Paris 2004
We're all about each other. *
A busca por um grande amor nunca me pareceu tarefa das mais difíceis. Em minhas fantasias (que sempre tiveram status de verdade, é claro), era só questão de achar uma garota que preenchesse alguns poucos requisitos: falar Francês, amar Frank Sinatra, tocar baixo e ser ruiva, com sardas. Essa Mulher Nota 1000 seria a "mulher da minha vida", sem dúvida alguma.
Mas aí apareceu você. Uma ferrenha odiadora do idioma do Tin Tin, fã do Genesis que detesta o velho Sinatra e que morre de rir do quanto eu me emociono com "a voz". Pior, sua pele sem sardas e seus fartos cabelos negros (não adianta dizer que são castanho escuros) não poderiam te deixar mais distante da ruiva de meus sonhos, e você não toca nem triângulo. Acontece.
Mesmo assim, você me conquistou já no primeiro sorriso que deu ao sentar-se à mesa, naquele restaurante. Almoço corrido em dia útil, que nem era um "encontro" propriamente dito. Dois amigos que se reencontravam apenas, e eu contei cada segundo até que pudesse te ver novamente. Nada mais chavão que falar do brilho de seus olhos escuros e do seu sorriso metálico, eu sei, mas um apaixonado deve ter garantido o seu direito de ser previsível e um tanto bobo.
De qualquer forma, eu ainda não tinha ideia, naquele momento, do tamanho da história de amor que estávamos começando. Arrisco dizer que só contigo entendi o que significa de verdade essa coisa de "amar alguém". E, de repente, tudo era com você e sobre você, mesmo quando estava longe. A mulher idealizada da fantasia deu lugar a um sentimento real com cheiro, gosto, sabor e calor. Ninguém no mundo sabe ouvir um disco dos Cardigans como nós dois, sem falar no Super Furry Animals que embalou nossa conversa alegre na cama, depois da primeira noite juntos. E foram tantas outras noites inesquecíveis...
Você me ajudou a ser um homem um tanto melhor, ainda que tão imperfeito. Foi meu incentivo maior quando busquei a Psicologia, e eu não poderia estar mais feliz com esta escolha. Serei eternamente grato a você por isso e pelos telefonemas que duravam horas; pelos olhares sempre tão carregados de orgulho; pelas risadas que só você dava ao ouvir minhas piadas infames; pelas novas bandas compartilhadas; pelos pratos deliciosos que fez para mim e por não ter demonstrado notar o quanto eu estava atrapalhado e nervoso quando fui cozinhar para você. Sou grato pelo dia em que foi me buscar na sala, enrolada no cobertor, naquela noite em que eu não queria sair da janela, preocupado que estava com nosso futuro, e também pelo livro da Clarice Lispector que, eu juro, logo vou ler. Sinto falta de cada momento em que segurou minha mão com força. Sinto falta até dos tapas que você dava nela quando eu colocava a mão na sua bunda, em lugares públicos. É que eu nunca fui muito de resistir a você, me perdoe.
Para você eu escrevi alguns de meus melhores textos, mesmo que você não saiba. Até um livro eu escrevi inspirado por você... Num mundo ideal, já teríamos hoje nossa casa com varanda e quintal, onde você vestiria sua lindíssima saia preta, rodada, e dançaríamos juntos, ao som de Brenda Lee, todos os dias. Nossa geladeira seria naquele estilo anos 50, do jeito que você gosta, e eu aprenderia a apenas comer coisas saudáveis, para que você não brigasse comigo.
Mas, sabe-se lá o motivo, alguns grandes amores não foram feitos para durar, ou pelo menos não são garantia de que os casais ficarão juntos. Diferentemente do que nos fazem acreditar, encontrar um amor recíproco não é certeza de felicidade, não é certeza de que tudo dará certo. Poderia escrever mais alguns parágrafos teorizando a respeito, mas não quero. Basta aceitarmos que a vida as vezes afasta pessoas que se amam...
Você disse que "acabou e nem percebemos". Sei do quanto não gosta da França, mas sou obrigado a responder que nunca terá acabado, já que sempre teremos Paris.
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/37946 Posts similares:
Fernanda
Ainda vou transar com você
Sonhos
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários, Trackbacks:
que bonito esse post.
essa é, ao mesmo tempo, uma das coisas mais tristes e bonitas que já li em toda a minha vida. Parabéns.
R: valeu!
R: não fique brava pela falta de contato, é que a correria anda absurda!
assim é a vida.
e talvez justamente por ser assim é que os grandes amores são grandes.
curioso que, enquanto lia, fui capaz de visualizar a tão mulher amada. por que será?
beijocas
O trecho que falou de felicidade me fez lembrar dos comentários em um de meus posts "Amizade".
Nele falei exatamente isso, que a felicidade só depende de nós mesmos, não é responsabilidade de mais ninguém.
A gente escolhe se quer ou não ser feliz.
Escolhi ser feliz e vc?????
Bjs
;>)
E aí, parei um momentinho pra ler as primeiras linhas e NÃO CONSEGUI PARAR! Assim, puxa, é maravilho, não, digo, mais que maravilhoso... Quando um cara consegue expressar-se de forma clara, mas ainda de forma profunda e excelente como você. O texto tá lindo, como algumas pessoas já te disseram... Poxa, caramba... A mulher referida no texto deve ter sido feliz ao seu lado (todo mundo espera isso né!)! Bem é isso, boa sorte!
Deixe seu comentário:












