vale-tudo
Já perceberam que os melhores blogs são sempre os mesmos?
O vale-tudo está para o boxe assim como a dança da galinha está para o balé, como o Bonde do Tigrão está para Mozart — ou como a vulgaridade da Mulher Melancia está para a elegância de Márcia Haydée. Um arremedo de dança do acasalamento homossexual, o vale-tudo é o retrato de uma época em que o que importa é sempre, e apenas, o resultado. Não importa que para isso seja necessário dar uma cotovelada no rosto do oponente ou uma joelhada em seu estômago. Se o boxe tem a beleza estética que decorre da sistematização e da limitação das possibilidades da agressão, o vale-tudo é apenas violência rasteira. E feia. E completamente homossexual.
Badminton e peteca são esportes mais masculinos que esse vale-tudo. Até patinação no gelo é mais masculino, porque eventualmente o patinador com seus paetês e suas calças justas vai sentar a moça em seus ombros, os dois frente a frente, e vai lembrar a todos uma das melhores razões pelas quais é bom ser homem. Enquanto isso lutadores de vale-tudo fazem meia-noves intermináveis com a voracidade de um amor vespertino e urgente, cabeças enfiadas com sofreguidão nas virilhas dos seus parceiros, e na falta de outros fluidos se contentam com a urina em seus calções.
Vale-tudo é um sujeito dizendo para o outro “vem e me domina, meu homem”. Por baixo, o sujeito aperta com as pernas os quadris do seu amor com força, chama-o para si, e os abraços são fortes e esganados e desesperados, “diz que eu sou teu”. Não é à toa que um dos movimentos ali se chama submissão. É um sujeito meio depravado dizendo para o seu objeto de desejo “vem, cachorro, eu sou o teu senhor, faz a minha vontade”, variação sado-masoquista de uma relação de domínio. Vale-tudo é sexo selvagem, sem limites, em que o cheiro do sangue se torna o maior afrodisíaco imaginável. É por nunca ter conseguido enxergar o vale-tudo de outra forma que durante muito tempo brinquei com a idéia de fazer um curta-metragem sobre essa coisa bizarra a que chamam “esporte”, mostrando as cenas desses lutadores atracados em suas lides de amor enquanto, em BG, ouviríamos Serge Gainsbourg e Jane Birkin cantando Je t’Aime (Moi Non Plus). Mas uma moça já fez esse filme.
- Leia Rafael Galvão em Sobre o Boxe
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Comentários, Trackbacks:
Nunca gostei dessa luta, aliás, não curto violência de nenhum tipo.
A analogia do vale tudo com sexo selvagem entre homossexuais foi fantástica...rsssss
(nada contra os gays, por favor)
e os melhores blogs são sempre os mesmos porque não viu o meu!
leia Raspa de Palimpsesto e acrescente um novo blog ao rol!
me surpreende este seu comentário a respeito do vale-tudo.
Enquanto apreciador da "nobre arte", que muito mais do que a disputa violenta entre dois lutadores envolve refinada técnica, penso que você também pode vir a apreciar o vale-tudo.
Não vejo qualquer jogo homossexual mas sim profissionais que dedicaram anos de teinamento a diferentes modalidades de luta e, como em qualquer outro esporte, colocam suas habilidades à prova.
Também acho que o esporte se torna mais atrativo para o praticante de lutas por "enxergar" certos detalhes e técnicas que talvez escapem ao não praticante.
É isso meu querido!
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