Tina Oiticica Harris
"Você tem uns trinta e tal e eu faço 56 dia 9 de julho agora, quarta-feira, não precisa mandar cartão. ;P)".
Este trecho é parte do último comentário da Tina aqui no Hedonismos. Poucas horas depois ela morreu, dois dias antes do aniversário, e este blog perdeu sua mais assídua comentarista, e provavelmente ela era a mais freqüente comentarista de muitos outros blogs por aí. Uma pessoa "difícil, treteira e maluca", como bem disse a Lu, figura excêntrica e polêmica, que despertava amor e ódio.
Eu mesmo levei tempo para respeitá-la, um processo difícil que acabou contribuindo bastante para meu amadurecimento, até do pondo de vista profissional. Como não poderia deixar de ser, eu e Tina tivemos nosso entreveiro. Um dia, ao fazer a resenha de um livro, expliquei resumidamente a relação entre o anal e o sadismo para a psicanálise, e despertei a fúria debatedora de nossa amiga, que apesar de anos de análise detestava a psicanálise, e começou comigo uma troca de e-mails por vezes ríspida, para dizer o mínimo, que me tirou do sério. Quando eu mandei uma mensagem dizendo "olha, não vou mais discutir com você. Psicanálise é o que estudo e acredito, e se estiver errado nisso eu sofrerei as conseqüências" ela respondeu "Kiefer Sutherland não é fantástico?" ou algo assim. Louca? Pode ser, mas sem entrar no mérito do patológico, no mínimo alguém que tinha um jeito próprio de pensar e se expressar, bem diferente da média (o que é sempre bom).
Quando minha raiva passou (o episódio foi desgastante), passei a ter um outro olhar sobre a Tina, e para tanto tive que rever alguns conceitos sobre mim mesmo. Não sei até onde isso aparece em meus textos, mas sou o típico "treteiro" também. Chega a ser piada entre meus amigos mais próximos minha maneira de me expressar em determinadas situações e o quanto não largo uma polêmica; ou a intensidade de minhas reações quando me sinto injustiçado (há um clássico episódio em um restaurante que nunca perdem a oportunidade de comentar). Mas aí você está se preparando para exercer uma profissão que demanda mais do que estar sempre certo; que necessita um olhar mais apurado para o outro, e pensa: qual é o objetivo de provar que estou certo? E melhor: como ganhar de alguém que cita o Jack Bauer ao fim de uma discussão acalorada sobre Freud?
Mas meu grande insight foi maior do que "não adianta discutir com ela". O legal foi perceber que tinha que existir algo de muito interessante em alguém capaz deste discurso. Eu, que sou fascinado pela relação do discurso com a constituição subjetiva do sujeito (prometo que a psicologia termina aqui), tinha muito a aprender com a Tina. Após a reaproximação tímida, pude encontrar uma pessoa incrivelmente complexa, rica de experiências, de vida, de história, de sentimentos, e com MUITO a ensinar, muito a doar para as pessoas de quem ela gostava. Havia sim muito a admirar nesta senhora, e nisso concordo completamente com o Marmota (quantas conversas não tivemos sobre ela?).
Eu até entendo pessoas que viveram dificuldades maiores com ela. Entendo as reações do Kid e do Marcus, por exemplo. Mas fica uma reflexão: e pessoas que simplesmente não tiveram NADA com ela e mesmo assim foram capazes de tripudiar da sua morte? A blogosfera deu para a Tina a oportunidade de uma vida interessante e diferente, nova, que a absorveu. Pessoas próximas comentam o quanto os blogs a faziam feliz, talvez uma força para enfrentar uma série de dificuldades que não preciso comentar aqui. Talvez as freqüentes discussões fossem até uma forma da ex-militante do movimento estudantil Libelu dizer "ei, estou aqui, viva!". Quem sabe? Uma maneira de delimitar-se, de ter um espaço... Ao mesmo tempo, a pessoa que precisa chocar, que precisa fazer piada a despeito da dor de familiares e amigos, talvez seja motivada pela mesma necessidade de ser reconhecida. No fundo, raramente deixamos de ser as crianças que fazem birra e bagunça para chamar a atenção dos pais, para dizer "eu existo". O problema está naquelas crianças mais chatas, que não sabem quando parar e acham que estão fazendo grande sucesso.
E mais: discussões sobre o caráter da Tina. Pessoas que nem a conheciam sentenciando o ter ou não ter caráter de alguém que não pode mais se defender, do alto da mais pura arrogância. Fácil, não? Andam procurando deixar o conceito de ética o mais elástico possível, quando convém, mas na hora de apontar o dedo para alguém que se foi e dizer "sem caráter", agem como paladinos da justiça. Interessante também como o termo "véia" foi usado de ontem para hoje, como se a idade fosse parâmetro para o julgamento moral de uma pessoa. "Era só uma velha".
Muitos criticam a inclusão digital porque ela dá voz aos pobres, de pouca educação formal. Já eu fico triste é quando vejo que a liberdade toda que temos hoje, ainda que ameaçada, dá voz aos idiotas. Pelo menos existe um lado bom, já que em momentos assim fica muito mais fácil identificar esses idiotas, e isso é sempre útil.
E Tina, descanse.
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R: Obrigado, Ricardo, se é que era pra mim. rs
Mas pelo jeito ela tava ai pra "perturbar", o que também é bom, e nos faz pensar não é?
Mas também acho engraçado, essas pessoas que julgam umas as outras, pelos escritos, pelo blog, sei la, isso é um pouco estranho, se bem que todos nós fazemos um pouco isso.
QUe ela descanse em paz! Quase todo mundo merece.
Mas fica uma reflexão: e pessoas que simplesmente não tiveram NADA com ela e mesmo assim foram capazes de tripudiar da sua morte?
Para estes, meu desprezo.
E outra: li também por aí que no final das contas, a Tina é que se ferrou. Desde quando, na boa, morrer é se ferrar? A Tina descansou. Quem se ferra é o marido, o filho, os amigos que estão sofrendo com a ausência dela. A Tina tinha uma família linda, que vivia ao redor dela. Nicolas chegou a conversar conosco quando da gravação do Love Live. Eles tinham uma química muito boa. Já muitos desses jovens paladinos da justiça, não se dão nem com os pais...
Enfim.
Doni, você tem um embasamento teórico que me falta. Meu texto foi emotivo, o seu foi o definitivo.
Um abraço e obrigada mesmo por segurar minhas pontas na quarta.
R: estou contigo, Lu. E assim que sair o Love Live será linkado aqui.
Quanto à sua amiga, sinto muito...
Eu não conhecia ela, mas tinha visto o comentário no post anterior.
E na minha opinião, quem fica julgando alguém que já morreu é porque não tem mais o que fazer! Vai cuidar da sua vida, cambada! Agora o nosso julgamento já não tem a menor importância.
Pois é, eu fiquei muda, só consegui escrever um pouquinho no meu blog, mas a Tina é muito especial para mim. Por exatamente tudo isso que vc disse aí. Nunca tive treta nenhuma com ela, mas provavelmente foi pela minha lerdisse em entender as coisas. A gente se divertia bastante, os emails dela eram os mais distorcidos, com pensamentos cortados e mais engraçados do mundo!!
Ahhhhhhhh, já to com uma saudade grande. Fico voltando aos meus emails e rindo tudo novamente...
Linda homenagem a sua. Foi perfeita! Sinceramente.
Beijão.
R: Obrigado, Flávia!
Belíssima homenagem, Doni.
R: falar o que sente nunca é falar demais... =)
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