Google Latitude
O novo Google Latitude foi o assunto do mundo conectado ontem. Boa parte dos artigos e comentários que li a respeito saudavam o serviço de forma entusiasmada, provavelmente por seu caráter inovador, algo tão estimulante para todo nerd que se preze. Trata-se de uma nova rede social que permite ao usuário verificar a localização das pessoas que segue, em tempo real. Pode ser através do desktop ou de aparelhos móveis, fazendo uso de tecnologia GPS e de triangulação celular. O "amigo" que é parte de sua rede torna-se um avatar locomovendo-se sobre um mapa, como mostra a imagem aí do lado.
É inovador, sem dúvida. Não é um prodígio do ponto de vista tecnológico, já que as tecnologias utilizadas não são exatamente novas, mas é ousado enquanto ideia, algo bem ao estilo do Google. Existem aplicações positivas para o Latitude, na prática? É provável que sim, mas deixarei que os entusiastas comentem isso. Eu, como bom chato que sou, devo contar que meu Sentido de Aranha gritou MONITORAMENTO assim que vi do que se tratava.

Em vários níveis, o Latitude é uma grave ameaça à privacidade. Parece ser o ponto alto deste processo marcado pela superexposição, onde o "conectar-se" é mais importante do que realmente interagir, mas antes de tudo é uma ferramenta de controle que faria o Grande Irmão vibrar de tanta excitação. Não vou fazer aqui um exercício de futurologia falando de regimes totalitários. Prefiro ficar com três exemplos simples de pessoas e/ou entidades que também estão vibrando: pais controladores, conjugues desconfiados e empregadores.

O argumento simplório diz que a ferramenta tem configurações de privacidade. O usuário pode definir quais amigos terão acesso total ou parcial à sua localização, bem como desligar o serviço quando quiser. Lindo, não é? Você continua exercendo sua liberdade; você tem total controle sobre sua vida. Bobagem!
Vamos imaginar uma empresa que por algum motivo x acredita que é de seu interesse monitorar seus funcionários fora de suas dependências, no caminho para o trabalho, por exemplo. Grave, certo? "Ah, mas existem leis trabalhistas que garantem que o empregador não pode controlar o que o funcionário faz fora de seu horário de trabalho". É verdade, mas os contratos que no fim das contas realmente importam nas relações de trabalho não são aqueles regidos pela CLT. Há um "contrato" não dito, mas subentendido na dinâmica das relações patrão x empregado, que há muito tempo superou questões como o tempo e o espaço, o dentro ou fora da empresa. Você já percebeu que aquele smartphone que o chefe te deu permite que ele te encontre mesmo quando você está de férias ou com sua namorada, e que ele sempre reclama quando você não atende? O "tudo bem, você está no seu direito de não usar essa ferramenta fantástica que vai agilizar a comunicação de nossa equipe" na verdade significa "ainda nesta semana vou substituir você por alguém que respeite nossos interesses, afinal está cheio de gente lá fora querendo sua vaga". A maioria dos funcionários é bastante sensível ao que está nas entrelinhas em casos assim, principalmente se tiver contas a pagar ou filhos para criar...
Falando em filhos, crianças e adolescentes são também vítimas potenciais do Latitude. Uma amiga disse ontem que este serviço é o sonho de toda mãe, e eu retruquei que era exatamente disso que eu tinha medo, ao que ela respondeu com o clássico "você não é mãe, você não sabe". Bem, nunca serei mãe mesmo [ainda bem], mas sempre fico arrepiado quando jogam isso na minha cara. O motivo é que algumas das piores atrocidades cometidas por pais, algumas das coisas mais prejudiciais e traumáticas, são justificadas com "você não é pai, você não entende". Não é um argumento válido, e eu bem sei o quanto o controle e a superproteção dos pais acaba resultando em adultos inseguros e dependentes. Eu até deveria estar feliz neste caso, já que o Latitude provavelmente vai me render novos pacientes no futuro, gente que vai precisar de muita terapia...
Mas deixando o humor de lado, a superproteção paterna é um problema grave desta geração, com filhos que são mantidos adolescentes tardios simplesmente porque não tiveram espaço para chegar á vida adulta. Não são poucos os casos que conheço de pessoas que tiveram a vida traçada pelos pais e nunca amadureceram. Oferecer uma ferramenta como o Latitude para esse tipo de pai [tão comum na classe média paulistana, por exemplo] é criar um futuro exército de trintonas colecionadoras de papéis de carta e de homens que viverão na casa dos pais até os 54 anos. Simplesmente desligar a ferramenta é uma opção que dará enorme dor de cabeça para os filhos: "você pode me dizer por que o Latitude do seu celular foi desligado assim que você saiu da aula hoje, mocinha?". O início de vidas sexuais saudáveis está seriamente ameaçado! A verdade é que por vezes não saber onde o filho está é parte indissociável do ofício da paternidade, e agir independentemente sem precisar ser monitorado é a prova de que este filho tornou-se responsável, e que a educação dada a ele foi efetiva. É uma questão de respeito ao indivíduo.
Citei também os casais que vivem crises de confiança [quase 80% deles, ou mais]. Desligar o serviço por um período alimenta no conjugue paranoico as mesmas desconfianças do pai "preocupado" do parágrafo anterior, gerando o mesmo tipo de dor de cabeça para qualquer um que queira a privacidade respeitada por um período de tempo. Isso sem falar em diálogos cômicos do tipo "o Sr. pode me explicar por que o Latitude te mostrou durante 4 horas na Rodovia Raposo Tavares hoje?".
O que quero mostrar é que o uso desta ferramenta envolve variáveis complexas, que vão muito além de configurações simples de privacidade. Existem implicações sociais, questões de segurança e mesmo uma discussão bem vinda que renasce, sobre o volume de informações que o Google coleta sobre os usuários de seus serviços. Pouco vi desta crítica nos comentários a respeito do tal Latitude, uma ferramenta perigosa, para dizer o mínimo.
Fico pensando, por exemplo, na deliciosa dança da sedução. Ir descobrindo aos poucos quem é o outro, do que ele gosta, o que faz, o que é importante para ele etc. Hoje, basta uma olhada rápida em perfis de redes sociais. Com o Latitude, perdemos também aquele gostoso "o que será que fulana está fazendo, onde ela está agora?" que ocupa o pensamento dos apaixonados. É, essa vidinha conectada está ficando bem sem graça...
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/29265 Posts similares:
Mídia social avança
Sobre filtros de processo seletivo
ESTÁ SOBRANDO EMPREGO NA PRAÇA?
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários, Trackbacks:
Então quem estiver achando que a Google, ou qualquer pessoa vai estar a seguindo 24 horas por dia, é só não fazer parte do serviço. =]
Meu primo, que é analista de sistemas, tava pensando em fazer algo parecido com isso, mas com o intuito de segurança, no caso de sequestros, para saber a localização do sequestrado.
R: Alessandro, sem dúvida. A ideia aqui é mostrar motivos para que a pessoa não entre no serviço (eu não vou entrar), mas também é de mostrar que ela deve ser crítica em relação a pressões que sofra para participar dele.
A cada dia eu fico mais descrente, sabe?
Lindo texto!
R: Valeu!
E inclusive a tua questão do final é muito boa: será que hoje "conhecemos" as pessoas pelos seus perfis e parâmetros localizáveis simplesmente porque, na verdade, não conhecemos pessoa alguma? Ora, acabamos por "conhecer" apenas aquilo que intentamos ver. Se uma pessoa se resume a um perfil...
Enfim, não se vê mais pessoas; vê-se perfis, cifras localizáveis, ícones andando na tela, variáveis cujo único interesse existente sobre elas é o fato de serem variáveis...
É por isso que cada vez mais o anonimato se mostra importante
Caso contrário, parece pura birra...
Aliás, escutei os mesmos argumentos quando o celular apareceu por estas bandas. O Mequinho, jogador de xadrez, dizia que o cartão de débito era coisa do demônio. Enfim, cada um com sua superstição...
R: fisicamente rastreado, e em "tempo real", tal e qual no Latitude, não é possível não! Na verdade, para não ser totalmente injusto com o Latitude, descobri que dá inserir manualmente coordenadas erradas, o que deve ser bem divertido!
No mais, toda crítica a novas tecnologias, se fundamentadas, são bem-vindas. Tecnologia não é boa por si só, não é um bem em si mesma. Eu prefiro ser birrento do que adotar cegamente, de maneira acrítica, toda e qualquer "inovação". Eu me sentiria, sei lá... Gado. E sinceramente, olhando para meu saldo bancário, te digo que o grande Mequinho, apesar de suas excentricidades, estava mais do que certo sobre o cartão de débito... haha
Resumindo, boa parte das tecnologias e serviços que você citou têm aspectos positivos E negativos, ambos influenciando nossa vida a cada dia. Não olhar para ambos os lados é no mínimo ingênuo...
Certa vez, meu então "namorido" queria porque queria que eu tivesse um GPS no carro. "Por segurança", ele me dizia. Não concordei, justamente pensando no crime: "imagina, como vou poder dar um perdido desse jeito?" e o convenci a não comprarmos usando o argumento financeiro máximo: "isso custa uma fortuna". Mas a questão da (in)segurança não desapareceu por isso. Eu trabalhava na Baixada Fluminense e dia sim, dia também tomava conhecimento de episódios de violência. Por sorte, comigo mesma nunca aconteceu nada. Por pura sorte.
Entendo a sua posição como "defensor do indivíduo", mas será que atitudes como essa que eu tive não são também uma manifestão do adulto infantilizado, do eterno Peter Pan? "Ahn, eu quero ter um cara bacana em casa me esperando, mas na dúvida quero ter como dar meus perdidos sem ele saber também". Será que não é certo o patrão ter como saber que vc está por aí na hora de expediente em vez de estar em casa "de atestado"?
R: Bem, GPS no carro, para quem trabalha na Baixada, é de se considerar, não? hahaha Não é uma questão de "ah, quero poder dar perdidos na minha parceira sempre que possível", mas uma questão de liberdade individual importantíssima: é preciso, com namoridos ou não, que se mantenha o direito ao segredo individual e à solidão. Se é dado ao outro o direito ao monitoramento, cai também um conceito importante, que é a confiança. Sim, o cara que fica em casa "de atestado" enquanto deveria estar trabalhando é anti-ético e não merece confiança, mas isso não dá ao chefe dele o direito de vigiá-lo fora do trabalho. O perigo é que, quem aceita ser vigiado por chefes, e acha normal, num futuro próximo aceitará ser vigiado por um governo. Pô, eu não quero o clichê de ficar citando 1984 aqui rs...
R: e o engraçado é que lá no twitter mesmo tem gente tratando com ironia essa preocupação hehehe Eu já vi esse filme, quer dizer, já li esse livro!
A tecnologia não é boa ou ruim por si só, ela é o que é. O seu uso é que a torna boa ou ruim. Poderia dar inúmeros exemplos disso - nuclear, engenharia genetica, clonagem, internet, carros, etc.
O novo sempre vem e gera críticas. Cabe a nós saber usá-lo. Toda tecnologia, nova ou não , pode ser usada para o bem ou para o mal. O seu uso é que vai determinar seu valor. Ela por si só não pode ser demonizada, porque isso significaria a limitação do ser humano a um primitivismo tacanho...
R: concordo. tudo tem uso para o bem e para o mal. Me apeguei aqui no "para o mal", porque alguém precisa falar sobre isso. Eu digo lá no começo que "os aspectos positivos eu deixo para os entusiastas". A respeito do "usa quem quer", meu texto teve o objetivo de mostrar situações em que este "querer" pode ser relativizado por outras variáveis. Adolescentes já "submissos", pra ficar num exemplo meu, não teriam muita escolha, a não ser, claro, inserir coordenadas erradas no Latitude hahaha Boa discussão!
R: Pirandello é grande! E a "Ilha da Magia" foi um dos lugares em que já me perdi nesta vida, para depois me achar...
Nessas horas, é difícil pensar em quanto cada um realmente faz as suas escolhas.
R: Carla, você foi ao ponto. A melhor reflexão aqui é essa, o tamanho de nossa capacidade individual de escolher.
Eu fui educada numa casa onde pede-se permissão pra abrir a bolsa alheia (o que me permitiu fumar escondida por anos, hehehe) e onde todo mundo bate na porta antes de entrar. Respeito a privacidade.
Eu cresci e moro em uma cidade pequena onde já rola um Latitude "informal", o que já me incomoda bastante.
Pra mim, não serve.
Acho que será mais um motivo de neurose e de compulsão pra um bom número de pessoas.
Aguardo relatos de pontos positivos.
R: Camila, os pontos positivos existem. O que eu achei era que muita gente estava passando batido pelos negativos... Adorei o "latitude informal" hehehe
Já me sinto excessivamente prisioneira do celular e aquela coisa de ficar dando explicações quando não o levo a algum lugar. Estou falando exclusivamente de mim, claro...Mas penso que se alguém quer saber onde estou, eu quero saber quem é esse alguém e porque ele quer saber onde eu estou! Apesar da crítica ao fatídico, prefiro que me ligue no celular e pergunte "Oi Ana. Onde vc está?".
R: o serviço até tem boas configurações de privacidade, mas que não vão adiantar exatamente em casos como o seu exemplo com o celular... É complicado.
Concordo com você!
E outra: tenho minhas dúvidas se só conseguirá te ver quem vc autorizar. Será que o governo, a polícia, por exemplo, não terão livre acesso?
R: não acho que chegue a tanto não... Mas a polícia carioca anda querendo dados do Orkut sem ordem judicial, vai saber, né?
Acho que vcs estão se deixando cegar pela paranóia e deixando de ver as infinidades de possibilidades que a ferramenta nos abre - seja profissional, diversão, pessoal, etc.
Repito (e até agora ninguém conseguiu rebater): quantos aqui que criticam o Latitude tiveram a mesma precaução quando foram tirar um RG, um cartão de crédito ou celular? Quantos de vcs têm orkut, facebook e afins? email?
enfim, cada macaco no seu galho. Aposto 10 contra 1 que muito em breve a maioria aqui vai estar usando a ferramenta - ou o seu equivalente...
R: Me deixando cegar? Estou de olhos bem abertos, e a minha ideia é que outros os tenham assim também. hehehe Aliás, você tem razão, o Latitude é bem próximo do que é o celular, mas numa escala infinitamente superior. E olha que o celular já um problema em vários momentos (eu costumo tê-lo desligado). Sobre sua aposta de 10 pra 1... All in! hahaha
...mas livrai-nos deste mal, meu Deus!!!
Qual é o lado bom disso? Sério!
Vc resume muito bem nos últimos parágrafos qual vai ser a falta de vida de verdade que isso trará. Chega, gente, de se esconder (tentando se achar!) atrás dessas novidades tecnológicas!
Estamos aqui para nos conectar e se tudo permitir sair da frente da tela e nos CONHECER na rua, praça, bar, restaurante e por aí vai...
Grande beijo.
e honestamente não acho tão problemático quanto vc falou. porque somos (ou pelo menos podemos ser) vigiados o tempo todo por twitter, orkut, msn, celular, faturas de cartão de crédito etc.
se não há confiança e maturidade na relação, qualquer que seja a relação, não é o latitude que necessariamente vai tornar a coisa pior (ou melhor).
Restará o orkut o twitter e olha lá...
Agora quem quiser saber saber mais ou até onde estou me liga!
Beijos
Tenho visto, com frequência, pessoas defendendo o uso das tais "palmadas terapêuticas" como estratégia pedagógica válida, como prática necessária para a boa educação das crianças. Este post, "No recreio: passando dos limites", não é o únic...
Já bastam as câmeras públicas nas ruas, edifícios, lojas, elevadores.
Dou muito valor a minha liberdade de ir e vir, não tenho que informar a ninguém por onde andei.
Quem precisa de monitoramento 24h são os presos dentro ou fora da cadeia e os pacientes de UTI...rs
Deixe seu comentário:







