Como tratar o analfomegabetismo?
Alfômega
O analfomegabetismo
Somatopsicopneumático
Que também significa
Que eu não sei de nada sobre a morte
Que também significa
Tanto faz no sul como no norte
Que também significa
Deus é quem decide a minha sorte - Gilberto Gil
Não há como recusar o convite para uma blogagem coletiva contra o analfabetismo. Essa não tem sido mais uma questão presente na mídia, ao menos não como era antigamente, já perceberam? Parece que a ligeira melhora dos indicadores nos últimos anos foi suficiente para que o problema não seja mais discutido como merece. Não sei, pode ser uma impressão minha, mas acredito que 10,4% de analfabetos entre os maiores de 15 anos (dados de 2006), seja uma taxa ainda alarmante (e ter indicadores apenas melhores que a Bolívia, em toda a América Latina, não me deixa orgulhoso).
Ao ser convidado para falar sobre o assunto, pensei bastante em qual seria o meu enfoque. Divulgar ONGs? Falar em trabalho voluntário? A dúvida durou muito tempo; e acabei concluindo que o analfabetismo é uma espécie de chaga, aberta e mal cheirosa. É como uma gangrena; tecido necrosado. Pensei então numa metáfora, boba a princípio, mas que explica bem meu raciocínio: nosso país é como um paciente diabético. A diabetes é uma doença “silenciosa”, sem dores e que gera poucos desconfortos aparentemente, mas que vai matando aos poucos. Como há dificuldade de circulação, tecidos podem ser afetados, casos de amputação são relativamente comuns. O importante é que não adianta tratar apenas a gangrena, ainda que ela demande intervenção rápida, se o motivo (a doença “silenciosa”) não for atacado. A taxa de analfabetos é sintoma grave de uma doença maior, insidiosa, que mina qualquer chance de crescimento do país: a incapacidade do nosso sistema educacional em formar cidadãos. Tão ou MAIS grave que a taxa de pessoas que não consegue ler ou escrever é a porcentagem de pessoas que, alfabetizadas, não são capazes de entender um texto simples ou articular conceitos.
A internet costuma ser saudada como a grande revolução; a democratização da informação; o ingresso de toda uma massa, antes excluída, ao mundo globalizado (precisam apenas de um computador parcelado em 36 vezes nas Casas Bahia, afinal). Mas o buraco é mais embaixo! Basta olhar a caixa de comentários dos blogs mais visitados para perceber, com tristeza, que o acesso à web não está revolucionando a vida de pessoas que estão longe do que se pode chamar de “cidadão”, ou seja, alguém que pode pensar a própria condição e ser agente tanto do debate político quanto das ações que afetam diretamente sua vida e a da sua comunidade. Sem a capacidade de articular e de abstrair, para ficar em apenas duas das mais importantes, ninguém é capaz de aprender; de entender o mundo além do maniqueísmo, das dicotomias mais óbvias.
Acabar com a “gangrena” é relativamente fácil, e a solução passa por um pouco mais de investimento e de vontade política dos governos, talvez um pouco mais de pressão da sociedade também. Em poucos anos teríamos taxa de analfabetos por volta de zero, eu garanto. Mas adiantaria termos mais pessoas capazes de reconhecer símbolos escritos se não tivéssemos pessoas capazes de LER de verdade? A CURA deve estar focada nesta doença silenciosa, problema muito pouco discutido e tratado, que é o analfabetismo funcional. Ora, programas de alfabetização de adultos são ótimos, iniciativa linda, mas é muito mais importante não permitir que pessoas cheguem à idade adulta analfabetas e, ainda mais importante, é fazer com que sejam, mais que papagaios reproduzindo palavras e frases para elas sem sentido, pessoas capazes de gerar e reproduzir conhecimento.
A reforma necessária, tanto do ponto de vista político quanto econômico, para termos um sistema educacional formador de cidadãos acabaria por eliminar TODA forma de analfabetismo. Aí, eu apresento alguns dados importantes, tirados do site do ministério do planejamento:
As despesas públicas em educação no Brasil possuem um viés para o ensino superior em detrimento do gasto no ensino médio e fundamental. O Brasil apresenta o menor gasto por estudante no ensino fundamental entre os países apresentados no gráfico 1.C [que não vou reproduzir aqui]. O gasto por estudante no ensino médio é ainda mais baixo tanto em relação ao ensino fundamental quanto em relação aos demais países selecionados. A despesa do governo geral com educação é elevada no Brasil. Em 2002, era de 5,4% do PIB, nível maior do que a média dos países da OCDE e de outros países da América Latina como Argentina, Chile e México. O governo brasileiro gasta proporcionalmente mais em ensino superior do que em ensino fundamental, o que tende a desfavorecer a população de renda baixa. Aproximadamente 60% dos estudantes matriculados nas universidades públicas pertencem aos 20% da população de renda mais alta.
Enormes são os gastos em educação no Brasil, mas se gasta errado. O ensino fundamental, que nem chega a todos, não consegue cumprir sua função nem para aqueles capazes de cursá-lo. É neste momento da vida que a criança desenvolve a capacidade de adquirir repertório, mas sabemos que não é o que tem acontecido. Chegam ao ensino médio incapazes de aprender de verdade, e pouco estimuladas para isso. Ao mesmo tempo, o ensino superior público, que leva boa parte dos investimentos diretos, é um mecanismo cruel pelo qual a população financia os estudos de uma pequena elite rica do país. Ao aluno proveniente do ensino médio, que não tem condições de pagar um pré-vestibular, sobram faculdades privadas, muitas delas sucateadas, cursos de “fundo de quintal”. Existem mais faculdades de direito no Brasil que nos EUA, por exemplo, e 80% desses alunos, pelo menos, não são aprovados nos exames da Ordem. É gente que investe tempo e dinheiro, com enorme sacrifício, e que vê suas esperanças frustradas. O incrível é que apesar de todo o investimento, as faculdades públicas estão muito aquém do que poderiam. A produção científica da maioria delas é pífia!
Então, um primeiro passo seria o FIM do ensino superior gratuito. O Kenji disse uma vez, com propriedade, que o ensino superior deve ser visto como privilégio, e não como direito. Esse privilégio deve ser dado aos capazes (e cabe ao governo fazer com que mais pessoas sejam capazes), e não aos ricos, tal qual acontece hoje. Esse dinheiro “desperdiçado” para manter elefantes brancos federais, acompanhado de reformas curriculares, de investimento em estrutura e capacitação de professores e demais profissionais da educação, faria maravilhas no ensino fundamental e também no ensino médio. Ah, “mas o pobre fica sem poder cursar uma universidade então?”. Claro que não. Deveria haver um bom programa de financiamento para estudantes, a ser pago com juros baixos e prazos bons ou com trabalho voluntário, para a comunidade, por exemplo. Gratuito e universal deve ser o ensino BÁSICO. Ao mesmo tempo, as escolas particulares devem ser avaliadas por critérios mais sérios, como a produção científica, a publicação de artigos em revistas especializadas e por aí vai. Hoje, o governo parece estar mais preocupado com indicadores quantitativos que com os qualitativos, e isso só agrava o problema. O fato é que o privilégio do ensino gratuito da classe média alta está perpetuando a defasagem que mata aos poucos o ensino fundamental (e toda a possibilidade de crescimento do país, como dito anteriormente). Além do mais, o lobby dos favorecidos por essa situação faz um barulho absurdo, e tem muito mais espaço na mídia que aqueles que discutem questões como o analfabetismo.
Enfim, essa realocação de recursos seria apenas um primeiro passo, que não poderia estar isolado. Claro que de nada bastaria parar a sangria de dinheiro público do ensino superior sem reformas profundas no ensino fundamental. Mas acho que seria uma boa maneira de começar um “processo de CURA” de nosso sistema educacional, que trataria a questão do analfabetismo em todas as suas formas, ainda que a médio e longo prazo. Como diz a música de Gilberto Gil, o “analfomegabetismo” significa que “Deus é quem decide a minha sorte”. Tudo bem, tudo certo. Mas prefiro sinceramente viver num país de pessoas capazes de decidirem a própria sorte. E você?
UPDATE: No texto As mensalidades das públicas o Kenji explica melhor sua posição a respeito do ensino superior gratuito, e me leva a fazer algumas observações aqui. Ainda que eu possa ter deixado essa impressão no texto (e com certeza em alguns comentários), eu não acredito que as universidades estaduais devam ser privatizadas. Acredito no fim do ensino gratuito, acredito na cobrança de mensalidades nas públicas, mas não na transferência delas para a iniciativa privada. Concordo quando ele diz que uma universidade pode ter autonomia e ser estatal (ainda que isso não seja tão simples assim em nosso país, sabemos o quanto é difícil para qualquer estatal ter autonomia). Não concordo é com o modelo atual. Defendo sim que grande parte dos recursos empregados no ensino superior hoje sejam investidos (acompanhados de reformas estruturais) no ensino fundamental. Se devemos ter universidades pertencentes ao estado, que exista um modelo sustentável para elas, garantindo excelência para o ensino e para a pesquisa. E sim, o Brasil gasta muito em educação (em termos de porcentagem do PIB ), e gasta mal. Todo o modelo deve ser repensado, privilegiando o ensino fundamental, em minha opinião.
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Dou aula pra adultos também e vejo o esforço que fazem pra estar ali.
Uma das coisas que lamento profundamente é que meus alunos tem como perspectiva geralmente cursos técnicos ou somento o ensino médio mesmo pra começar a trabalhar - e estagnar.
Nesse ponto, concordo plenamente com sua idéia de ter um ensino superior pago onde os alunos com baixa renda possam fazer trabalhos voluntários para pagarem seus estudos. Eles não se "iludem" com a faculdade porque sabem que seria caro demais pra eles - mesmo estudando na pública tem a questão dos livros, material, etc.
Perfeito o texto, Doni. Eu ampliaria, embasaria com alguns teóricos e transformaria em um belo artigo.
Parabéns.
E bem certo no que diz!
Fora isso tb tem a questão do que ensinar!
Existem matérias extintas como Moral e cívica que pararam de ser ensinadas e deixam um grande vazio em questões importantes de definição de cidadão!
R: Bodas, o problema da Educação Moral e Cívica é o mesmo do OSPB (Organização Social e Política do Brasil, era isso?). Eram imposições da ditadura. Ética e moral são aprendidas pelo exemplo, e não pelo conteúdo programático. De nada adianta haver a matéria se as atitudes dos educadores não são éticas. Ética é aprendida pela ação, muito mais que pelo discurso... ;-)
Enfim, só não se investe na verdadeira EDUCAÇÃO (porque hoje em dias as crianças saem da escola sem saber o mínimo)porque é conveniete para o governo deixar assim.
Pessoas sem "educação", normalmente são pessoas mais fáceis de serem manipuladas.
Seu texto está ótimo e concordo com você que uma solução seria privatirar o ensino superior e o governo cuidar do ensino de boa qualidade para o ensino fundamental...
R: Rayssa, boas as suas perguntas. Vamos lá:
1) a extinção do ensino público gratuito é PARTE de um pacote de soluções mto maior. Eu realmente não acredito em gastos mais "eqüitativos" não, porque ter um ensino superior com a MÍNIMA qualidade demanda recursos a mais mesmo, recursos que cairiam muito bem no ensino fundamental. A questão é que recursos SEMPRE são escassos. E o investimento em ensino superior gratuito, ainda que enorme, não é suficiente, e provavelmente nunca será.
2) esse aluno não pagaria necessariamente AO SAIR do ensino médio. Poderia pagar depois de formado, por exemplo; ou, como eu disse, em trabalhos voluntários para a comunidade (uma maneira BARATA do governo investir em atendimento à população).
3) O cursinho pré-vestibular só existe (e é um absurdo que exista) porque existem universidades públicas (e grande demanda por elas), sem falar no ensino básico e médio de péssima qualidade.
4) O sucateamento das universidades é alarmante mesmo, e olha que os gastos nelas são enormes... Percebe que é um modelo falido? Universidades devem ser instituições de direito privado.
5) Obrigado. Precisamos mesmo discutir isso tudo.
Com certeza prefiro esse outro mundo!
Agora, se a universidades fossem instituições de direito privado como isso iria melhorar a situação do ensino? pq tirar todos os recuros do ensino superior publico e colocar no fundamental/medio ajudaria, de fato? fazer um aluno do primeiro ano de faculdade assinar um contrato de financiamento das mensalidades é tão nocivo, pra mim, quanto fazer o mesmo com um aluno do primeiro ano do médio ou primário. Se vc dá um ensino de qualidade e gratuito pra uma criança durante 10,15 anos pq não continuar por mais 5 ? Vc está trocando 6 por meia duzia. Pq, nesse caso, eu poderia propor o cancelamento do ensino fundamental e/ou médio gratuitos e, com os recursos arrecadados, melhorar a qualidade dos mesmos para tornar o ingresso no ensino superior publico mais democrático. Oras, isso é absurdo.
R: heim? Bem, como eu acho que isso melhoraria a situação do ensino eu já disse em todo o texto. Pq favorecer o ensino fundamental? Pq é nele que estão as bases para a formação dos cidadãos. Claro que é uma idéia, uma proposta, e não tenho qualquer certeza de que daria certo. O fato é que absurda é a situação que já existe agora. Fazer um aluno de primeiro ano assinar um contrato de financiamento é nocivo? Bem, o "student loan" já funciona com relativo sucesso em alguns países. NOCIVO de verdade eu acho que é fazer um aluno de baixa renda se ver obrigado a pagar o pré-vestibular noturno, tendo que trabalhar o dia todo, para NÃO CONSEGUIR entrar na faculdade pública que deveria ser para ele. Ele normalmente perde a vaga para quem pagou escola particular a vida toda, e se vê obrigado a cursar o ensino superior em instituições péssimas, muitas das vezes. "Se vc dá um ensino de qualidade e gratuito pra uma criança durante 10,15 anos pq não continuar por mais 5?". Oras, eu adoraria que fosse assim simples, mas não é. Em minha turma da USP, apenas eu era aluno de escola pública, por exemplo, em uma sala de mais de 40 pessoas, e isso sem ter tido o tal "ensino de qualidade" antes. Sinceramente? muito mais cruel do que minha proposta é o que existe hoje. Universidades sucateadas, alunos que chegam a ela sem qualquer condição de ter um mínimo desempenho acadêmico e a população toda pagando impostos para financiar o estudo dos 20% mais ricos. O fato é que o modelo de ensino superior público já mostrou que não funciona. Eu prefiro o meu "meia dúzia" do que o "seis" que temos agora hehehe
R: colocar a "burguesia uspiana" (palavras suas) para pagar é extremamente importante, é a idéia principal de tudo o que escrevi. Mas eu tenho mais esperança que você, eu VEJO sim as pessoas concorrendo em pé de igualdade, tenham feito escola pública ou particular. E sim, TER QUE PAGAR PELO ENSINO SUPERIOR, como eles. Não há porque achar isso ruim. Ensino superior custa MUITO, as carreiras demandam recursos muito específicos, e em vários cursos o material e tudo o mais é extremamente caro. Para ser sincero, usando conceitos simples de economia, num país do tamanho do nosso, se o ensino básico for realmente bom, e as pessoas forem capazes de fazer um curso superior ao sair do ensino médio, o sistema público de faculdades não se sustentaria, não conseguiria suprir a demanda. Financiar essa demanda através de linhas de crédito ou "trocar" o curso universitário por serviços à comunidade são opções muito viáveis, em minha opinião. E, ter um trabalho para pagar a faculdade já é a realidade de muita gente.
Ensino pago em um país como o nosso nao significa que todos poderao pagá-lo.
Ensino funcional grátis, chefiado pelos órgaos governamentais como tem sido até agora, tem levado aos profissionais de ensino a um desgaste. Por quê? O salário nao comporta a montanha de trabalho que eles têm tido em salas de aulas com alunos que vao à escola para comer. Fora disso, em casa nao têm apoio da família, os livros sao jogados num canto e só serao pegos no próximo dia. Os problemas sao muitos e foi como a sua metáfora. O ensino está enfermo de uma das mais graves doencas. O nao saber.
Obrigada pela participacao.
Grande abraco
R: sem dúvida, é bastante questionável. É exatamente pq não há hoje a certeza de que todos poderão pagar o ensino superior que a mudança deve vir acompanhada de outras tantas ações no sentido de democratizar isso. O importante é que o ensino fundamental precisa de investimentos (e de atenção) que hoje ele não tem. Abraço.
Belo texto.
um dos grandes problemas que vejo, além dos citados é que o ensino superior "particular" trasnformou-se num curso técnico me que o estudante apenas almeja um sálario maior.
Isso é lógico refletindo, e alimentando, o problemas da divisão de rendas e produtos no Brasil : só aqueles que tem ensino superior podem conseguir ter algum dim-dim;e: a idéia de cidadania plena apenas com o canudo superior( E isso o velho Lima Barreto já cantava)
Estudo numa particular é isso, é nítido, do currículo ao estudantes.
gente que nuca teve a menor vocação ou treinamento para a vida acadêmica em cursos cada vez mais tecnicistas. Minha sala é um exemplo disso.
o Pior é que as pós, mestrados e doutorados particulares estão absorvendo essa idéia. Assim , cada vez mais o número de mestrandos se formando é maior, não pelo desejo da pesquisa ou melhoria científicas do país, mas é apenas com um mestrado que a pessoas pode almejar um salário digno, assim pensam muitas.
Enfim, se não fossemos tão desiguais, com sistema mais justo na sua divisão e produção de renda, com a idéia de uma cidadania plena sem o obrigatoriedade do ensino superior, talvez, finalmente, poderíamos abandonar o egoísmo e pensar o real valor da educação básica por aqui.
Ou será que pensando e realizando a educação básica conseguiríamos isto?
abs
R: bela reflexão, tudo isso é muito real. Eu realmente acredito na cidadania que se faz ANTES do ensino superior, que não está ligada a diplomas e certificados. Para a universidade (e para o país) muito melhor seria gerar conhecimento, e não técnicos certificados.
Sempre fui contra o modelo de ensino: "Você finge que aprende , eu finjo que ensino" é desanimador, muito triste mesmo.
convivo com ESSA FRASE todos os dias, você foi direto ao ponto, de nada adianta estudar , se mal aprendem o mínimo
abraços ..Alexandre
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