Admirável Mundo Novo
Apesar de ser decididamente um cara do século XX, considero-me bem atualizado. Estou na internet desde 1995 e acompanho de perto as novidades tecnológicas e as mudanças comportamentais simultâneas a elas. Acontece que quando vivemos algo "de dentro" podemos não perceber claramente a dimensão do que nos acontece. As mudanças podem ser incorporadas ao nosso dia-a-dia sem que tenhamos noção do que está acontecendo.
Mas, existem momentos em que me vejo refletindo sobre esse estado de coisas, como agora. Após mais uma noite não dormida, numa manhã fria e com muita nebrina em Embu, comecei a cumprir meu ritual matinal: estava ouvindo a Rádio Aspen FM de Buenos Aires (boa música e notícias), através do ótimo Streema (mistura de webradio com rede social sobre o qual falarei outro dia) e lendo posts dos meus blogs favoritos via Google Reader. Cheguei então a um texto da Gabriela Zago no Twitter Brasil apresentando este Twitscoop, uma nuvem de tags do Twitter atualizada em tempo real (imagem). É divertido ver o tamanho das palavras aumentando e diminuindo na medida em que as pessoas escrevem, e na hora em que acessei o site a palavra "consulate" pulou na minha cara, e acima dela a palavra "attack". Foi clicar e descobrir um tiroteio na frente do consulado estadunidense em Istambul, que matou 6 pessoas.
Sinto pelos mortos e pela notícia triste. Mas não é sensacional? Não é mesmo admirável a ausência de fronteiras deste nosso mundo novo? E as pessoas fazendo a notícia em tempo real? Gente do mundo todo, gente como eu e você, comunicando fatos e repercutindo idéias quase que sem atravessadores? Eu, que cresci entre poucos discos de vinil e gibis, lendo os dois livros que a Biblioteca Municipal da cidade me permitia retirar por semana, hoje absorvo um volume de informações (e de dados sem importância também, é claro) nunca antes imaginado, e me relaciono com ele. Ainda que insinuem que a internet nos deixa burros, eu me sinto hoje desenvolvendo capacidades que eu nem sabia que tinha.
Uma grande influência para o desenvolvimento de nossa capacidade de pensar é o volume de estímulos ao qual somos submetidos. Fico imaginando as gerações nascidas depois de nós, já recebendo de herança esse estado de coisas, e acho que de burras elas não terão nada. O que parece cacofonia para os mais velhos é informação facilmente processada pelos mais novos. E eles não serão melhores ou piores que nós, apenas terão uma maneira diferente de viver e experimentar o mundo que os cerca.
O fato é que adoro participar disso, experimentar também um pouco deste novo mundo, fazer parte dessa geração que faz a ponte entre o antigo e o novo. Fico pensando então em como devemos lutar contra os que querem vigiar, regular e limitar a liberdade que estamos conquistando para as gerações futuras. Precisamos evitar que este mundo se aproxime do "Admirável Mundo Novo" pessimista e sem graça de Aldous Huxley e, não menos importante, não podemos perder a capacidade de refletir criticamente nossa realidade.
Eu sou otimista, vocês já perceberam. Mas, se não formos críticos, o grande risco é que tanta informação simplesmente vire "soma", amortecendo nossos sentidos e nos transformando em seres sempre dopados e inertes. A reflexão crítica é outra herança que devemos deixar para as novas gerações, uma espécie de vacina contra a burrice endêmica que tantos andam prevendo. Tudo o que eu disse anteriormente, todo o potencial que existe nessa revolução que estamos começando só será alcançado desta forma.
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R: e hoje é o grande dia da tal votação no senado...
Para pessoas como você, eu, meninos e meninas prodígios, pessoas interessadas em saber sempre mais, em serem estimuladas, a internet é uma benção. Mas a massificação e o conhecimento raso que vemos entre os adolescentes nos mostram que ainda há muito a ser feito. Até porque quem está no poder não entende a importância da abrangência da internet e nem a necessidade de que as pessoas tenham autonomia na rede.
R: Obrigado por me colocar junto de ti entre os prodígios hehehe Na verdade a massificação é um problema não só entre os adolescentes. É perigoso atribuir o "conhecimento raso" a esta faixa etária, e as pessoas costumam fazer isso, infelizmente. Acho que nosso papel é o de colocar as discussões em pauta, como um começo. Mesmo nas pessoas sem muito conhecimento adquirido existe a capacidade, faltando as vezes é contato com um discurso que não seja raso. E autonomia garantida na rede e fora dela é um sonho bom, não?
=)
Bjs.
R: neste caso o problema é de quem "mal-interpreta" hehe
Adorei seu post!
Bom, e a tecnologia em si não é boa ou má... tudo depende da forma como a utilizamos
R: sem dúvida, mas infelizmente muita gente ainda não conhece essa máxima. Tá cheio de marido que encontra a mulher com outro no sofá e vende o sofá hahahaha
R: Sabe que seus questionamentos são bem interessantes, mas em grande parte relacionados também com a nossa forma de ver a adolescência, "de fora". Tem um livrinho que tive que ler para a cadeira de Psicologia do Adolescente que trata de várias dessas questões, e é bem interessante, do bom Calligaris, dá uma olhada: http://publifolha.folha.com.br/catalogo/livros/135432/
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