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Janela da alma: uma crônica sobre ver e enxergar

“Que as forças cegas se domem pela visão que a alma tem!”Fernando Pessoa

Está na programação do Canal Brasil (Net/Sky) o documentário Janela da Alma (Brasil, 2002), de João Jardim e Walter Carvalho. São dezenove depoimentos sobre a visão, ou sobre a falta dela. O que se tenta é mostrar como diferentes graus de deficiência visual podem influenciar a vida das pessoas. No caso dos entrevistados, a preocupação com o “ver” é ainda mais presente e na maioria das vezes matéria-prima de trabalho, já que falamos de cineastas, atores, diretores e mesmo de um fotógrafo cego.

Com destaque para personalidades como José Saramago, Agnès Varda, Wim Wenders e Hermeto Paschoal, o filme é uma “colagem” onde as experiências e opiniões dessas pessoas estão intercaladas por imagens que buscam dar ao expectador a idéia do que é enxergar o mundo fora de foco, ou com muito foco. O título remete à citação atribuída a Leonardo Da Vinci de que “os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo”.

A ordem das falas não é rígida e não parece haver um ponto de vista a ser defendido, o que torna o filme bastante informal e “leve”, mas não menos denso, já que as possibilidades de reflexão são inúmeras, dependendo também das experiências de vida de cada espectador. Difícil assistir ao filme e não sentir imediata empatia por pessoas como Hermeto Paschoal ou pelo simpático vereador cego da cidade de Belo Horizonte, cidade cujo nome está coincidentemente vinculado ao tema do filme.

Reveladoras são as falas da cineasta Agnès Varda e da animadora Marjut Rimminen. A primeira conta como o amor pelo falecido marido Jacques Démy influenciou seu olhar. Segundo ela, há coisas que só um olhar apaixonado é capaz de perceber. Ao mesmo tempo, ao filmá-lo já doente e poucos meses antes de sua morte, ela mostra como registrar cada ínfimo detalhe da pele dele (coisa que realmente só interessa a quem ama) acaba sendo uma forma de lutar para não perdê-lo. É o registro que tantas vezes é vital para nos lembrarmos do que somos e do que sentimos, a imagem que capturamos e que se torna parte de nós. Já Marjut Rimminen fala não do que vemos, mas de como somos vistos. Todo o trabalho dela com cinema de animação é pautado pelo sentimento de ser vista como alguém incapaz, uma pessoa a ser excluída ou subestimada por sua deficiência, e o depoimento dela fala de como tal sentimento influenciou sua vida e até proporcionou seu sucesso.

Não menos importante, e provavelmente a mais lembrada do filme, é a declaração de Wim Wenders, diretor de “Asas do Desejo”, de que já tentou usar lentes de contato, mas abandonou-as porque desta maneira acabava “vendo demais” e sentia falta da “moldura” que só os óculos são capazes de oferecer ao seu olhar. O paralelo óbvio, mas que não deixa de ser verdadeiro, é com o mundo moderno, onde somos bombardeados por informações e imagens como em um constante vídeo clipe. Talvez nos falte realmente uma moldura que nos permita enxergar apenas aquilo que realmente precisamos observar com atenção. Mesmo o ritmo bastante próprio do filme, aparentemente lento, pode causar estranhamento às pessoas da “geração MTV”.

O fato é que o filme toca, mesmo que involuntariamente talvez, uma antiga questão filosófica: a beleza é inerente ao mundo ou só existe porque somos capazes de percebê-la através da visão? Depoimentos como os de Hermeto Paschoal ou de Oliver Sacks apontam para a constatação de que realmente vivemos a “domar as forças cegas do mundo”, atribuindo automaticamente significado ao que vemos. Parece ser realmente impossível ver sem sentir (o contrário não é verdadeiro). O que nossas retinas captam é apenas uma pequena parte daquilo que enxergamos. Ainda bem, pois nossa alma é capaz de criar infinitos mundos além do “real”, e todos eles podem estar visíveis através da “janela”, também para quem está de fora.

Ao sair do cinema - quando vi o filme pela primeira vez, em 2002 - fui questionado sobre o fato de estar sem os óculos, já que a luminosidade da tela costuma agredir meus olhos. Pensei comigo que nem havia dado pela falta deles, e que há muito para ver em “Janela da Alma”, mesmo com a imagem um tanto desfocada.

* Originalmente publicado no dia 22 de janeiro de 2005.
** Estou em falta com este blog. Alguns posts já deveriam ter sido escritos, eventos deveriam ter sido divulgados. Regularizo tudo até o fim de semana.

Permalink02.06.08, 23:34:24, by Doni Email , Cinema , 7 comentários

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Comentário de: Gustavo Gitti · http://nao2nao1.com.br

Fala Doni!

Vi o Janela... no Unibanco, quando estreiou.

É belíssimo, sai alterado. A fala do Wim Wenders é uma das melhores.

Parabéns pelo post e por me lembrar desse filme.

Abraço!

PermalinkPermalink 03.06.08 @ 00:17



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

Ver esse filme deve ser uma ótima maneira de se questionar sobre várias coisas.
Não sabia da sua existência.


R: já fez valer a pena a republicação do texto!
:)

PermalinkPermalink 03.06.08 @ 00:20



Comentário de: VAN · http://www.vanluchiari.com.br

Eu sempre gostei de ver com os olhos de dentro...
;)

Beijucas moço.

PermalinkPermalink 03.06.08 @ 00:50



Comentário de: Dauro · http://dauroveras.blogspot.com

Adorei esse filme. Realmente inspirador.

PermalinkPermalink 03.06.08 @ 00:51



Comentário de: Daniela · http://trecosetrapos.org/weblog

Quando em vi esse filme, lá em 2004, fiquei sem palavras. As falas, os sons e as imagens são embriagantes, um delírio profundo tentar perceber a voz e a experiência do outro.

PermalinkPermalink 03.06.08 @ 12:28



Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Muito bonito o que você escreveu. Não reparo se você "está em falta com o blog" pois para mim tudo é novidade.

PermalinkPermalink 03.06.08 @ 12:46



Comentário de: Carol · http://clindenblog.blogspot.com

OUvi falar do filme na época, mas não vi. Pelo que vc descreve, uma falta grave. Vou reparar o erro.
BJs!

PermalinkPermalink 04.06.08 @ 15:53



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