelo excêntrica. A órfã em questão, Fio, uma garota ruiva e sem vaidades, me encantou, assim como toda a trama. A história pode ser considerada pessimista ou realista, depende de como a encaramos. Eu achei mágica, de uma doçura melancólica. Um livro que não dá lições de moral, mas que nos coloca frente a frente com nosso egocentrismo e, sem querer ensinar, nos ajuda a perceber nossas diferenças, peculiaridades e aceitá-las.
“Seus lábios finos e pálidos como os de um horizonte anêmico, contrastavam com seus cabelos ruivos; mexiam-se pouco, mesmo quando Fio falava; mas o sorriso estava sempre ali, bem presente. Tornava-se brilhante para quem o intuísse, era sublime para aqueles que tinham a imaginação capaz de enxergá-lo daquela forma naquele rosto comum. Não se saberia dizer se seu sorriso era o ponto de partida ou de chegada da ironia que irradiava de Fio. Era uma ironia suava como a lâmina de uma faca a recortar a pétala de uma rosa. Se os mortos pudessem sorrir, sorririam assim.”
Tempo de Esperas (Pe. Fábio de Melo) – surpreendeu-me por ser o livro escrito por um padre e mesmo assim não haver nenhuma forçação de barra rumo ao catolicismo. Aprendi bastante com esse livro, que contém muitas questões filosóficas, existencialistas e reflexões sobre amor, amizade, paciência, fé, esperança.
“Já estou certo de que você tem um filósofo desencantado abrigado no âmago de sua mente. Ele é arrogante porque tem consciência de ser limitado. A arrogância é um recurso dos ignorantes. Quanto menos sabe, maior é o desejo de agredir aquele que atenta contra o que ele não sabe, mas julga saber.”
Música para Camaleões (Truman Capote) – o autor de A Sangue Frio, grande sucesso do jornalismo literário, é primoroso em Música para Camaleões, sua última obra. Ele narra encontros com personagens sui generis, em situações surreais ou prosaicas. São pessoas comuns, anônimas ou famosas, como o velório em que compareceu junto à Marilyn Monroe.
“Enquanto eu pagava a conta ela foi à toalete, e quem me dera eu tivesse um livro para ler: suas visitas à toalete às vezes duravam mais que a prenhez de uma elefanta. Depois de vinte minutos, resolvi investigar. Encontrei a toalete das senhoras, e bati na porta. Ela disse: “Pode entrar”. Lá dentro ela enfrentava um espelho mal iluminado. Perguntei: “O que você está fazendo?”. Ela respondeu: “Olhando para ela”. Na verdade estava pintando os lábios com um batom cor de rubi.”
Diários de Jack Kerouac (Douglas Brinkley) – como o título já diz são vários trechos de diários de Jack Kerouac, o escritor conhecido por On The Road e por ser um dos arautos do movimento literário e cultural Beatnik. O historiador Douglas Brinkley reuniu uma série de anotações que Kerouac fazia enquanto escrevia seu primeiro romance Town & The City e On the Road. Eu já era fã de Kerouac e a leitura de seus diários só fez aumentar minha admiração por ele. O autor beatnik, que é retratado quase sempre como um inconseqüente adepto das drogas e da vida errante, mostra uma outra face em seus escritos íntimos: alguém preocupado com sua produção, apegado à mãe e fascinado por Jesus Cristo. Claro, há as bebedeiras e dias sem rumo, mas não é a tônica de suas anotações. Ele chega a refletir se seu envolvimento com alguns amigos também ligados ao que veio a ser considerado como o movimento beat, como Alen Ginsberg, não poderia estar atrapalhando seu rendimento como escritor.
“Quanto a mim, a base da minha vida vai ser uma fazenda em algum lugar onde vou produzir parte de minha própria comida, e, se necessário, toda ela. Um dia não vou fazer coisa alguma além de sentar embaixo de uma árvore para ver minha lavoura crescer (depois do devido trabalho, claro) – e beber vinho caseiro, e escrever romances para edificar meu espírito, e brincar com meus filhos, e relaxar, e gozar a vida, e brincar, e assoar o nariz. Eu digo que eles não merecem nada além de desprezo por isso, e a próxima coisa, claro, eles todos estarão marchando para alguma guerra aniquiladora que seus líderes corruptos começarão para manter as aparências (decência e honra) e “fechar as contas”. (...) Caguei para os russos, caguei para os americanos, caguei para todo mundo. Vou viver a vida do meu jeito “preguiçoso coisa ruim”, é isso o que eu vou fazer.”
Lá estava eu, amargando uma TPM federal, daquelas de sentir raiva, irritação, ficar triste, chorar litros e assim num círculo vicioso sem fim. Todos os problemas se tornando maiores e intransponíveis. Estava na cama curtindo esses momentos de puro stress, enchendo os ouvidos da minha mãe a respeito de paradigmas existenciais como o fato de não conseguir definir se faço luzes ou pinto o cabelo. Como essa é realmente uma questão crucial resolvi levantar e ver se achava algo que prestasse na TV. Complicado também, porque com TPM até Friends pode ficar irritante. É raro, mas acontece.
Aí me deparo com a cine-biografia de Ray Charles, que já assiste 500 vezes, mas assistirei mais 500 se possível. O filme já estava mais do meio pro final, mas fiquei feliz da vida assistindo. Passou TPM, tristeza, chatice, tudo. Esqueci meus problemas capilares e mergulhei no Unchain my Heart. De qualquer forma fiquei puta por antes estar na cama maldizendo minha condição hormonal, enquanto na TV Jamie Fox interpretava lindamente Ray Charles.
Viu? Levantei da cama e encontrei algo que me distraiu. Não porque eu tenha pensado “oh, alguns têm problemas de verdade, o cara cego, viciado em heroína e eu aqui reclamando da vida”. Nada disso. Tenho todo o direito de reclamar, não importa quantos cegos existam no mundo, ainda mais em se tratando de um cego gênio da música como Ray. (Embora, de forma alguma eu gostaria de ter estado na pele dele. E creio que nem ele gostaria de estar na minha, ao menos não no sentido usual) Simplesmente abstraí minha irritação porque a arte faz isso comigo. A música de qualidade, um filme fascinante, vozes belas, atores que cumprem com galhardia sua função. ISSO acalma minha TPM ou me tira do tédio. Muito mais do que uma barra de chocolate. (Se bem que a combinação pote de sorvete + um bom filme seria deveras bem vinda.)
Fica a lição pra vida: às vezes levantando da cama, nem que seja para ir até o sofá, o turbilhão mental é substituído por puro prazer. E o alívio da TPM pode estar a umas zapeadas de distância.

TPM? Não sei, nunca vi. =P
Juliana Dacoregio