Batman - O Cavaleiro das Trevas
Existe uma questão que é a grande dificuldade, a maior de todas, quando se faz uma adaptação qualquer de uma mídia para outra: como criar uma obra nova, palatável tanto para o público novo quanto para os antigos fãs? Se existe todo um jogo de completude e antagonismos entre forma e conteúdo em qualquer obra artística, como “recriar” um universo em novo formato, mantendo características da obra original?
Em Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), Christopher Nolan optou por um caminho interessante para chegar a essa resposta. Mais do que homenagear as grandes histórias do personagem com algumas referências, ele criou seu roteiro a partir delas. “O Cavaleiro das Trevas” é um amalgama das histórias que definiram Batman nos últimos trinta anos, com foco acentuado em “A Piada Mortal”, de Alan Moore. Arrisco dizer que o filme é uma versão de “A Piada Mortal” onde o plano original do Coringa dá certo [e isso não foi spoiler, porque eu te garanto que você não vai descobrir o plano do Coringa antes da hora].
O resultado, desta transposição especificamente, é sensacional. A boa adaptação não está na fidelidade do roteiro aos originais, na recriação de fatos, mas sim de uma atmosfera, de uma essência. Só no primeiro Superman (1978) vi algo assim. Enquanto o roteiro de Mario Puzo nos deu um Super-Homem definitivo e nos fez acreditar que um homem podia voar, a despeito dos péssimos efeitos da época, Nolan nos apresentou Batman e seu universo naquilo que ele pode ter de mais doentio, caótico e perturbador. Assistir ao filme é incômodo e desconfortável, absurdamente tenso, e isso é delicioso para quem é fã. O segredo está no Coringa (e não falo apenas da atuação de Heath Ledger, mas de tudo o que envolve o personagem neste filme) e no roteiro muito bom. Mais do que um filme, “O Cavaleiro das Trevas” é uma excelente Graphic Novel com quase todos os elementos da mitologia de Gotham City, numa história bem amarrada e cheia de surpresas.
Infelizmente, existem coisas que me incomodam muito. A forçada mensagem padrão de Hollywood, de que devemos ter esperança e confiar nas escolhas do cidadão comum, me irrita profundamente. Já estudei psicologia demais para acreditar nas escolhas do “cidadão comum”, e confesso que talvez esta seja uma falha mais minha que da história, não sei. Há também um didatismo exagerado e constrangedor quando aparece. Existem cenas que ficariam perfeitas se houvesse o silêncio, mas o que ganhamos é um discurso chato e desnecessário, como que para explicar motivações que ficariam melhores se implícitas nas ações.
Mas o maior problema está no fato de que eu não reconheço o Batman ídolo da minha adolescência neste Christian Bale vestido de Robocop. Ainda não conseguiram caracterizar bem o Batman nos cinemas, apesar de já existir um modelo a ser seguido.
Noves fora, já que é para dar um veredicto pró ou contra o hype, Batman – O Cavaleiro das Trevas é sim o melhor filme do ano, de longe, mas por detalhes (que para mim são bem importantes) não é a obra-prima que poderia ser. Claro que um 8 ou 8,5 não é uma nota ruim...
UPDATE: O cabra Rafael Galvão escreveu o ótimo O Cavaleiro das Trevas assusta novamente, e também detesta o ridículo uniforme do Morcego.
Para saber de onde o filme veio, leia:
- A Piada Mortal (The Killing Joke) : Alan Moore e Brian Bolland (1988)
- O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns) : Frank Miller (1986)
- Batman - Ano Um (Batman - Year One) : Frank Miller e David Mazzucchelli (1987)
- O Olho de quem vê (The Eye of the Beholder: Two-Face) : Andrew Helfer e Chris Sprouse (1990) [em Batman Anual #2, Editora Abril Jovem, 1992]
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Bale e o Bátima!
Mais Bátima!!!
O efeito Coringa!
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Acho a imagem do Bale parecida com a imagem do Wayne. O problema é ser um ator ruinzinho, e o filme parece querer compensar isso com as outras atuações. E que coringa massa!
R: O Coringa definitivo! Sobre o Bale, eu até gosto dele como Bruce Wayne. O que me irrita é o Batman usando uma armadura. A figura do Batman não tem força em cena. Você não pensa "caramba, agora vai aparecer o Batman".
Agora, já viu Wall-E? Ah, pra mim, esse é o melhor filme do ano!!
R: se o robôzinho for capaz de vencer o Coringa, concordarei contigo! rs
E eu gostei do filme, achei ótimo! Mas ainda gosto mais do primeiro Batman do Michael Keaton. Pronto, me crucifiquem.
R: isso foi só para ser "do contra" rs
Principalmente porque eu não gosto do Bale. Spoiler abaixo, noobs. (Se der pra colocar a fonte branca aí, Doni, melhor.)
[SPOILER]
Achei a morte de Dent tão insignificante quanto a de Venom em HA3, na boa. E o melhor: SE LIVRARAM DO CARA ERRADO! Owned.
[/SPOILER]
O filme foi bom, mas wall-e é o melhor do ano e Iron Man é o melhor de super heróis. O Procurado é o filme que todo fã xiita de Matrix como eu esperou esse tempo todo pra ver, então também promete. E Hellboy vai chutar até a SUA bunda, véi.
Não sou Marvete, essa é só a minha opinião. Xiitas, queiram ter o desprazer de conhecer o Fabião bêbado.
R: Eu acho Iron Man sensacional, mas realmente não acho que seja o melhor de heróis. Talvez seja por eu ser "dcnauta" hehehe
R: seria muito mais "assustador" do que esta fantasia robótica hehehe Robô por robô eu prefiro Wall-E.
infelizmente o filme é destinado a todo o tipo de público no mundo, então eles têm que lançar mão desse "didatismo" (também acrescento o "infelizmente")
R: Concordo contigo... A idéia geral é de que precisa ser didático para atingir todos os públicos. Já eu acho que isso SEMPRE é menosprezar quem assiste.
Pelo menos em parte.
Eu vejo em Christian Bale o Batman com o qual cresci. Compro e coleciono Batman há muito anos, e o ator consegue encarnar a dualidade de bruce wayne de forma magistral, em ambos os filmes dirigidos por Nolan. Batman de colant não eras... e o Batman velho, inteligente, perspicaz e frio que Miller imortalizou nas páginas do Dark Knight original parece se revelar a cada minuto do filme. O fato da roupa ser altamente tecnológica só denota ainda mais a aproximação da realidade que tantos quadrinistas tentaram ao longo dos anos. Nos quadrinhos geralmente sua roupa parece um collant mas é na verdade muito mais que isso, e convenhamos, a própria história da roupa (lá no batman begins) já leva o herói a um nivel de realidade jamais antes visto em termos de super-heróis de collant. Aquela história do Peter Parker ter ele mesmo feito aquela roupa ultra-transada é que não desce na minha garganta. E este é o primeiro Batman, o que Nolan magistralmente criou em Begins e Dark Knight, que não parece um milionário entediado que resolve, de repente, combater o crime. Ele parece o Batman de que me lembro, que antes de tudo quer proteger as pessoas, que se recusa a matar e que sempre acaba numa história didática e moralista sobre ajudar as pessoas no matter what.
Penso que se essa parte hollywoodiana e, admito, babaca, do filme não te desceu é porque faltou ler anos de DC Comics.
R: Pedro,
Eu leio DC (e Batman) desde 1986. Sendo que tenho boa parte do material clássico anterior a essa época também. Tenho até uma tatuagem do morcego no braço esquerdo (e não é brincadeira). Entendo seu ponto de vista sobre Bale, apesar de discordar. Agora, sobre a parte hollywoodiana, simplesmente não é bom cinema para mim, independente de quantos quadrinhos eu tenha lido. =)
Só muito depois do crepúsculo desses heróis é que foram aparecer heróis e versões desses mesmos heróis menos moralistas e menos voltadas para uma educação moral e social. Eu tenho um livro que é um encontro entre Miller e Eisner no qual mais de um capítulo é dedicado ao fato de que esse moralismo de buteco é, na verdade, muito peculiar, necessário e premente nos quadrinhos. Até os clássicos do Eisner, como Spirit, são assim. Cheios de lições de moral e didática social. Como tu, também desprezo profundamente esse tipo de "ferramenta narrativa" e não acho que faça boas histórias em quadrinhos e muito menos bom cinema. Como foi dito em outro comentário, "Já eu acho que isso SEMPRE é menosprezar quem assiste". E com isso eu concordo, porém vejo que se o filme não tivesse isso seria deficitário, já que esse aspecto é importantíssimo nos quadrinhos, desenhos animados e mesmo em filmes anteriores do cavaleiro negro (detesto o "das trevas", não é the knight from the shadows ou from the shades ou from the dark... é dark knight, cavaleiro negro, como o conhecidíssimo personagem medieval).
Eu, como um pouco mais jovem que tu (na verdade muito mais, em 86 em tinha 4 anos), também retro-colecionei muita coisa, principalmente Marvel, pq a DC e seus heróis de collant nunca me desceram além do Batman. Mas a premência e continuidade massiva do moralismo e da didática social nos quadrinhos fez com que eu me distanciasse cada vez mais deles, inclusive deixando há alguns anos de dar meu suado dinheirinho pra editoras imbecis que publicam as histórias de maneira falha e idiótica (além de super caras). Até tentei os tais mangás, porém encontrei esses aspectos moralistas e didático em ainda mais abundância. "Ai, tenho que ajudar meu amiguinhos ou jamais serei forte o bastante", sabe?
Minha única crítica em relação ao teu comentário sobre o filme é que collant não dá. Jamais, no mundo material e real, um milionário que se predispusesse a combater o crime iria enfrentar thugs vestido que nem bailarina. Obviamente ele compraria ou produziria uma espécie de armadura (aos moldes da usada por Batman pra enfrentar o SuperHomem no Dark Knight original) resistente e maleável. Penso que a busca do Nolan por coisas reais (a roupa, o carro, a moto, o tecido da capa são todas muito materiais, existem de verdade) é o que faz dessa seqüência de filmes (o terceiro já foi pré-confirmado e um possível Melhores do Mundo já até saiu da gaveta) a melhor adaptação do Batman desde as Grapphic Novels dos anos 80 e início dos 90. Vamos combinar que naquele Batman Dead End, quando ele pula do prédio, certamente quebraria as duas pernas se usasse só aquele paninho de borracha.
Minha percepção sobre o Batman sempre foi que sua inteligência, teimosia e convicção andam de mãos dadas com a tecnologia.
R: tudo o que vc falou em termos de quadrinhos é verdade. Mas não funcionou, para mim, enquanto cinema. Outra mídia requer e necessita de outras maneiras de apresentar a questão. Nada contra o moralismo em si, mas contra a maneira "didática" de mostrá-lo. Se nos quadrinhos você PRECISA que motivações e ações sejam explicadas (sejam em diálogos ou balõezinhos de pensamento), no cinema você só precisaria mostrar. O discurso explicativo cansa e retira do expectador a possibilidade de refletir ele mesmo sobre o que vê. Realmente piora o filme, e muito. Sobre a roupa do Morcego, eu realmente detesto a armadura, e minha visão de Batman é aquela de Dead End mesmo =) Nolan conseguiu sim uma grande adaptação (Batman é melhor que Iron Man, por exemplo, que já era ótimo), mas não fez uma obra-prima.
Penso ambos os filmes do Nolan como obras-primas...
Peguemos o Homem de Ferro do teu exemplo.
http://www.coverbrowser.com/image/iron-man/192-1.jpg
Veja essa imagem. Os braços e coxas do IronMan são claramente um nu pintando, o famoso collant. Técnica desenvolvida por Kirby, Lee entre tantos outros nos anos 60 para facilitar a produção das histórias ("Roupas são dificeis demais de desenhar"). E obviamente não são collant, são armadura. Entretanto, nas versões mais modernas e no filme estas partes são cobertas por armadura de fato. Jamais, nem nos quadrinhos nem na realidade física um bilionário enfrentaria bandidos de pijama. De nenhuma forma a roupa que ele usa nos quadrinhos pode ser somente uma roupa lisa e fina, aos moldes daquele pijama do Batman Dead End. E não penso de forma alguma a roupa como armadura, ela é uma roupa de tropa de choque. Uma proteção de kevlar como o próprio filme explica. Pensa bem: vou ter um carro super-mega-moderno, vários equipamentos ultra-mega-modernos e vou vestir uma camiseta? Não, vou vestir uma espécie de tecido a prova de balas, no mínimo...
E concordo contigo, moralismo didático no cinema sucks...
R: meu amigo, eu não quero ver realidade no cinema. Fosse a realidade uma questão, eu não me interessaria pela história de um cara que perde os pais e veste uma roupa de morcego, ou de um ricão que precisa de uma armadura para não morrer do coração. Meus heróis são fantasia, e eles usam pijama e cueca sobre a calça! Veja o post do Rafael Galvão que cito no texto, ele fala bem sobre isso.
O que importa mesmo para mim é que os quadrinhos são hoje a maior matéria prima para Hollywood.
Bons ou ruins, é bom ver filmes de super-heróis sendo feitos às dezenas.
Quando começamos a ler quadrinhos na década de 80 a gente nem sonhava em ver um filme do Batman ou do Homem de Ferro, não é?
E ainda foram os filmes que salvaram a falência da Marvel, por exemplo. E tem gente que ainda reclama dos filme!
Minha esperança é que algum modo isso estimule as pessoas a procurarem os originais, ou seja, os Quadrinhos.
Abs!
T§
de repente sejamos de épocas diferentes. Tu, do tempo do cuecão, e eu do tempo do Sin City.
R: não me senti muito feliz sendo do tempo do cuecão, mas talvez você esteja certo hehehe Na verdade, ocorreu algo interessante comigo. Adolescente eu era grande fã do Batman, o maior que existia. Hoje gosto mais do Superman.

R: obrigado!
Acho que perto da atuação do Heath , o Christian ficou pequeno, mesmo assim, para mim, o melhor filme do Batman.
E esse sentimentalismo, consta tb nos quaadrinhos, apesar de ser um baita pé no saco mesmo.
Nunca vamos ficar satisfeitos com filmes de nossos super-herois favoritos.
Imagine vc a minha decepção com Spawn... hehehe
O melhor filme do ano, sem dúvida...
Bale é uma das melhores revelações dos últimos anos no cinema, nunca assisti um único filme seu em que sua atuação fosse criticada como ruim.
O que acontece é que neste filme, como poucos, o vilão tem mais espaço que o próprio herói. Isso acontece simplesmente por que desconhecemos o Coringa (sua origem, seu nome, sua idade, seu rumo, simplesmente tudo), enquanto que com o Batman estamos sempre sabendo de seus passos, ele é previsível em muitos momentos, já que ele age dentro das regras do jogo.
Outra coisa que discordo de alguns comentários é a roupa. Seja um colante, uma armadura de ferro ou uma armadura de kevlar com titânio, não podemos esquecer que estes são filmes de super-herois e não filmes do estilo "Duro de Matar", "Máquina mortifera" ou algo do tipo.
Super-herois não saem por ae de jaqueta e calça jeans.
No mais, o filme será imbatível este ano. O melhor Batman de todos. Intenso do início ao fim.
R: sabe que a voz não me incomoda? Quando eu era criança (e o mundo era preto e branco haha) li uma história que explicava como o Batman fazia a voz dele, então não estranhei quando levaram isso para o cinema. Infelizmente, o Bale é que é ruim e não saberia fazer mto diferente do que fez hehehe
Não vejo mal nenhum no fator moral dos personagens além do Coringa, pois se trata dos seres humanos sendo no filme retratados. Eu sigo uma determinada moral para atingir um objetivo; e você, autor, e todos que aqui condenaram essa faceta do filme, seguem uma ou não seguem? Ou são tresloucados e agem insanamente, qual o Coringa? Creio que não; portanto, o filme não comenteu erro nenhum nessa abordagem e, para mim, é, sim, uma OBRA-PRIMA, que foi inspirada nas histórias em quadrinhos do Batman, mas foi ALÉM destas mesmas histórias.
Esta é a minha opinião e respeito todas as outras. Mas, não concordo com muitas coisas do que li no post e nos comentários.
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