Nelson Cavaquinho, o poeta que se chama saudade
Certo dia, num exercício de futurologia, escrevi sobre mim:
Se bem me lembro, a única coisa que eu gostava de fazer religiosamente era tocar trompete naquela espelunca da Rua Augusta, ao lado do meretrício. Tudo bem que depois de algumas facadas e garrafas quebradas na cabeça um homem de 70 anos pensa em parar, mas só ali eu me sentia humano. Só ali eu me sentia cercado de pessoas realmente verdadeiras. Apenas o povo da noite era realmente merecedor de confiança. Entre os boêmios não imperava o falso moralismo tão castrador, mesmo que existissem tantas outras mazelas. E tudo o que fiz da vida foi viver para as pessoas, para conhecê-las e entendê-las. Nunca me importou "aonde" eu iria chegar, mas sim o "como". Ainda jovem, troquei a possível carreira promissora como executivo de multinacional pelas mesas de bar.
Parte do que está neste "relatório póstumo" é real, e acho que explica muito da minha fascinação por Nelson Cavaquinho. Frequentador assíduo das rodas de choro da Gávea desde o fim dos anos 20, Nelson foi um homem da noite, alguém que perdia-se e encontrava-se na boemia. Deixava o dinheiro dos shows da noite nas mãos dos mendigos e das prostitutas, e vivia de vender algumas de suas parcerias (motivo de um desentendimento com Cartola). Cantava de maneira majestosa este mundo boêmio, os desentendimentos amorosos (o doce sofrer nas mãos das mulheres sem alma, "sem perder a calma") e a morte. "Rugas", "Quando eu me chamar saudade" e "Pranto de Poeta" são verdadeiros hinos dedicados ao morrer.
"Juízo Final", um dos maiores sambas de todos os tempos, fica melhor em sua voz maltratada pela vida que na versão da maravilhosa Clara Nunes [no disco "Claridade", de 1975], e isso não é pouco. Aliás, suas músicas foram cantadas por algumas das melhores vozes da música brasileira, Beth Carvalho e Elis Regina entre elas.
Não consigo parar de ouvir seu disco de 1973 [imagem]. Foi um dos poucos gravados, já que o primeiro foi gravado apenas em 1970, e é um dos melhores já lançados neste país.
Nelson Cavaquinho me faz pensar que a maior beleza dos grandes sambas está na dor cantada com simplicidade. Claro que é uma simplicidade apenas aparente, porque com sua voz rouca e fraca e o dedilhar envolvente de seu violão (tocado com apenas dois dedos da mão direita), ele nos apresenta temas universais capazes de fazer com que choremos junto dele este "pranto sem lenço, que alegra a gente"...
Ouça "Juízo Final":
E veja a lista completa das músicas do disco:
1 - Juízo final (Élcio Soares - Nelson Cavaquinho)
2 - Folhas secas (Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
3 - Caminhando (Nourival Bahia - Nelson Cavaquinho)
4 - Minha festa (Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
5 - Mulher sem alma (Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
6 - Vou partir (Jair Costa - Nelson Cavaquinho)
7 - Rei vadio (Joaquim - Nelson Cavaquinho)
8 - A flor e o espinho (Alcides Caminha - Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
Se eu sorrir (Nelson Cavaquinho - Guilherme de Brito)
Quando eu me chamar saudade (Nelson Cavaquinho - Guilherme de Brito)
Pranto de poeta (Nelson Cavaquinho - Guilherme de Brito) participação: Guilherme de Brito
9 - É tão triste cair (Nelson Cavaquinho)
10 - Pode sorrir (Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
11 - Rugas (Garcêz - Ary Monteiro - Nelson Silva)
12 - O bem e o mal (Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
13 - Visita triste (Anatalicio - Guilherme de Brito - Nelson Cavaquinho)
Procure o álbum nas melhores casas do ramo.
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Tem texto meu hoje no Digestivo Cultural, confiram.
O Kraftwerk e a atualidade
Gosto muito do Diogo Mainardi, ainda que não o acompanhe. É que colunas e matérias da Veja só chegam a mim nas conversas de bar com amigos, quando alguém quer comentar alguma notícia; e deixei de ver Manhattan Connection há anos (ele ainda está lá?). Gosto dele não por ser um bobo relativamente divertido, mas por ser um chato! Ninguém é mais importante para a sociedade que o chato, que o "do contra". Mainardi é assim, quer sempre remar contra a maré. Existem motivações psicológicas nisso, claro, mas o que interessa é que pessoas assim são úteis e importantes. Em momentos de histeria coletiva, é o chato quem coloca na mesa o saudável contraponto. Mesmo que seja "só para irritar", e que algumas vezes as opiniões sejam patéticas, o chato costuma trazer para o diálogo aspectos que ninguém estava vendo. Na ânsia por essa crítica exagerada que tem função social, o bom chato consegue, até sem querer, levantar questões relevantes; no mínimo nos dar material para reflexões.
Foi o que aconteceu quando ele resolveu falar sobre Kraftwerk, vejam um trecho de Kraftwerk e Mozart:
Acompanhei seus primeiros discos. Autobahn e Radio-Activity. Em 1977, quando saiu Trans-Europe Express, eu já desistira do grupo. Tinha 15 anos. Era velho demais. Quase a idade de Mozart em 1775. Naquele tempo, o Kraftwerk evocava o futuro. Mas era uma imagem do futuro de 30 anos atrás. Ridiculamente datada. Embolorada. Caduca. Com seus uniformes aderentes, com sua imobilidade no palco, com suas letras afásicas, com seus arranjos elementares, com sua batida narcótica, com sua tecnologia rudimentar, o futurismo caipira do Kraftwerk era igual ao do seriado de TV com marionetes "Os Thunderbirds".
Um ótimo texto do Mario Amaya, Em defesa do Kraftwerk, mostra algumas imprecisões do Mainardi e que seu argumento principal, a "evocação do futuro" por parte da banda, não está tão correto assim. Na verdade, a associação direta do Kraftwerk com o futurismo é parcial e superficial. Esse futurismo é muito mais estético, e como bem diz o Mario, pano de fundo para discutir questões muito atuais naquele momento (e provavelmente não só ali). Voltar-se para o futuro era colocar-se de fora e contemplar, não sem ironia, as contradições daquela sociedade. Era uma sociedade transformada e já aprisionada pelo progresso e por tudo de kitsch que havia nele. O "futurismo caipira" do Kraftwerk não tinha como objetivo falar de nós, mas deles, naquele momento específico da história. Eram crônicas de seu próprio tempo.
Mas será que essa reflexão é mesmo datada? E se a banda estivesse mesmo fazendo um exercício de futurologia, teria errado tanto? Mainardi nos fala de "uniformes aderentes", de "imobilidade", de "afasia" e de "batidas narcóticas". Estamos mesmo distantes disso? Nosso vestir não é mesmo padronizado, indiferenciado em sua "originalidade" e aderente? Não vivemos dopados, pelo uso de drogas ou não, imersos num mundo de sons e imagens fragmentadas onde, apesar dos extremos avanços da tecnologia, a comunicação está cada vez mais difícil? Neste contexto, preciso falar ainda de nossa imobilidade? A tecnologia transformou-se em fetiche, e nossas atitudes ficam restritas e limitadas geograficamente pelo espaço ocupado por nossas bundas em nossos sofás.
Mainardi acerta ao dizer que a geração dele falhou. Mas a falha não está na qualidade da arte produzida nos últimos 30 anos, e sim no fato de não ter impedido que nos transformássemos em robôs, bem como a banda "profetizou". vivemos um culto à individualidade, mas paradoxalmente somos cada vez mais tutelados. As diferenças individuais são sistematicamente incompreendidas e desrespeitadas. Somos todos "caipiras", bichos-do-mato presos em nossos próprios umbigos; e o Kraftwerk me parece cada dia mais genial ao perguntar, já nos anos 1970, "o que é ser humano? No que estamos nos transformando?". São perguntas de uma atualidade doída, e também quero perguntar: vamos deixar que nossa geração acabe por falhar também?
Quando ouço Neonlicht [youtube], lembro-me de mim mesmo, no banco traseiro de uma Volkswagen Variant 1972, encantado e assustado com as luzes da cidade, caóticas e felizes, enquanto as pessoas andavam pelas calçadas cabisbaixas e tristes, sem saber quem eram ou para onde iam. Nada mais árido e solitário que encarar as próprias trevas imerso num universo de luz, e esses alemães são fantásticos por cantarem este paradoxo.












