O Par Perfeito
Leia qualquer revista feminina e você verá a mesma queixa várias e várias vezes: os homens - esses garotinhos com dez ou vinte ou trinta anos a mais - são um caso perdido na cama. Não estão interessados nas "preliminares"; não têm nenhum desejo de estimular as zonas erógenas do sexo oposto; são egoístas, ávidos, desajeitados, sem sofisticação. Essas queixas, você não pode deixar de perceber, são algo irônicas. Naquela época, tudo que nós queríamos eram as preliminares, e as garotas não estavam interessadas. Elas não queriam ser tocadas, acariciadas, estimuladas, excitadas: na verdade, costumavam nos bater se tentássemos fazer isso. Não é na realidade muito surpreendente, então, que não sejamos muito bons na coisa. Passamos dois ou três anos longos e importantes da nossa formação ouvindo dizer, com bastante ênfase, para nem pensarmos nisso. Entre as idades de catorze a vinte e quatro, as preliminares deixam de ser algo que os garotos querem e as garotas não, e passam a ser algo que as mulheres querem, mas para o qual os homens não têm tempo. (Ou pelo menos é o que eles dizem. No meu caso, eu gosto das preliminares - principalmente porque as ocasiões em que tudo que eu queria era tocar estão alarmantemente frescas na minha mente.) O par perfeito, na minha opinião, é aquele formado pela leitora de revistas femininas e um garoto de catorze anos.
- "Rob Fleming", Alta Fidelidade.
Google Latitude
O novo Google Latitude foi o assunto do mundo conectado ontem. Boa parte dos artigos e comentários que li a respeito saudavam o serviço de forma entusiasmada, provavelmente por seu caráter inovador, algo tão estimulante para todo nerd que se preze. Trata-se de uma nova rede social que permite ao usuário verificar a localização das pessoas que segue, em tempo real. Pode ser através do desktop ou de aparelhos móveis, fazendo uso de tecnologia GPS e de triangulação celular. O "amigo" que é parte de sua rede torna-se um avatar locomovendo-se sobre um mapa, como mostra a imagem aí do lado.
É inovador, sem dúvida. Não é um prodígio do ponto de vista tecnológico, já que as tecnologias utilizadas não são exatamente novas, mas é ousado enquanto ideia, algo bem ao estilo do Google. Existem aplicações positivas para o Latitude, na prática? É provável que sim, mas deixarei que os entusiastas comentem isso. Eu, como bom chato que sou, devo contar que meu Sentido de Aranha gritou MONITORAMENTO assim que vi do que se tratava.

Em vários níveis, o Latitude é uma grave ameaça à privacidade. Parece ser o ponto alto deste processo marcado pela superexposição, onde o "conectar-se" é mais importante do que realmente interagir, mas antes de tudo é uma ferramenta de controle que faria o Grande Irmão vibrar de tanta excitação. Não vou fazer aqui um exercício de futurologia falando de regimes totalitários. Prefiro ficar com três exemplos simples de pessoas e/ou entidades que também estão vibrando: pais controladores, conjugues desconfiados e empregadores.

O argumento simplório diz que a ferramenta tem configurações de privacidade. O usuário pode definir quais amigos terão acesso total ou parcial à sua localização, bem como desligar o serviço quando quiser. Lindo, não é? Você continua exercendo sua liberdade; você tem total controle sobre sua vida. Bobagem!
Vamos imaginar uma empresa que por algum motivo x acredita que é de seu interesse monitorar seus funcionários fora de suas dependências, no caminho para o trabalho, por exemplo. Grave, certo? "Ah, mas existem leis trabalhistas que garantem que o empregador não pode controlar o que o funcionário faz fora de seu horário de trabalho". É verdade, mas os contratos que no fim das contas realmente importam nas relações de trabalho não são aqueles regidos pela CLT. Há um "contrato" não dito, mas subentendido na dinâmica das relações patrão x empregado, que há muito tempo superou questões como o tempo e o espaço, o dentro ou fora da empresa. Você já percebeu que aquele smartphone que o chefe te deu permite que ele te encontre mesmo quando você está de férias ou com sua namorada, e que ele sempre reclama quando você não atende? O "tudo bem, você está no seu direito de não usar essa ferramenta fantástica que vai agilizar a comunicação de nossa equipe" na verdade significa "ainda nesta semana vou substituir você por alguém que respeite nossos interesses, afinal está cheio de gente lá fora querendo sua vaga". A maioria dos funcionários é bastante sensível ao que está nas entrelinhas em casos assim, principalmente se tiver contas a pagar ou filhos para criar...
Falando em filhos, crianças e adolescentes são também vítimas potenciais do Latitude. Uma amiga disse ontem que este serviço é o sonho de toda mãe, e eu retruquei que era exatamente disso que eu tinha medo, ao que ela respondeu com o clássico "você não é mãe, você não sabe". Bem, nunca serei mãe mesmo [ainda bem], mas sempre fico arrepiado quando jogam isso na minha cara. O motivo é que algumas das piores atrocidades cometidas por pais, algumas das coisas mais prejudiciais e traumáticas, são justificadas com "você não é pai, você não entende". Não é um argumento válido, e eu bem sei o quanto o controle e a superproteção dos pais acaba resultando em adultos inseguros e dependentes. Eu até deveria estar feliz neste caso, já que o Latitude provavelmente vai me render novos pacientes no futuro, gente que vai precisar de muita terapia...
Mas deixando o humor de lado, a superproteção paterna é um problema grave desta geração, com filhos que são mantidos adolescentes tardios simplesmente porque não tiveram espaço para chegar á vida adulta. Não são poucos os casos que conheço de pessoas que tiveram a vida traçada pelos pais e nunca amadureceram. Oferecer uma ferramenta como o Latitude para esse tipo de pai [tão comum na classe média paulistana, por exemplo] é criar um futuro exército de trintonas colecionadoras de papéis de carta e de homens que viverão na casa dos pais até os 54 anos. Simplesmente desligar a ferramenta é uma opção que dará enorme dor de cabeça para os filhos: "você pode me dizer por que o Latitude do seu celular foi desligado assim que você saiu da aula hoje, mocinha?". O início de vidas sexuais saudáveis está seriamente ameaçado! A verdade é que por vezes não saber onde o filho está é parte indissociável do ofício da paternidade, e agir independentemente sem precisar ser monitorado é a prova de que este filho tornou-se responsável, e que a educação dada a ele foi efetiva. É uma questão de respeito ao indivíduo.
Citei também os casais que vivem crises de confiança [quase 80% deles, ou mais]. Desligar o serviço por um período alimenta no conjugue paranoico as mesmas desconfianças do pai "preocupado" do parágrafo anterior, gerando o mesmo tipo de dor de cabeça para qualquer um que queira a privacidade respeitada por um período de tempo. Isso sem falar em diálogos cômicos do tipo "o Sr. pode me explicar por que o Latitude te mostrou durante 4 horas na Rodovia Raposo Tavares hoje?".
O que quero mostrar é que o uso desta ferramenta envolve variáveis complexas, que vão muito além de configurações simples de privacidade. Existem implicações sociais, questões de segurança e mesmo uma discussão bem vinda que renasce, sobre o volume de informações que o Google coleta sobre os usuários de seus serviços. Pouco vi desta crítica nos comentários a respeito do tal Latitude, uma ferramenta perigosa, para dizer o mínimo.
Fico pensando, por exemplo, na deliciosa dança da sedução. Ir descobrindo aos poucos quem é o outro, do que ele gosta, o que faz, o que é importante para ele etc. Hoje, basta uma olhada rápida em perfis de redes sociais. Com o Latitude, perdemos também aquele gostoso "o que será que fulana está fazendo, onde ela está agora?" que ocupa o pensamento dos apaixonados. É, essa vidinha conectada está ficando bem sem graça...
Eu não existo sem o seu olhar
O texto que você está procurando mudou de endereço. Leia Eu não existo sem o seu olhar no Marcos Donizetti Weblog.
Tu te tornas eternamente responsável por me amar
O texto que você está procurando mudou de endereço. Leia Tu te tornas eternamente responsável por me amar no Marcos Donizetti Weblog.
Sadismo e varejo
Ainda não estudei a fundo a Psicologia Institucional, mas estava hoje fazendo algumas reflexões, e achei que era por bem escrevê-las aqui. Instituições têm personalidade. A Universidade à qual estou vinculado, por exemplo, é neurótica obsessiva. Aliás, o interessante é que ela acaba por atrair alunos e professores com este "perfil". Hospitais psiquiátricos podem ser psicóticos (coisa que não acontece com o hospital em que trabalho, é claro), e assim por diante...
Hoje eu pensava sobre as grandes lojas populares de varejo do Brasil, e saquei que elas são sádicas. É engraçado porque nosso país é pródigo em pessoas que reclamam do capitalismo. Temos movimentos sociais a rodo, todos pregando em nome da foice e do martelo. Mas, a gente nem sabe o que é viver num país capitalista de verdade! O capitalismo-arte, o capitalismo-moleque, o capitalismo de amor ao lucro não existe por essas bandas. Se existisse, o consumidor-cliente seria encarado de forma muito mais soberana do que é. Mas aqui a questão é diferente, e se trata de controle.
A loja tem o poder, é dona da "falta" do cliente. Ela tem o produto. Como todo bom sádico, ela joga com este poder. Ao cliente é oferecido o privilégio de comprar ali, mas se e somente se a loja o considerar digno do crediário. A desculpa é compreensível num primeiro momento: a inadimplência. Mas, será mesmo que os riscos do não pagamento justificam o atual estado de coisas? Não se deixem enganar, o que está em jogo é a dominação. E a coisa beira absurdos: outro dia comprei um celular numa conhecida rede varejista que tem o nome inspirado num estado do nordeste, mas ao chegar em casa descobri que o aparelho tinha um sério defeito. Ao voltar até a loja e pedir meu dinheiro de volta a atendente simplesmente disse que o regulamento da loja não permitia. Ao pedir para falar com o gerente, ela disse que ele estava em reunião, sem previsão de terminar. Só fui atendido em meu desejo quando disse que esperaria o gerente nem que tivesse que ficar ali até morrer [coisa que anda acontecendo, não?]. Outro caso é de uma amiga, autônoma, que não foi bem orientada e tentou comprar um computador em outra dessas lojas com nomes que remetem ao nordeste. Apesar de até ganhar bem, ela não tinha dinheiro para comprar à vista naquele momento. Acreditam que a loja pediu um "fiador"? É um computador, não um apartamento!
São apenas dois exemplos de uma situação absurda e nonsense que está se repetindo, neste exato momento, por todo o país. Pessoas estão sendo humilhadas, submetendo-se ao desrespeito do outro, para obter o "direito de comprar". O engraçado é que o atendente sem educação e abusador só difere do pobre coitado que quer comprar pela posição em relação ao balcão de vendas, e isso é bem cruel.
Só seremos uma economia desenvolvida de verdade quando o cliente tiver o papel que é dele. A loja deve brigar para obter a compra, deve primar pelo suporte e assistência pré e pós venda. Enquanto houver essa luta em que o cidadão deve se mostrar digno de fazer uma compra, seremos apenas ridículos. E, apesar de não ser o caso de discutir isso neste post, esse estado de coisas é sintoma de toda nossa organização social (que é doente).
Enfia a bituca no...
Sinceramente, não tenho nada contra o tabagismo. Não abraço campanhas do tipo "não fume porque faz mal para a sua saúde" pelo simples motivo de que cada um é senhor dos seus atos, e acho que todos temos o direito inalienável de fazer mal à própria saúde. Na verdade, também não vejo muito problema quando a coisa me afeta: não ligo quando acendem um cigarro por perto e não peço para fumarem longe de mim (nem mesmo em lugares fechados). O cheiro não me incomoda, e nem o gosto que deixa no beijo. Afinal, se a mocinha for suficientemente interessante para merecer um beijo meu, não é o sabor de cinzeiro que vai estragar tudo.
Mas existe um comportamento relacionado ao ato de fumar que realmente me tira do sério, a ponto de despertar fúria e desejo de matar: jogar a "bituca" do cigarro no chão. Fiquei alguns minutos hoje na frente de um banco, e várias pessoas chegavam, altivas e arrogantes em sua estupidez, jogando o cigarro ainda aceso na calçada ou mesmo no jardim da praça, na pressa de entrar logo na agência. Jogar a bituca do cigarro no chão não é apenas falta de cuidado com a própria saúde ou com a saúde de pessoas próximas. É, isto sim, um ato de extremo descaso com o espaço público, com a coletividade, com o Universo. Não é ato fugaz que dura o tempo que a fumaça leva para se dissipar (não vou entrar no mérito da poluição do ar agora), mas uma maneira de eternizar a falta de educação, de garantir a triste herança de uma marca patética para a posteridade. A bituca jogada hoje entre as flores é a obra permanente de um idiota que provavelmente sobreviverá à própria humanidade (a bituca, não o idiota). O fumante sem educação pode dizer "já deixei um pouco de mim neste mundo", pois até exploradores alienígenas do futuro saberão o quanto ele foi babaca. O filtro dos cigarros é revestido por acetato de celulose, um material que dificulta absurdamente a decomposição deste resíduo do teu vício. Acredite em mim, não minto quando digo que essa merda provavelmente ficará no mundo mais tempo que você!
"Ah, mas eu vou ficar com a bituca na mão até achar um lugar para jogá-la?". Claro que vai! Na sua casa, você leva a bituca até um cinzeiro ou a joga no chão? Eu sou viciado nas asinhas de frango apimentadas do Hooters, já pensou se saio por aí jogando os ossos na rua e nos jardins? Tem gente que se masturba compulsivamente, já imaginou como seria a calçada cheia de esperma? Se você escolheu ter um vício (e isso definitivamente é um direito seu), deve respeitar algumas contingências para mantê-lo. Na grande maioria dos casos o onanista compulsivo busca um lugar adequado para satisfazer seu vício, ou pelo menos para deixar seus "resíduos". Leve um saquinho no bolso ou na bolsa para colocar as bitucas apagadas; deixe de ser preguiçoso e caminhe até a lixeira mais próxima (e aprenda a apagar direito o cigarro). Enfim, dê um jeito, invente algo, mas não continue sendo um porco maldito.












