Sadismo e varejo
Ainda não estudei a fundo a Psicologia Institucional, mas estava hoje fazendo algumas reflexões, e achei que era por bem escrevê-las aqui. Instituições têm personalidade. A Universidade à qual estou vinculado, por exemplo, é neurótica obsessiva. Aliás, o interessante é que ela acaba por atrair alunos e professores com este "perfil". Hospitais psiquiátricos podem ser psicóticos (coisa que não acontece com o hospital em que trabalho, é claro), e assim por diante...
Hoje eu pensava sobre as grandes lojas populares de varejo do Brasil, e saquei que elas são sádicas. É engraçado porque nosso país é pródigo em pessoas que reclamam do capitalismo. Temos movimentos sociais a rodo, todos pregando em nome da foice e do martelo. Mas, a gente nem sabe o que é viver num país capitalista de verdade! O capitalismo-arte, o capitalismo-moleque, o capitalismo de amor ao lucro não existe por essas bandas. Se existisse, o consumidor-cliente seria encarado de forma muito mais soberana do que é. Mas aqui a questão é diferente, e se trata de controle.
A loja tem o poder, é dona da "falta" do cliente. Ela tem o produto. Como todo bom sádico, ela joga com este poder. Ao cliente é oferecido o privilégio de comprar ali, mas se e somente se a loja o considerar digno do crediário. A desculpa é compreensível num primeiro momento: a inadimplência. Mas, será mesmo que os riscos do não pagamento justificam o atual estado de coisas? Não se deixem enganar, o que está em jogo é a dominação. E a coisa beira absurdos: outro dia comprei um celular numa conhecida rede varejista que tem o nome inspirado num estado do nordeste, mas ao chegar em casa descobri que o aparelho tinha um sério defeito. Ao voltar até a loja e pedir meu dinheiro de volta a atendente simplesmente disse que o regulamento da loja não permitia. Ao pedir para falar com o gerente, ela disse que ele estava em reunião, sem previsão de terminar. Só fui atendido em meu desejo quando disse que esperaria o gerente nem que tivesse que ficar ali até morrer [coisa que anda acontecendo, não?]. Outro caso é de uma amiga, autônoma, que não foi bem orientada e tentou comprar um computador em outra dessas lojas com nomes que remetem ao nordeste. Apesar de até ganhar bem, ela não tinha dinheiro para comprar à vista naquele momento. Acreditam que a loja pediu um "fiador"? É um computador, não um apartamento!
São apenas dois exemplos de uma situação absurda e nonsense que está se repetindo, neste exato momento, por todo o país. Pessoas estão sendo humilhadas, submetendo-se ao desrespeito do outro, para obter o "direito de comprar". O engraçado é que o atendente sem educação e abusador só difere do pobre coitado que quer comprar pela posição em relação ao balcão de vendas, e isso é bem cruel.
Só seremos uma economia desenvolvida de verdade quando o cliente tiver o papel que é dele. A loja deve brigar para obter a compra, deve primar pelo suporte e assistência pré e pós venda. Enquanto houver essa luta em que o cidadão deve se mostrar digno de fazer uma compra, seremos apenas ridículos. E, apesar de não ser o caso de discutir isso neste post, esse estado de coisas é sintoma de toda nossa organização social (que é doente).
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/27869 Posts similares:
Capitalismo x planeta
PARA NOAM CHOMSKY, SÓ HÁ CAPITALISMO NOS PAÍSES SUBDESENVOLVIDOS
É consumismo, é obrigação, é capitalismo, mas é ótimo.
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários, Trackbacks:
R: Cada cliente humilhado de alguma forma, existem estudos a respeito, acaba fazendo o estabelecimento perder um mínimo de 8 novas vendas. Fico pensando em termos globais, se você não supõe que seu cliente seja um devedor logo de cara, irá realizar mais vendas. Um volume maior de vendas pode superar eventuais perdas com a inadimplência, afinal as %s de inadimplentes estão mais ligadas a condições gerais da economia do que a táticas do varejo para evitá-las. Resumindo, o devedor normalmente será devedor, não importa a situação. Enquanto isso, gente que paga, ou que quer uma oportunidade de pagar, é penalizada.
Agora merecia um post só pra isso: "A Universidade à qual estou vinculado, por exemplo, é neurótica obsessiva." hahaha
Bjs
R: esse post será escrito só quando eu estiver fora dela hahaha
R: é fato que uma loja com estrutura menor talvez não tenha como lidar com a inadimplência. Talvez o "hábito" picareta deva ser coibido com legislação mais rígida, uma regulamentação, sei lá, é uma questão para se pensar. Mas o consumidor não pode ser obrigado a apresentar dados até íntimos além da conta para conseguir o tal do crediário.
pediram a minha declaração de Imposto de Renda para comprar um chip de celular pré-pago.
Declaração de IR, num negócio que se eu não colocar mais grana, eles param de prestar o serviço? Fala sério...
Só consegui o chip quando ameacei chamar o procon. Definitivamente, o capitalismo não chegou no Brasil.
R: é exatamente deste tipo de abuso que estou falando!!! E aposto que você também percebeu um certo prazer na expressão do atendente ao dizer "mas moça, a regra é essa..."
Portanto, esta atitude de venda não se justifica tão racionalmente assim, não entre as pessoas do vendedor e do consumidor. Temos que fazer esta associação pensando numa relação indireta: pontos mais altos da hierarquia empresarial x consumidor final. E estes 2 entes, grande parte das vezes, nunca se cruza. Afinal, são muitas as reuniões necessárias para definir como fazer o cliente-consumidor pensar que a culpa é do atendente-vendedor.
Valeu!
R: é um bom complemento! Na verdade, a relação de poder neste caso se dá mesmo não entre pessoas necessariamente, mas entre posições ocupadas num determinado momento. Não é o fulano que é atendente, mas o fulano ENQUANTO atendente quem age desta forma. Aliás, o humilhado aqui pode ser quem humilha lá. Hierarquia, como você mesmo diz, é a palavra aqui.
Quanto a sermos um país com "movimentos sociais a rodo", eu discordo. Luta de classes organizada e relevante, de fato, acho que só com o MST. Há tempos o sindicalismo já não tem mais a força de outrora.
R: Ainda não assisti a "The Corporation", infelizmente. Sou abrigado a discordar sobre a relevância do MST. Eu deveria ter colocado, se não coloquei, "movimentos sociais" assim, entre aspas, pq não os acho relevantes quase que na totalidade. Um enfoque ideológico ultrapassado e totalitário, gente que grita por democracia mas elogia Cuba, enfim... Assunto para novos posts hehehe
R: A ameaça de ir ao Procon ou ao Bacen é um clássico, e até ameaçar com a Anatel no caso das operadoras costuma ajudar. Engraçado como temos uma visão parecida sobre essas questões. Quem diria que a FEA deixa marcas assim, não? hehehe
Hahahaha!
Só isso já me valeu o post. Depois de passar inúmeros anos nela (quase três anos num curso + dois em outro + o que acompanhei da faculdade do meu irmão entre 1995 e 2000), sei que esta definição é perfeita. =P
Sobre o post em si, não é incomum pra mim passar por situações parecidas e igualmente humilhantes. E também pediram fiador dias atrás, quando fui me informar sobre as condições em uma loja para comprar um notebook (e dos modelos mais simples, custava menos de 2 mil reais). Me senti como se estivesse prestes a comprar uma casa mesmo. Bizarro.
R: fiador para imóveis já é complicado, ainda que compreensível. Mas para bens de consumo não duráveis... Fiador de cu é rola!
O comércio é sádico! Mas a situação econômica da maiora dos brasileiros que é deplorável!
Rê
Parece que estão fazendo um favor te vendendo algo!! Um absurdo!!
Nessa luta de operadoras de celulares por exemplo, fiquei HORAS para conseguir um chip, desbloquear o aparelho etc. E realmente parecia que estavam me fazendo UM FAVOR de fazer aquilo pra mim. É estranho mermo!
R: Bota estranho nisso...
R: O problema é que tá cheio de consumidor que gosta de ser gato e sapato hehehe
Sinto como se nós, povo brasileiro, estivessemos fadados a engolir todo tipo abuso e a reclamar em vão.
Revolto-me simplesmente por ouvir tanta gente protestar e não fazer nada. Algo deveras paradoxal, uma vez que também estou protestando sem tomar providências.
Simpatizo com a sua situação, mas me atenho de protestar diante de tamanha sensação de incapacidade de resolver os problemas da nossa sociedade.
Resultado, ganhamos menos, pagamos mais caro e temos um tratamento pior.
Resumo, não temos preparo para viver numa democracia capitalista de forma a garantir os direitos como deveria, apenas manipulamos a massa.
R: hehehe essa é velha. A lorota de brincar com a percepção do cliente sobre o preço e ainda levar um centavo que faz a diferença em produtos vendidos em escala.
Deixe seu comentário:












