Novo Blog

imagem: "Untitled-Summer rain", obra do gênio Gregory Crewdson.
É comum que, ao nascer um filho, o pai faça planos para ele, fantasie um futuro. O pai pode querer que o filho seja engenheiro, mas ele cresce para ser bailarino do Bolshoi, por exemplo. Não é diferente com blogues. Você pensa "meu espaço terá tais e tais assuntos, e atingirá o público tal", mas nem sempre acontece. Os escritos vão tomando uma forma, por vezes diferente da imaginada ou pretendida por quem escreve, bem como nunca podemos prever a qual leitor aquele texto vai chegar.
As próprias mudanças pelas quais passamos levam o barco para outras direções. Este Hedonismos foi pensado, numa noite de pizza entre amigos, para ser sim um blogue pessoal de múltiplos assuntos, mas com um pé no entretenimento. O iG mesmo o coloca nesta categoria em sua lista de blogues. Mas, com o tempo, um outro tipo de texto foi tomando corpo, até em detrimento de outros mais focados nos assuntos música, quadrinhos, séries, esportes etc.
Estes temas permanecerão aqui, e ganharão novo fôlego. Mas aqueles posts mais relacionados ao meu trabalho na Psicologia, mais reflexivos e críticos, focados na minha observação da sociedade, da cultura e dos relacionamentos, vão agora morar em meu novo blogue no Verbeat, além de minhas brincadeiras literárias. No texto Casa nova e tempo de mudanças eu explico melhor isso tudo. Não deixe de visitar a casa nova. Se gostar, divulgue em seu blogue ou twitter, e assine o feed rss:
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Esse sou eu
Resolvi experimentar este Mapa Astral Natal, e é muito divertido:
Espírito mordaz, hostil, antipático e desconfiado. Forte personalidade. Ele é teimoso, autoritário. Tem muita confiança em si, sendo, por vezes, bastante arrogante. Ele é inteligente, mas muito gastador. Exagera em tudo. É orgulhoso. Sente-se muito superior aos outros. É uma pessoa presunçosa. Tem a imaginação e a percepção bastante aguçadas. É impressionável, a sua imaginação é, por vezes, excessiva. É místico, romântico, sensível e sentimental. A sua análise é boa. Gosta de muitas mudanças, tem grande conhecimento da vida, não só através das suas leituras como também através da sua própria experiência. Gosta do que é sensacional, das novidades. Age instintivamente, mas por sorte tem boa pontaria. Gosta de conviver com pessoas originais, com artistas. Gosta de tudo o que é novo, original, gosta de inovar, surpreender. Aprecia muito a sua independência e a sua liberdade de ação. É inventivo, tem sempre projetos novos, é individualista, idealista e humanitário. Contestatório, critica pelos motivos mais insignificantes, e é excêntrico. Ele exprime-se com facilidade. Nasceu para discursar. Os seus prazeres intelectuais são influenciados pelos seus sentimentos. É um apaixonado, um sensual. Gosta da beleza, das artes mas também de viagens. Dedica-se a qualquer causa que se ocupe de pessoas com dificuldades, que necessitem de reconforto e de cuidados. Adora ter debates sem fim com amigos que tenham ideias diferentes das suas. A discussão pode acabar em gritaria, indo, por vezes, até à violência oral. É uma pessoa muito enérgica, muito forte, que sabe enfrentar os maus tratos do destino. É uma pessoa excêntrica.
Acho sensacional dar minha data, hora e local de nascimento, e ganhar essa descrição absolutamente perfeita de quem sou! [ou não] ![]()
O Lutador
"O lutador" (The Wrestler, 2008) é um belíssimo filme. Não vou falar das atuações de Mickey Rourke ou de Marisa Tomei, deslumbrante; pois muitos já falaram a respeito. São outros os motivos que me fazem achar este filme melhor a cada vez que penso nele.
Mais do que a história clichê emotiva de um lutador decadente, o filme nos mostra, com rara sensibilidade em meio à violência, a dificuldade de lidar com o que há talvez de mais cruel em nossa existência: a passagem do tempo.

O entendimento de como essa questão se mostra no filme começa pelo nome do protagonista, Randy "The Ram" Robinson. "Ram" é substantivo [carneiro], mas também, e principalmente, é verbo [bater, golpear, entre outros significados]. Não temos apenas um apelido, mas uma ação que define quem é o protagonista e como ele se relaciona com o mundo. Randy é este verbo, ele não sabe ser qualquer outra coisa que não aquele que bate de frente com a vida, e esta ação o aprisiona. Fica claro que Randy não saberia e teme ser algo diferente, viver de outra forma. Este aspecto de aprisionamento e inadequação permeia todas as situações e cenários. Os planos, mesmo os mais fechados, são áridos e vazios. Compartilhamos com o personagem angústia e desolação, e a sensação é perturbadoramente claustrofóbica.
Perturbador também é perceber o descompasso entre ele e a stripper Cassidy, a única pessoa que parece significar para Randy uma possibilidade de mudança. Randy conjuga seu verbo, seu único verbo, sempre no pretérito [ele até acredita sinceramente que Guns n' Roses é uma grande banda, nada mais anos 80], enquanto a personagem de Marisa Tomei está voltada para um futuro, mesmo que idealizado. É um encontro impossível, e a consequência maior é a dor.
Randy busca a dor física e a mutilação como quem satisfaz a um vício. Há então o impulso auto-destrutivo e a fuga, afinal a dor física pode ser preferível frente às dores do mundo; mas vejo também uma busca por sentir-se vivo, uma maneira de preencher o vazio de uma vida que não é, já que está circunscrita ao passado.
Fico pensando que o protagonista teve diante de si duas opções: reinventar-se enquanto homem e encarar as dores e angústias da "vida real" [talvez envelhecer seja mesmo um contínuo processo de reinvenção], ou render-se ao "conforto" de uma identidade estática e cristalizada, ainda que isso signifique a mais completa solidão. Randy fez sua escolha e o filme terminou, e não cabe aqui nenhum juízo de valor sobre suas atitudes.
Saí do cinema angustiado, pois sei que todos nós, mais cedo ou mais tarde, estaremos diante das mesmas opções; e um pouco assustado, porque sei também que não importa qual seja a nossa escolha, sempre haverá um preço a pagar, sempre haverá uma cota de dor.
Adote um vira-lata
Sou extremamente simpático a campanhas como esta Adote um vira-lata. Recebi por e-mail o release com a proposta deles, e infelizmente demorei bastante tempo para escrever a respeito, mas a campanha não ficou menos urgente, então nunca é tarde.
Sinto admiração e gosto muito de cães, e bem menos de gatos, confesso, mas isso é questão de estilo e personalidade, não significa que eu os deteste. Ainda que eu não conheça um estudo psicológico mais aprofundado a respeito, o "gostar de animais" costuma ser um belo indicador de caráter. Algumas das piores pessoas que conheço detestam animais (e crianças também, mas isso fica para outro post). Há um raciocínio um tanto simples aí: a capacidade de alguém entender, respeitar e amar um animal, de estimação ou não, está diretamente relacionada à sua própria humanidade e capacidade de relacionar-se com o outro.

Resumindo, quem é capaz de maltratar um animal também é perfeitamente capaz de maltratar um ser humano. E há mais: animais de estimação são um belo receptáculo para projeções. Todo mundo já deve ter ouvido a frase "ah, cães não amam realmente seus donos, apenas trocam este afeto pela água e comida, é puro interesse". Pois é, esta pessoa está falando sobre ela mesma e seu egoísmo pragmático. Há quem zombe de quem gosta de animais, "você é trouxa por gostar tanto assim de um bicho". Bem, é muito provável que esta pessoa faça de "trouxa" aquele que gostar dela.
A minha resposta é que nós é que sempre fomos os "interesseiros" nessa história. Nem vou discutir aqui o salto evolutivo que foi a domesticação de animais, para a espécie humana. Não teríamos chegado onde chegamos sem os animais que aprendemos a criar para comer, mas também não sem os animais de estimação. Existem estudos a respeito. Mas, prefiro discutir este "amor" declarado pelos animais, que está tão na moda ultimamente. Há toda uma indústria de produtos não só para o cuidar dos animais, mas para alimentar o narcisismo de seus donos. Exposições, concursos, pedigree, compra e venda etc. É fato que se a reificação nos torna objetos, não poderia ser diferente com outros seres de nosso convívio. Quem compra um animal, ainda que diga estar comprando um amigo ou companheiro apenas, está comprando também um determinado status; um conjunto de características que vai emprestar do bicho. O rapaz inseguro a respeito de sua masculinidade, de seu papel enquanto homem, toma para si a virilidade do Pitt Bull que ele treina para ser um cão de briga; vive no cachorro a agressividade que a ele foi negada, mesmo que ao animal isso possa causar sofrimento. A senhora de meia idade que pinta um poodle de rosa para uma exposição está tomando para si, através do cão, uma atenção e toda uma admiração estética que já não é capaz de obter por si mesma. Enfim, os exemplos são muitos, e comprar um animal não é diferente de comprar um celular ou outro gadget qualquer. E, assim como os aparelhos, esses animais podem tornar-se descartáveis.
O problema é que o animal SENTE. Um cão não pode ser reciclado quando acaba sua bateria ou quando quebra seu visor de cristal líquido. O pior, ele não pode "refletir sua condição". Não há, óbvio, uma tomada de posição e um entendimento sobre ser abandonado. O que quero dizer é que um cão (para ficar neste exemplo) dá ao homem verdadeira devoção, mas muitas vezes apenas recebe maus-tratos e crueldade, sem ao menos entender o motivo disso. É estar condenado a depender da boa vontade alheia para sobreviver, sem entender minimamente o motivo de seu sofrimento. Para exemplificar, alguém já viu a expressão de puro pavor de um animalzinho que foge de adolescentes cruéis que tentam machucá-lo por diversão? Alguém já viveu a angústia de um medo que não pode ser nomeado? Pois é exatamente isso que um animal assim sente, diariamente.
Mês passado apareceu um filhote aqui em casa. Um vira-lata preto de barriga branca, de uns 2 meses de idade. Entrou em nossa garagem e o deixamos ficar. Pois o cão não se aproximava da gente nem para comer. Ficava escondido debaixo do carro, tremendo, e gritava de medo apenas por ser tocado. Foram dias até que aceitasse um carinho ou que viesse comer perto da gente. Podem imaginar o quanto este animal sofreu enquanto solto na rua? Com o tempo, já estava abanando o rabo e correndo atrás da bolinha, como os outros. Arrumamos um lar para ele, e sinceramente não foi nada fácil deixá-lo ir. Foi como despedir-se de alguém que já estava fazendo parte da família. Vamos visitá-lo de vez em quando, e ainda vejo nele um olhar de gratidão. Tudo bem, pode ser que eu esteja apenas projetando algo nele também, mas pelo menos sei que este cão está se sentindo seguro e amado...
Clique aqui para saber mais sobre a campanha. Vale divulgar, doar valores para pessoas e entidades que cuidam dos animais; ou mesmo adotar um bichinho, se você puder. A dica é: quando estiver interessado em um animal de estimação, pense bem em quais são seus verdadeiros motivos para tal, e pense em adotar antes de comprar!
UPDATE: Visite também os blogues de Curitiba: Cãopanheiro e Adote Amigos.
Tumblr
Um moleskine para rabiscar à vontade. Anotações soltas, ideias sem compromisso, fragmentos de diálogos, micro contos e lembretes que podem virar artigos ou histórias no futuro. A maneira mais fácil e rápida de publicar texto, vídeo, links, fotos, áudio e o que mais for. Este é meu mais novo brinquedo, o Tumblr. Nele vou jogando tudo o que me vem à cabeça, além de centralizar o conteúdo que crio em outros sites e serviços, este Hedonismos incluído. O blogue continua firme e forte, mas "minha casa" na internet é o Tumblr, um lugar para criar e compartilhar conteúdo por prazer apenas. A sensação é mais ou menos a de ter um blogue em 2003, uma delícia!
Visite: http://doni.tumblr.com/
Assine: http://feeds2.feedburner.com/Donimd
6 coisas secretas ou nem tanto sobre a minha vida
Há tempos eu não participava de um meme, mas este que pede para contar algumas coisas sobre mim, ainda que não seja novo, tem tido a participação de tanta gente interessante que resolvi topar o convite da amiga Lucia Malla e responder também. Lá vai:
O lustre. É uma lembrança vaga. Eu corria da sala para a cozinha já saboreando por antecipação o bolo que meu pai tinha comprado e minha mãe acabava de anunciar. De repente, a escuridão... O relato de meus pais é de que o lustre da sala caiu sobre mim. Fui para o hospital, banhado em sangue, no jeep do vizinho. Alguns pontos em cima da cabeça, uma cicatriz e uma área onde não cresce cabelo. Infelizmente, quando conto essa história todos pensam que sou apenas mais um futuro careca tentando justificar a calvície que não pode mais ser negada.
Escuro. Este sempre foi meu grande medo. Apenas nos últimos anos fui capaz de dormir num quarto sem qualquer luminosidade, e confesso ainda levantar correndo para acender a luz de vez em quando. Já aconteceu de amigos chegarem em casa e me encontrarem do lado de fora, na chuva, porque não havia energia elétrica em casa, sem falar no fato de que sempre durmo com a TV ligada em quartos de hotel, durante as viagens. Essa fobia era um problema bem maior na adolescência. Hoje, apesar de algumas recaídas, posso dizer que ela foi vencida, ou quase.
Basquete. No início dos anos 80 o basquete era o esporte oficial do bairro em que cresci. Eram jogos de alto nível, e me lembro especialmente de um porto-riquenho que dava fantásticas enterradas. Muito cedo, aos 12 anos, comecei a jogar com eles (eu já tinha mais de 1,70m nessa idade) e nunca mais fui o mesmo. Na quadra eu ganhei o respeito dos valentões que antes me aterrorizavam e o apelido de Vlad Divac, pivô dos Lakers numa época pré-Chicago Bulls, em que o time de LA dividia os títulos da NBA e o amor dos brasileiros fãs de basquete com o Boston Celtics e o Detroit Pistons. Mais tarde, foi meu passaporte para uma nova escola e a maneira de impressionar as garotas durante toda a adolescência e a faculdade. Ótimo arremesso, impulsão, acerto de 8/10 em lances livres, velocidade. Tenho orgulho do jogador que eu fui. O basquete me tornou confiante e abriu portas, influenciando totalmente o homem que me tornei. Até recentemente, quando os problemas pareciam ser muito maiores do que eu, corria para a quadra e ficava horas correndo, mesmo que sozinho. Era minha melhor maneira de lidar com a raiva e o stress, e sinto falta disso. Espero poder voltar a jogar logo.
Eu já segurei o riso com um revólver apontado para mim. Era fim de tarde e um grupo de 10 pessoas, eu incluído, jogava na quadra do bairro. Chegaram dois rapazes, armados, ordenando que todos os presentes levantassem a camiseta. A ameaça era de que aquele que estivesse armado levaria um tiro. Ninguém estava, e os dois foram se afastando em direção à saída (a quadra era cercada por telas, com um portão). O primeiro saiu e ficou do lado de fora, ainda apontando a arma para todos. O segundo caminhava de costas em direção ao portão e gritava mais ameaças. O problema é que ele caminhou na direção errada, e assim que se virou para sair deu de cara com a tela e caiu no chão. Nunca foi tão difícil para um grupo de pessoas segurar o riso. Havia o medo, mas a dor na barriga era com certeza pela vontade de rir absurdamente, mesmo correndo risco de vida. Os segundos que ele demorou para se levantar e sair rapidamente da quadra, sem olhar para trás (vergonha), foram os mais longos da minha vida. Apenas quando ambos estavam já longe da nossa vista começamos a rir descontroladamente. Infelizmente, não demorou e ouvimos um tiro distante. Corremos. Mais tarde ficamos sabendo que aqueles rapazes mataram alguém naquele dia. Coisas da periferia.
Yes. Minha primeira viagem sozinho para fora do estado de São Paulo foi para Santa Catarina. Embarquei no fim da noite e acordei na manhã seguinte, passando por Itapema, em direção à Florianópolis. O sol nascia e liguei o toca-fitas (sim, toca-fitas). A trilha sonora daquele momento era Yes, e sabe-se lá porquê, nunca me senti tão livre. Desde então sempre existe pelo menos um disco do Yes me acompanhando em todas as viagens. É uma das minhas muitas manias obsessivas.
Psicologia. O maior responsável por tudo, o homem que definitivamente me jogou nesta carreira, foi Hercule Poirot. Acreditem ou não.
Como boa parte dos meus amigos próximos já respondeu a este meme, não convidarei ninguém diretamente. Quem quiser participar, deixe comentário com o link, e eu acrescento aqui.
UPDATE: Participantes:
- A Fer Funchal em seu A Bear Ate My Parents.
Google Latitude
O novo Google Latitude foi o assunto do mundo conectado ontem. Boa parte dos artigos e comentários que li a respeito saudavam o serviço de forma entusiasmada, provavelmente por seu caráter inovador, algo tão estimulante para todo nerd que se preze. Trata-se de uma nova rede social que permite ao usuário verificar a localização das pessoas que segue, em tempo real. Pode ser através do desktop ou de aparelhos móveis, fazendo uso de tecnologia GPS e de triangulação celular. O "amigo" que é parte de sua rede torna-se um avatar locomovendo-se sobre um mapa, como mostra a imagem aí do lado.
É inovador, sem dúvida. Não é um prodígio do ponto de vista tecnológico, já que as tecnologias utilizadas não são exatamente novas, mas é ousado enquanto ideia, algo bem ao estilo do Google. Existem aplicações positivas para o Latitude, na prática? É provável que sim, mas deixarei que os entusiastas comentem isso. Eu, como bom chato que sou, devo contar que meu Sentido de Aranha gritou MONITORAMENTO assim que vi do que se tratava.

Em vários níveis, o Latitude é uma grave ameaça à privacidade. Parece ser o ponto alto deste processo marcado pela superexposição, onde o "conectar-se" é mais importante do que realmente interagir, mas antes de tudo é uma ferramenta de controle que faria o Grande Irmão vibrar de tanta excitação. Não vou fazer aqui um exercício de futurologia falando de regimes totalitários. Prefiro ficar com três exemplos simples de pessoas e/ou entidades que também estão vibrando: pais controladores, conjugues desconfiados e empregadores.

O argumento simplório diz que a ferramenta tem configurações de privacidade. O usuário pode definir quais amigos terão acesso total ou parcial à sua localização, bem como desligar o serviço quando quiser. Lindo, não é? Você continua exercendo sua liberdade; você tem total controle sobre sua vida. Bobagem!
Vamos imaginar uma empresa que por algum motivo x acredita que é de seu interesse monitorar seus funcionários fora de suas dependências, no caminho para o trabalho, por exemplo. Grave, certo? "Ah, mas existem leis trabalhistas que garantem que o empregador não pode controlar o que o funcionário faz fora de seu horário de trabalho". É verdade, mas os contratos que no fim das contas realmente importam nas relações de trabalho não são aqueles regidos pela CLT. Há um "contrato" não dito, mas subentendido na dinâmica das relações patrão x empregado, que há muito tempo superou questões como o tempo e o espaço, o dentro ou fora da empresa. Você já percebeu que aquele smartphone que o chefe te deu permite que ele te encontre mesmo quando você está de férias ou com sua namorada, e que ele sempre reclama quando você não atende? O "tudo bem, você está no seu direito de não usar essa ferramenta fantástica que vai agilizar a comunicação de nossa equipe" na verdade significa "ainda nesta semana vou substituir você por alguém que respeite nossos interesses, afinal está cheio de gente lá fora querendo sua vaga". A maioria dos funcionários é bastante sensível ao que está nas entrelinhas em casos assim, principalmente se tiver contas a pagar ou filhos para criar...
Falando em filhos, crianças e adolescentes são também vítimas potenciais do Latitude. Uma amiga disse ontem que este serviço é o sonho de toda mãe, e eu retruquei que era exatamente disso que eu tinha medo, ao que ela respondeu com o clássico "você não é mãe, você não sabe". Bem, nunca serei mãe mesmo [ainda bem], mas sempre fico arrepiado quando jogam isso na minha cara. O motivo é que algumas das piores atrocidades cometidas por pais, algumas das coisas mais prejudiciais e traumáticas, são justificadas com "você não é pai, você não entende". Não é um argumento válido, e eu bem sei o quanto o controle e a superproteção dos pais acaba resultando em adultos inseguros e dependentes. Eu até deveria estar feliz neste caso, já que o Latitude provavelmente vai me render novos pacientes no futuro, gente que vai precisar de muita terapia...
Mas deixando o humor de lado, a superproteção paterna é um problema grave desta geração, com filhos que são mantidos adolescentes tardios simplesmente porque não tiveram espaço para chegar á vida adulta. Não são poucos os casos que conheço de pessoas que tiveram a vida traçada pelos pais e nunca amadureceram. Oferecer uma ferramenta como o Latitude para esse tipo de pai [tão comum na classe média paulistana, por exemplo] é criar um futuro exército de trintonas colecionadoras de papéis de carta e de homens que viverão na casa dos pais até os 54 anos. Simplesmente desligar a ferramenta é uma opção que dará enorme dor de cabeça para os filhos: "você pode me dizer por que o Latitude do seu celular foi desligado assim que você saiu da aula hoje, mocinha?". O início de vidas sexuais saudáveis está seriamente ameaçado! A verdade é que por vezes não saber onde o filho está é parte indissociável do ofício da paternidade, e agir independentemente sem precisar ser monitorado é a prova de que este filho tornou-se responsável, e que a educação dada a ele foi efetiva. É uma questão de respeito ao indivíduo.
Citei também os casais que vivem crises de confiança [quase 80% deles, ou mais]. Desligar o serviço por um período alimenta no conjugue paranoico as mesmas desconfianças do pai "preocupado" do parágrafo anterior, gerando o mesmo tipo de dor de cabeça para qualquer um que queira a privacidade respeitada por um período de tempo. Isso sem falar em diálogos cômicos do tipo "o Sr. pode me explicar por que o Latitude te mostrou durante 4 horas na Rodovia Raposo Tavares hoje?".
O que quero mostrar é que o uso desta ferramenta envolve variáveis complexas, que vão muito além de configurações simples de privacidade. Existem implicações sociais, questões de segurança e mesmo uma discussão bem vinda que renasce, sobre o volume de informações que o Google coleta sobre os usuários de seus serviços. Pouco vi desta crítica nos comentários a respeito do tal Latitude, uma ferramenta perigosa, para dizer o mínimo.
Fico pensando, por exemplo, na deliciosa dança da sedução. Ir descobrindo aos poucos quem é o outro, do que ele gosta, o que faz, o que é importante para ele etc. Hoje, basta uma olhada rápida em perfis de redes sociais. Com o Latitude, perdemos também aquele gostoso "o que será que fulana está fazendo, onde ela está agora?" que ocupa o pensamento dos apaixonados. É, essa vidinha conectada está ficando bem sem graça...
Fernanda

"And yesterday I saw you standing by the river..."
That's The Way nunca foi uma música feliz, nem está entre as minhas preferidas do Led Zeppelin, mas ela me acompanha. Em momentos assim me esqueço do barulho insuportável e do cheiro de cigarro do escritório, das buzinas dos carros lá embaixo, da chuva e do vento que querem quebrar a janela; fecho os olhos e estou na fazenda de novo, sempre os mesmos acordes. Lembro-me que, quando criança, adorava ir para a casa de meus avós. Era solitário, mas eu tinha todo aquele mundo a explorar. As matas, as jabuticabas e mangas sempre tão doces, o rio. Nada era mais gostoso que subir numa árvore qualquer e ver o sol cair na água no fim da tarde, e adormecer esperando minha avó me chamar para o jantar.
Mas cresci rápido e me tornei um rapaz da cidade. As coisas da fazenda deram lugar ao curso de economia em São Paulo e ao movimento estudantil. Eram tempos difíceis, as pessoas começaram a desaparecer ou fugir; alguns dos meus amigos nunca mais vi. Meu pai achou que era hora de voltar para a fazenda, como nos tempos de infância, pois ele sabia que cedo ou tarde iriam me procurar.
Voltei, e o ar puro queimava meus pulmões. Eu estava enlouquecendo ali, longe de tudo e de todos, longe dos meus amigos, dos meus ideais e da minha luta. Até que um dia estava caminhando até o rio e encontrei você. Não esqueço a primeira vez que vi sua pele queimada de sol e seus cabelos longos. Você andava calmamente com sua toalha em direção ao rio e eu ali, embasbacado. Até que você me olhou, sorriu, e disse, como se já me conhecesse: "vamos nadar?".
Naquele dia você me fez entrar na água também. Eu, que era sempre tão fechado, poderia passar a vida ali conversando com você e te vendo nadar. E como éramos diferentes... Eu só pensava em luta armada e democracia - sim, eu achava de verdade que uma coisa levaria à outra - e você vivia em outro mundo... Me fez vez que o tropicalismo não era tão alienado assim, e que o Tom Zé até era legal. Fui dormir naquela noite e em todas as noites da minha estada na fazenda com o nome da nova vizinha de minha avó na cabeça: Fernanda.
E o rio. No dia em que eu estava mais tenso você segurou minha mão e olhou para a água sorrindo.
- Sabia que este rio não é o mesmo em que nadamos ontem, e que na verdade ele nem é o mesmo de um segundo atrás?
E eu percebi que estava apaixonado. Nunca me lembro do nome do filósofo que você citou, mas mudei completamente minha maneira de olhar para o rio. E para a vida.
E esta canção me faz pensar em você. Não, não é porque That's The Way tocava naquele gravador enorme enquanto nos beijávamos pela primeira vez. Na verdade o nosso curto romance teve uma trilha sonora muito mais rica para momentos felizes. Penso sempre em você porque, como na música, um dia te vi chorando na beira do rio. Acho que foi o único momento naqueles meses todos em que não te vi sorrindo... Eu tinha acabado de contar que teria que viajar para me manter vivo, que precisaria embarcar para a França ainda naquela noite.
Quando eu voltei, anos depois, não te encontrei mais na fazenda e não consegui te achar. Soube que havia saído para ver o mundo... E queria te dizer tanta coisa além daquele meu "desculpe, mas é assim que as coisas têm que ser"! Será que você ainda usa flores no cabelo?
* este texto é parte do meu livro Meias Vermelhas & Histórias Inteiras.













