Eu e o tempo
A idéia de que o tempo é uma continuidade do espaço está entre as coisas que mais gosto da Física. É óbvio que posso estar errado (não leio sobre Relatividade há anos), e os estudiosos que me perdoem o erro, mas gosto de pensar em diferentes momentos no tempo como diferentes pontos no espaço. O passado é outro lugar, quase como que outra cidade ou país, talvez a rua de cima lá do bairro. Então, quando sinto saudade de algo que ficou lá atrás (um encontro, uma conversa, uma emoção ou percepção), penso que não tenho porque ficar triste, pois aquilo está acontecendo. O menino feliz com o primeiro beijo não deixou de existir, apenas está cantando alegre em outro lugar; e eu só não tenho como chegar lá ainda.
Mas e se existirem bifurcações? Pensamos numa linha temporal, mas e se tivermos ramificações? Cada escolha, cada caminho que seguimos, implica deixar algo que poderia ser. Então, quando você opta, deliberadamente ou não, por tornar-se um determinado alguém, cria automaticamente um “aquele que poderia ter sido” ocupando outro espaço no tempo, outro lugar no universo.
Confuso? Eu também acho, mas é fácil exemplificar: há um Marcos que não abandonou a faculdade de Física e que hoje é um feliz professor de 2°grau ou pesquisador na iniciativa privada. Ele usa óculos enormes e suspensórios. Existiu um Marcos que não abandonou a faculdade de Engenharia Mecânica, mas este morreu num acidente antes de terminar a faculdade (uma versão engenheiro de mim seria uma anomalia grande demais, e o universo resolveu isso). O Marcos que não abandonou a Administração de Empresas apaixonou-se pelo Marketing e, especializado em publicidade, está sendo pioneiro na utilização de blogs em campanhas. Um sucesso. Tem também um que estudou melhor para aquele programa de Trainee da Folha de São Paulo, e hoje escreve dossiês contra revistas semanais. É um revolucionário.
O Marcos que não terminou o noivado hoje é pai de um belo menino chamado Leonardo, e tem a esposa de olhos mais brilhantes do mundo. Tem também aquele que não disse para a namorada que estava apaixonado por outra, mas que acaba de repartir suas coleções de gibis e CDs com a ex, afinal não tem mais nada de valor. Há um Marcos que criou coragem e deu nela aquele beijo dentro do carro, quando tiveram que parar por causa da chuva na Avenida Dr. Arnaldo, e que hoje mora com o amor de sua vida no Havaí. Não posso esquecer também do Marcos que invadiu a igreja e disse “sou contra!”, mas não sei o que aconteceu com ele.
São tantos os Marcos que eu poderia ter sido. O que não deixou a bola de capotão explodir debaixo daquele caminhão hoje está encerrando a carreira em grande time da capital paulista. O que não perdeu aquele teste para o time de basquete do clube fez juz ao apelido de Vlad Divac que tinha na adolescência, pois teve carreira vitoriosa na NBA. O Marcos que não brigou com seu grande amigo e parceiro de banda hoje está lançando discos diretamente em MP3, revolucionando o mercado.
O Marcos que foi morar em Porto Alegre assiste ao pôr do sol todos os dias na beira do Guaíba, e o que comprou um sítio em Quatis (RJ) vive tocando seu violão na varanda, enquanto os cachorros ficam deitados no tapete. Aliás, o Marcos que seguiu com aquele curso de violão do Instituto Universal Brasileiro está hoje se apresentando em Paris.
Estou longe de ser infeliz. Do meu jeito, no meu ritmo, eu faço muitas coisas. Tenho minhas conquistas e dissabores como qualquer outro. Tenho meu caminho na Psicologia e tantos interesses (literatura, fotografia, poesia, música, filosofia) que teria de viver algumas vidas a mais para satisfazê-los todos. Mas existem noites, como a de hoje, em que pensar nesses outros tantos “Marcos” me tira o sono. Quantos de mim já são pais de família, astros do Rock ou grandes nomes do cinema pornô? Nunca vou saber, todos estão em outros tempos e lugares. Tudo o que posso garantir é que este Marcos aqui seja o melhor possível, uma forma de homenagear aqueles que saíram do caminho para que eu existisse neste momento, com todos os meus erros e acertos.
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BBB: Marcos é o novo líder!
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Tenho que dizer que este Post com toda a certeza do mundo fez minha cabeça explodir!
Sim, posso garantir que Todos os Rodrigo's neste exato momento da linha do tempo já pensaram sobre os outros Rodrigo's em algum ponto e fizeram esse questionamento.
Mas Relembrando a Oráculo, se o Preço de uma escolha é saber quanto ela ira lhe custar e saber que ira escolhe-la de novo...
Estou feliz com a minha!
Qual seria nossa reação ao nos encontrarmos com nossos outros eus?
Não sei o que eu pensaria...
Mas, com certeza, garantir que esse eu de agora seja o melhor possível é o mínimo que devemos fazer!
Adorei a divagação!
Mas , eu acho, que o grande barato do multiverso seria limitá-lo.
Algo como 1 milhão de possíveis realidades. Para que um novo universo surgisse, o mais fraco, o mais esgarçado em probabilidades, teria que desaparecer.
Bem cruel, mas acho que seria mais natural se pensarmos em manutenção do espaço.
E é lógico que eu não entendo nada de física!
abs
eu penso sempre muito assim, como tu colocastes no post. quando algo
dá errado, eu penso que outro eu tá curtindo muito naquela hora, e se deu certo, que talvez pros outros tenha dado certo também, só que um pouquinho diferente. [nunca fui fã dos quadrinhos da DC (go Marvel go!), mas as sagas que se passam em multiversos me fascinam]
aliás - lembrando enquanto escrevo - o Gejfin escreveu um conto quase análogo, muito tempo atrás, em que um cara encontra o seu "eu-inverso" - outro ele que fez tudo o que o outro não fez. transformei em roteiro de curta, tá em alguma gaveta por aqui...
enfim. divago porque o assunto é fascinante e chama mesa de boteco.
o texto do amigo me deixou reflexivo aqui, ainda mais nesse momento aniversariante!
abração!
R: Podíamos reunir num boteco os meus "e se eu - cópias", os seus e os do Gejfin, chamar os "e se Brigattis" e ainda ver se os do Veríssimo topariam também. Ia ser uma festa e tanto! Imagino que seja um texto interessante para quem faz aniversário hehehe Na verdade uma auto-análise de quem ainda precisa aprender a lidar com certas perdas (e para quê um blog se não o usarmos como terapia de vez em quando?). E eu sou fanzão da DC, acho que aí está minha influência... Vou procurar também o texto do Veríssimo.
Eu e o tempo, em Hedonismos.
Jornalistas x blogueiros, episódio 347, em Martelada.
Egolatria, blogues, e campanhas de links, em Catatau.
Quero ser "apenas" uma mãe, em BlogTalk.
As 20 maiores cagadas da história da indústria fonográfica, em...
A poesia alcança além da física porque é uma coisa só em muitas coisas. Enfim, uma vida só é bom, mas é muito e pouco. Tanto para um Marcos como para os Társis.
Abs!
PS: aquele lance da música, me escreva pvt, pode ser?
Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:
O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?
Que acontecerá no proximo dia 18 de abril, dia nacional do livro.
O post convocatoria voce pode ler no blog da Georgia (http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca (www.meiroca.com).
Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentario no blog da Georgia ou da Meiroca, para que possamos te incluir.
Participe e divulgue em seu blog.
Georgia e Meire
Cara...muito bom...esse é aquele tipo de reflexão que sempre fazemos, mas nem sempre falamos...um misto de curiosidade e decepção com contentamento e realização...
Gostei muito do que vc escreveu, para variar e como sempre muito bem escrito.
Lembro até de um comercial, se não me engano de um banco, que tinha uma frase que resumia mais ou menos o que vc relatou: " Uma escolha muda todo seu futuro!"
Parabéns Doni...sua competência em escrever é latente!!!
Abraços
Robs.
R: hahaha Obrigado, Robs!
R: Pô, só adora esse? E todos os outros de todas as dimensões??? haha
Poderia existir uma Tatiana arquiteta. Uma jogadora de vôlei. Uma mãe de família. Uma naturalizada inglesa...
Se eu continuar, não durmo hoje. São duas e meia da manhã, tenha dó...
Adorei esse postt. Adorei!
R: hahaha! Vamos reunir essa galera toda e tomar umas cervejas!
De algumas sinto saudades,de outras acho graça,de outras fico feliz em ter me livrado.
Ah,essas escolhas,que peso,que peso.
R: Todas essas versões vivem em nós, e durante um mesmo dia somos muitas pessoas diferentes.
)Esta idéia dos nossos "eus" espalhados por aí ("A vida que poderia ter sido e não foi", do Bandeira) é mesmo instigante e rende tantas elucubrações, né?
Mas ó... um bar não daria pra colocar tanta gente... vamos um dia lotar o maracanã só com todas as versões dos nossos amigos e dos comentaristas aqui!

R: hahaha eu fecho! E já te falei que adoro esse sobrenome "carvoeiro", né?
R: Talvez a presença de filhos em nossa vida mude um pouco essa coisa toda, quem sabe?
Mas o que me deixa mais feliz é que, se eu não tivesse faltado tanto no curso de Engenharia da Computação, hoje não teria uma namorada maravilhosa (e louca) e um filho lindo. =D
R: Parabéns!
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