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Divagando

Eu sou exatamente como um daqueles patéticos personagens de qualquer livro do Nick Hornby, que passa o dia ouvindo R.E.M. e sonhando ter uma loja de discos (de vinil, claro) na Rua Augusta. Não fosse o fato de eu estar escrevendo este texto em um moderno computador para postar na Internet, bem poderia ser 1983 ou 1992... Na verdade, é 1992 e eu não cresci. Sou como aquele idiota do Rob Gordon e passo o dia fazendo listas ridículas sobre música, sem saber o que fazer da vida e achando que um dia a adolescência vai passar, mesmo que os trinta anos já tenham ficado para trás...

Um dia percebi que estava me tornando um “andróide-executivo”, que passaria a vida vestindo ternos irretocáveis – dessa parte eu gostava – em dias quentes na Avenida Paulista, exatamente dentro do padrão esperado pelo tal “mercado”, e para mim isto seria o fim! Sou orgulhoso demais para permitir que ditem assim meu comportamento... Achava absurdo ter que viver adequado a regras com as quais nunca concordei, pensando sempre no bem estar da Organização e esperando o casual day para mostrar que meu guarda-roupa poderia ter um pouco mais de personalidade.

Anos atrás, eu caminhava com minha noiva na época, vestindo a camisa da Universidade que fiz... Um executivo muito bem vestido, enorme de gordo e fumando sem parar, acompanhado de uma estonteante loira de uns vinte anos de idade, me parou e disse: “eu me graduei nesta Universidade, sei que você também terá o meu sucesso. Boa sorte!”. Eu até gostava do futuro que tinha ali: me casaria pouco depois de formado com uma moça legal, teria em pouco tempo uma família e trabalharia feliz as dezoito horas necessárias por dia para ser, quem sabe, CEO de alguma corporação gigante. Mas, me vi como aquele senhor... E não quis aquele caminho!

Achei que a vida oferecia mais para mim, algo diferente! Que as relações poderiam ser menos hipócritas do que aquelas que eu via nos escritórios, que existia todo um mundo para descobrir e que era meu direito tentar fazê-lo. “Não posso me tornar um acomodado, e mesmo que poucos sejam capazes de encontrar um caminho realmente feliz, se uns podem, eu também poderei”, eu pensava.

Em condições normais de pressão e temperatura eu sei que não errei... Só não queria me sentir ainda tão perdido nestes caminhos. Outro dia estive caminhando pela já citada avenida e olhava as pessoas com inveja. Não tivesse eu sido um “porra-louca”, poderia estar ali também. Não ligo para as viagens, para o status ou para o dinheiro, mas em alguns momentos invejo a vida planejada e o futuro tão certo e aparentemente sem percalços daquelas pessoas. Será que não é melhor ter um horizonte limitado do que não saber para onde olhar?

Pensando bem, não é melhor não. A vida é interessante e complexa demais para ter roteiro. E se você acha que tem seu futuro planejado, babe, está se enganando...

Permalink15.05.08, 00:40:26, by Doni Email , Egotrip , 10 comentários

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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Carol Linden · http://clindenglob.blogspot.com

Eu bem que queria ter um roteirinho... mas sou aleatória demais pra isso. Seria ótimo ter alguém que fizesse as escolhas por mim, assim eu teria a quem culpar pelas burradas... mas a vida tem que ser complexa pra ter graça pra alguém.
Quero reencarnar como um peixinho dourado.
:-)

PermalinkPermalink 15.05.08 @ 01:20



Comentário de: gustavo

ei, é esse o dilema da minha vida.

PermalinkPermalink 15.05.08 @ 09:44



Comentário de: Tata · http://acaoedivagacao@blogspot.com

Nenhum futuro é planejado, por mais que a gente planeje (eu tenho uma dificuldade imensa). Imagino que boa parte dos engravatados, CEO de algum lugar, estejam bem felizes trabalhando 18 horas diárias e fervendo dentro de seus ternos. Também não é pra mim.

O mais terrível de tudo é ficar no meio termo entre o "sistema" e a oposição absoluta a ele.

Bem vindo ao limbo!


R: Maldito sistema! hehe Mas não reclame, você acaba de voltar de Londres!
;)

PermalinkPermalink 15.05.08 @ 11:16



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

Ah, não!!
Alguma segurança eu acho necessária, algum planejamento...
Mas horizontes limitados não têm a menor graça!

PermalinkPermalink 15.05.08 @ 11:33



Comentário de: Orlando Silva · http://netnografando.wordpress.com

É... sei nem o que dizer, mas sinto vontade de dizer. Ainda estou com um artigo por aqui que você me recomendou via twitter e pediu que eu opinasse. Acordei hoje disposto a fazer isto, afinal o assunto me interessa tanto. Bem, planejei fazer e escrever um post "Resposta a @marcdoni". Mas a rede/eu mesmo me consumiu/consumi. Já são 14:00, certamente não sairá mais hoje a leitura que tanto me interessa e o post. Mas, sem #blogstress. Encontro este teu post no reader e penso que em uma época muito recente alguns planos meus aconteceram ainda melhor do que eu havia pensado. Agora, nem tanto, não tenho percebido acontecimentos na dimensão que eu gostaria. Isto tem feito eu pensar se o que eu penso não não é muito para mim. Será?

R: questionamento interessante esse o seu... É muito comum que os acontecimentos planejados não tenham a dimensão que a gente gostaria, simplesmente pq fantasiamos com eles antes que aconteçam. Mas não significa que "o que você pensa é muito para você". Entre sonhar alto e ter os "pés no chão", eu prefiro sempre a primeira opção.

PermalinkPermalink 15.05.08 @ 14:10



Comentário de: Erika · http://naotenho.com

Minha experiência é a de que deixei de sentir-me inadequada ao modelo padrão, para simplesmente estar bem vivendo meu presente como é. Sobrevivi á tantas curvas inesperadas do caminho, que o que interessa mesmo é o que me apraz, sendo fiel aos meus caprichos.

R: é um grande sinal de maturidade...

PermalinkPermalink 15.05.08 @ 17:20



Comentário de: alan laurindo

Acredito que este pensamento reflete exatamente o sentido da palavra que conhecemos por felicidade. Viver o presente sem esperança, pois a esperança nâo permite vivermos plenamente. Viva a vida em desespero!

PermalinkPermalink 16.05.08 @ 14:00



Comentário de: Carol

Eu vivi intensamente tudo ki podia na minha juventude...lembro ki falavam ki eu tava perdendo tempo...ai eu soh achava ki aproveitava de outra maneira ..a menos convencional...lembro de uma vez voltando de um show jah de manha bem cedinho... acabada jah...vi as pessoas correndo na praia...dai pensei depois falam ki eu que naum tenho fazer...td kestão de ponto de vista...realmente tenho um tanto de historias pra contar ...mais ao msm tempo naum sai do lugar...as vezes me arrependo devia t feito as coisas direito...agora eh i atras do tempo perdido me tornar td oq eu naum keria na epoca...

PermalinkPermalink 16.05.08 @ 22:28



Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Olá Doni:
•Vi o movimento nacionalista do JK, holocausto na Manchete, os filmes de gladiadores no Cine Odeon na Praça Saenz Peña, Tijuca.
• A queda de Jango, a renúnca do "vassourinha" JQ.
• Nos anos da "Redentora". muitos filmes, discussões infindas de geração pós-Payssandu, a estréia de "Easy Rider". Os Mutantes e Leila Diniz.
•FAU-UFRJ e Libelu.
•Curso de inglês, 70 horas semanais de aulas, o Baixo Leblon.
•Minha vida aqui nos EUA, maridão e filho adolescente. Meu lar.
•Tenho muita mágoa da pequenez de espírito de gente que rotulou minhas fotos no Flickr como "adultas." Dessas estórias de que eu seja velha, gorda, sebosa, e todas essas maldades na Net.
•A rede poderia ser maravilhosa para todos. Dei aula de uso de Macs para pais de alunos hispanos. Aí aparecem uns desocupados para mais uma amargura. Fiz cirurgia na cabeça segunda, minha mãe morreu dia 28/04 de repente. Qual parte disso é incompreensível?
Não me arrependo de nada. Vivi uma vida plena, vi muitas coisas na vida. Fico contente que você esteja contente com sua vida. Cada um na sua e tudo irá bem.

PermalinkPermalink 18.05.08 @ 04:17



Comentário de: Harpa · http://www.saberquemsou.zip.net

Há 20 anos, achava que estava revolucionando; achava que tinha escolhido um rumo totalmente na contramão do esperado. Agora, tenho dúvidas. A vida é boa, mas, de verdade, não inventei nada.

PermalinkPermalink 19.05.08 @ 17:16



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