A hipocrisia do Dia Internacional da Mulher
Antes que alguma leitora desmaie diante de tanta falta de sensibilidade deste Neanderthal que vos escreve é necessário deixar claro que gosto sim de homenagear a mulher, e que não pegarei aqui o caminho simplório, bobo e superficial do “se existe um dia internacional da mulher deveria haver também o dia internacional do homem”. Na verdade, não tenho a menor dúvida de que os idealizadores da data tiveram as melhores intenções ao adotar o dia 8 de março de 1857 como um marco.
O que não pode deixar de ser comentado é o que aconteceu desde então com esta “boa intenção”. Durante o dia de amanhã muitas rádios vão tocar John Lennon ou Erasmo Carlos; blogs farão textos emocionados sobre a força e a beleza de toda mulher e muitos dirão que devemos dar os parabéns às mulheres que amamos. Algumas vão encontrar flores em suas mesas de trabalho e outras, com certeza, receberão mensagens de gosto duvidoso, daqueles serviços horríveis de telemensagem. “Não há nada de errado nisso, é muito importante oferecermos homenagens e todo o nosso carinho a quem amamos, numa data tão importante, não é?”
Não! Pode até ser que não seja má fé, mas se você é um gerente que parabeniza sua funcionária pelo dia dela e depois oferece aquela promoção ao funcionário menos capacitado, que acompanha com você os jogos do seu time (já vi isso acontecer), você é um hipócrita! Se você parabeniza sua esposa pelo dia dela, mas chega em casa e se esparrama no sofá enquanto ela cumpre sua jornada tripla de trabalho, você é um hipócrita! Se você cumprimenta todas as suas amigas, mas passa o restante do ano tendo o mesmo comportamento machista e sexista de sempre, você é um hipócrita! O homem que não se posiciona de verdade, com sinceridade e desprendimento, frente a questões importantes da feminilidade e da relação entre os sexos deveria ter ao menos a dignidade de não ficar repetindo o clichê de “parabéns pelo seu dia”.
“É isso aí! O Dia Internacional da Mulher deve ser mesmo para refletirmos sobre as conquistas da mulher, e para reivindicar nossos direitos, lutar por maiores conquistas!”
Por incrível que pareça, não também! Eu sei, parece estranho que eu seja contra essa comemoração, mesmo que ela seja encarada de forma séria, mas posso explicar. Essa data comemorativa não é hipócrita só porque os homens agem assim. Ela é hipócrita em si, assim como todas as datas do gênero. Existe um mecanismo sutil e ao mesmo tempo cruel pelo qual a sociedade perpetua seu status quo. Se não houver uma reflexão crítica a respeito do significado de cada ato, mesmo o mais bem intencionado militante torna-se engrenagem que ajuda a mover o próprio sistema que combate. As mais justas reivindicações são absorvidas pela ordem social vigente, e nada muda. O problema? Datas assim limitam essa reflexão. Vou chamar isso de “vacina ideológica”. Para compreender, vamos pensar em como uma vacina funciona: para que o corpo se mantenha saudável (ou inalterado, no nosso caso), uma versão enfraquecida do vírus X é ministrada, mas de forma que fique sob controle dos mecanismos de defesa do corpo, que estarão prontos para combater qualquer manifestação real do vírus.
No caso da sociedade, a data comemorativa das minorias (as mulheres são tratadas como tal) é esse vírus X enfraquecido. Salvo exceções, a reflexão que poderia levar à mudança fica restrita a um dia pré-determinado, fica encaixotada. Todas as reivindicações são feitas com maior intensidade na data estipulada, existem os discursos e discussões, mas no dia 9 de março as mulheres continuam sujeitas a jornadas triplas de trabalho; continuam trabalhando 50% mais que homens, na mesma função, para ganhar 50% menos; continuam objeto de valores ditatoriais (da beleza, por exemplo); continuam vítimas de violência, sofrendo todo tipo de intimidação.
Sinceramente, o dia internacional da mulher, tal qual é hoje, é irrelevante e desnecessário. As necessidades das mulheres, de igualdade e dignidade, além das econômicas, são muito maiores do que uma data pode comportar, e de nada adianta discutirmos isso amanhã e ficarmos anestesiados até o próximo mês de março. Se for para citar Lennon, prefiro dizer que infelizmente a mulher continua sendo “the nigger of the world”, e que para mudar isso precisamos de menos simbolismo e mais ação.
* Acontecerá amanhã essa blogagem coletiva pela valorização da mulher brasileira. Vou acompanhar, e vamos fazer o máximo para que as discussões não fiquem restritas ao 8 de março.
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Haha! Brincadeiras à parte, penso da mesma forma há tempos, para todo tipo de data como essa. Pois a sociedade usa a máscara de quem prega igualdade, mas não consegue se desprender dos preconceitos e estereótipos. No fundo, as mulheres são coniventes com isso quando se emocionam com meia dúzia de cravos em suas mesas para homenageá-las pelo 'seu dia'.
E digo, com conhecimento de causa da jornada tripla de trabalho e do salário 50% inferior ao de um homem no mesmo cargo, que o respeito à mulher depende de passos muito largos ainda.
rsrss.. um brinde a nós, mulhes, sim! Amanhã, e em todos os dias em que vivermos...!
R: Vanessa... Eu concordo com você. Há de se ter esperança sempre! A minha é de que haverá um tempo onde dias como amanhã não sejam mais necessários OU que sejam realmente para comemorarmos grandes conquistas em direção à igualdade.
pô, se eu passar o Dia da Consciência Negra cumprimentando os meus amigos negros por sua jinga, malemolência e habilidade no futebol, vão me tirar pra pessoa mais tosca do mundo, mas ninguém vê problema em se fazer o mesmo pelas mulheres! e o pior é que tem as trouxas que se emocionam, acham q é isso aí mesmo, e tudo mais... =/
o primeiro post de bereteando foi uam diatribe canhestra, longe do desenvolvimento do teu texto, sobre o dia do orgulho gay. pelos exatos mesmos motivos que tu coloca aqui. concordo contigo. também penso assim.
ao mesmo tempo, já não tenho a mesma firmeza na postura que tinha há cinco anos atrás. digamos que, no que tu argumentas, não é nada que não já se saiba (não entende mal! é claro que a intenção do post não é trazer novidade, e sim ilustrar o ponto); se a gente puder imaginar que sim, mesmo quem "comemora" a data está ciente de que existe uma dose de hipocrisia nela mesma, talvez a escolha de um dia para reforçar idéias e ideais não seja de todo deslocada.
é como se fosse um jeitinho, do tipo "bueno, não tem força que sustente mobilização 365 dias por ano, então vamos nos concentrar em um pra renovar". e também atualizar questões em relação ao passado. dar uma olhada nas estatísticas e ver se pioramos ou melhoramos.
eu faço uma careta de enfaro quando chegam essas datas. mas acho que uma mulher que é agredida pelo marido pode ganhar mais coragem nesse dia, por notar mobilização ou por receber algum apoio verdadeiro, e talvez seja a única chance que ela tenha. aí me acho meio prepotente na careta.
e dessa mulher que sente a discriminação no trabalho, eu realmente ficaria feliz se ela recusasse o presente do chefe. talvez isso pudesse fazer alguma diferença.
...grande post!
R: Tornar o debate permanente ou um pouco mais duradouro já seria uma grande vitória! Mas sabe, fico pensando se o problema não é exatamente esse, de acreditarmos que há a necessidade de um "jeitinho", ou que não podemos ter força para reivindicar 365 dias por ano... Se existe uma esperança, eu prefiro que seja a de que podemos e devemos lutar sempre pelas coisas que são justas. A impressão que tenho é que alguém (e não vou usar a palavra "sistema" pq não é mais o século passado) disse "ok, se querem gritar e lutar por ideais, terão um dia para fazê-lo, mas depois nos deixem em paz". Mas o pior mesmo é que a filosofia original desta data vai sendo "diluída" em nome de elogios vazios à feminilidade, que mascaram um baita machismo. Nego parabenizar as mulheres pela "doçura", como bem lembrou um comentarista mais abaixo, me parece algo como "que bons eram os tempos em que eram submissas, que tal voltarem a ser assim?"
A discriminação sutil encontra inúmeras formas de se manifestar sem ser percebida até por aqueles que a praticam.
Escrevi no meu outro blog sobre a existência desses "dias", dia disso, dia daquilo que levam à exacerbação da divisão entre as pessoas.
Parabéns e obrigada.
beijos, bom final de semana.
R: não restringir o debate a uma data específica, ou estar alerta para que isso não aconteça, já é uma sugestão, não é mesmo?
R: essa premissa de que "defender um é desproteger outro" é beeem perigosa...
soh irei lembrar de novo qdo o mundo deixar de ser machista...
ou seja, nunca!
R: Exatamente a mesma, a diferença é que o Dia das Mães tem um objetivo muito mais comercial, coisa que o dia da mulher pode vir a ser no futuro...
Vamos lá: talvez realmente, em um passado remoto (eu nasci há 29 anos,a década de 50 é um passado remoto para mim) as mulheres tenham sido o negro do mundo, mas meu caro... já não o são faz tempo. Não no ocidente.
Elas são cerca de 60 por cento dos universitários do Brasil [dados parecidos em todO o Não-Islã]; os negros são menos de 10 por cento. Até hoje eu trabalhei em quatro empresas (UERJ; Folha Dirigida; Correios e [atualmente] IBGE) Nunca tive um chefe negro, mas tive chefes mulheres em todas elas (atualmente tenho duas: a titular e a substituta).
R: Não foi intenção, em nenhum momento neste post, comparar ou criar uma "competição" entre a opressão vivida por negros e mulheres. No máximo usei a metáfora fácil do ex-beatle para dizer que ainda existe sim opressão contra elas, assim como os negros também o são (meu texto poderia valer, com poucas mudanças, para criticar o dia da consciência negra). Acho que nesse sentido você entendeu meus motivos... Sobre as estatísticas, elas são realmente vazias sem alguns dados extras. O número de mulheres na universidade é mesmo alto, mas como se dão as relações no mercado de trabalho após a conclusão do curso? Existe mesmo igualdade? Ainda volto a isso mais abaixo.
Fala-se demais de dupla jornada de trabalho como uma evidente opressão contra a mulher moderna; não é!
Seja sincero: observando as famílias que você conhece cuja renda seja dividida proporcionalmente entre marido e mulher; nas quais a carga horária de trabalho "produtivo" seja igual ou parecida, os homens não cozinham, não ajudam a limpar a casa e nem levam os filhos pra escola?
R: em uma palavra: não!
Mais ainda: será que você não conhece casos de famílias onde a mulher não trabalha fora e mesmo assim o marido divide com ela as atividades domésticas. Bem eu conheço muitas, das quais uma é bem significativa: a minha. Minha mulher só estuda (a noite); eu faço duas faculdades e trabalho. Mesmo assim, muitas vezes sou eu quem cozinho, lavo as louças, troco a lâmpada [ah, é... muita gente não sabe, mas trocar lâmpada, limpar caixa d'água, pregar quadro na parede, remover estante também são consideradas atividades domésticas]...
R: sua esposa é uma mulher de sorte!
Se as mulheres têm, em geral maior tempo gasto com atividades não-remuneradas é por que em geral elas têm menor tempo em trabalhos financeiramente rentáveis. Não consigo ver a "opressão".
R: Esse foi o ponto a ser discutido da sua argumentação até agora. Me diz uma coisa, já questionou qual o motivo de mulheres passarem menos tempo em trabalhos financeiramente rentáveis? E não fica mais estranho ainda quando pensamos que elas são, como você disse, 60% das universitárias? Percebe o paradoxo?
Quanto a trabalhar 50% mais para ganhar 50% menos. Putz, mesmo que as percentagens tenham sido chutadas (eu odeio frases com percentagens chutadas, do tipo "90% dos brasileiros gostam de samba" ou "pelo menos 70% da torcida do Flamengo é favelada" mas, enfim, não sou eu que vou mudar os hábitos retóricos de ninguém) eu devo viver em outro mundo. Eu, sinceramente, nunca ví em lugar nenhum mulheres recebendo nem um centavo a menos para trabalhar nem um segundo a mais que os colegas homens de mesmo cargo.
R: sim, você vive em outro mundo. A última pesquisa comparativa de salários, ao menos no estado de SP (infelizmente não a tenho em mãos agora, mas posso procurar se você quiser), à qual tive acesso, mostrava que os salários das mulheres são 40% menores, em média, que de homens na mesma função. Sem falar na luta diária contra diversos esteriótipos e a necessidade de se mostrar ainda mais competente, para provar-se capaz e ficar "imune" ao machismo dos escritórios. Algumas amigas adorariam mandar currículos para os lugares em que você trabalhou.
Ditadura da beleza? Porra, eu sou feio pra caralho e eu posso afirmar que a tal ditadura da beleza também me atinge. Porque raios ela virou uma questão feminista?
R: Não, a ditadura da beleza não te atinge. Veja as capas de revistas em bancas de jornais, as telenovelas, as propagandas de cerveja, a relação das meninas ainda muito jovens com a beleza. Vá a um consultório psiquiátrico ou psicológico e veja quantas meninas sofrem de bulimia e anorexia. Disso posso falar com propriedade, até pelos meus estudos em psicologia. A "coisificação" do corpo feminino é uma característica bastante cruel, e nem é tão velada assim, do nosso tempo. A beleza é medida do valor da mulher em praticamente TODOS os campos de relacionamento em nossa sociedade, incluindo o econômico. Não raras vezes é necessário ser linda, além de competente. A menina que não é linda sofre pressão para se adequar ao padrão vigente e a que já é bonita é reduzida a "simplesmente uma menina bonita, deve ser burrinha".
Concordo Fe Funchal: ouvir aqueles elogios às mulheres pelo dom da vida(onde jogaram meu espermatozóide?); pela doçura; pela inocencia é fóda.
PS.: Não me entendam (nem me queiram) mal. Eu também sou a favor de direitos iguais; independente de gênero, religião, opção sexual, raça... Mas é preciso muita boa vontade e falta de crítica para aceitar este discurso de vítimas eternas de um tempo que já se foi que eclode todo 8 de março.
R: não há porque te querer mal. Precisamos do debate, com discordâncias ou não. E se ele se mantém em alto nível, todos ganham. Abraços.
R: Polemizar é mesmo uma delícia! hehehe Sem dúvida que quando os críticos da indústria cultural e da ideologia falaram pela primeira vez neste "pequeno ópio", não imaginavam que a sociedade iria TAMBÉM transformar isso em produto. Acho que existem maneiras e maneiras de lidar com este dia 8 e outras datas do gênero. A primeira é não ter essa postura de "o dia para homenagear a beleza e a doçura da mulher". A segunda é ter a data como um momento de debate e reivindicações sim, mas não deixar que este fique restrito a ela!!! Se isso acontecer, significará que a tal "vacina" do mal funcionou...
Fico feliz por receber bons comentários aqui dias depois do dia 8... e que continuem aparecendo o ano todo!
Aonde eu trabalhava, por exemplo, a maioria dos cargos eram preenchidos por mulheres. Todas as áreas tinham seus responsáveis, e todos os cargos tinham os salários determinados por uma tabela à qual todos tinham acesso. Ótimo, não? Seria, até se perceber que as áreas comandadas por homens tinham 'gerentes' e as áreas lideradas por mulheres só tinham 'coordenadoras', que nunca foram promovidas à gerência mas exerciam exatamente as mesmas atribuições de um gerente dentro de seus departamentos. A diferença, mesmo, vinha no pagamento: um gerente ganhava cerca de 40% a mais que uma coordenadora.
Eu, por exemplo, não vejo manifestações racistas ao meu redor. Me escandalizaria absurdamente se ouvisse alguém fazer alguma declaração racista. No entanto, é óbvio que existe racismo! Os dados estão aí e não é preciso nem pensar demais, nem ver de perto, para saber que há o preconceito.
E outra: eu acho que a comparação das jornadas de trabalho que o Daniel cita em seu comentário um bom exemplo de como o homem enxerga a sua responsabilidade doméstica: se compararmos as tarefas totalmente sazonais como a troca de uma lâmpada ou pregar um quadro, às diárias como lavar roupas e fazer o jantar, estamos confirmando a a visão esteriotipada que se têm dos sexos. Cuidar das tarefas diárias é visto como responsabilidade da mulher, e trocar a lâmpada a cada ano é visto como tarefa do homem, e isso é colocado em pé de igualdade - comum e recorrente.
Eu acho que o amigo acima pode estar se referindo a um certo progresso da mulher na sociedade, que é inegável. Mas daí a termos igualdade falta um tanto bastante nítido. E nos referirmos ao progresso como o patamar de igualdade que deveríamos ter é, no mínimo, preocupante.
Me parece que isto ocorre justamente porque, embora as mulheres não tenham mais o impedimento de trabalhar e estudar, ainda cabe aos homens a a velha obrigação de "sustentar a casa". Por isso as mulheres avançam mais nos estudos, porque os seus irmãos homens geralmente o abandonam para que elas possam continuar. Isto também é regra, Doni. E me parece uma regra bem coercitiva e injusta, ou seja: opressiva.
Bom, este é um dos pontos que dizem porque do número menor das mulheres entre os trabalhadores "produtivos". Porque entre os homens o trabalho se mantém como um dever, enquanto para as mulheres deixou de ser uma proibição para ser uma opção. Muitas optam por concluir os estudos e só depois trabalhar.
Porém pode ocorrer de uma mulher se casar e decidir representar o velho papel de "dona-de-casa e mãe". Muitas o fazem ainda; às vezes contribuiem com o orçamento doméstico através de vendas de Natura, fabrico de doces, etc...... e eu continuo não vendo a opressão.
Opressão só existe quando há coerção. Muitos acham que o próprio fato de um grande percentual entre as mulheres atuarem no papel de "dona-de-casa" demonstra um desvalor. Discordo.
Vou dar um exemplo (mesmo sabendo que exemplos só exemplificam [ops]). Tenho um vizinho que é aposentado e cuja mulher trabalha como empregada doméstica. É ele quem responde pelas "atividades de mãe" [têm dois filhos pequenos e uma filha adolescente] enquanto ela responde pela maior parte do sustento (a aposentadoria dele é de um salário, ela ganha bem mais que isso como diarista, sim: eu sou fofoqueiro). Diga-me: ele é explorado?
As mulheres que não trabalham hoje não o deixam de fazer porque são impedidas, como era no passado. Tomam esta decisão em benefício próprio ou por consentimento mútuo. Nível de exploração: zero.
Outro ponto: seria bem legal se a gente tivesse dados destas proporções (comparação salarial, taxa de ocupação, índice de escolaridade) relativos somente à população sub-30 ou sub-35...
R: Como você mesmo disse, um exemplo só exemplifica hehehe Não dá pra pegar o caso do seu vizinho pra falarmos em exploração. Agora, não me alongando muito, o que chama atenção na sua resposta é o "Opressão só existe quando há coerção". Não poderia ser mais errado! É o tipo de falácia que ajuda a perpetuar ideologicamente tudo o que está errado. Vamos pensar em termos de negros, por exemplo. A Coerção deixou de existir assim que foi assinada a libertação dos escravos, certo? Os negros deixaram de ser social e economicamente explorados? Óbvio que não. Apenas deixamos de ter o opressor identificado na figura de um senhor para termos toda uma estrutura social baseada no preconceito, que leva a diferentes oportunidades de estudo, trabalho, discriminação e que tais. A opressão na questão feminina não tem exatamente nome e endereço (exceto em casos de violência contra a mulher, por exemplo), mas está estruturalmente inserida em nosso dia-a-dia.
Não, eu não estou neste grupo (dos que se entopem de bomba ou dos que ficam chorando as pitangas do meu desatre fisionômico em consultórios psiquiátricos) mas muitos homens chegam a este extremo sim, com o agravante de que são mais dificilmente vistos como vítimas.
O que continuo não vendo é onde a tal "ditadura da beleza" é uma questão feminista.
Sobre mulheres ganhando metade para trabalhar quase o dobro numa mesma empresa em cargos idênticos com escolaridade idêntica e tempo de serviço idêntico, ainda espero dados
Abraços.
R: é verdade que homens começam a ser atingidos por algo que é traço marcante da nossa sociedade narcisista e que acho que poderemos chamar, com mais propriedade, de "ditadura da imagem". Mas, como disse anteriormente, a tal ditadura da beleza ainda é questão de opressão contra a mulher sim, predominantemente! Questão feminista? Não, feminina (detesto todos os "ismos").
Sobre os dados que você pediu, encontrei uma pesquisa simples, mas satisfatória, que você pode acessar no link abaixo:
http://www3.catho.com.br/salario/action/artigos/As_diferencas_salariais_entre_Homens_e_Mulheres.php
Cito um trecho:
"Através do estudo realizado pode-se notar que a diferença entre os salários de homens e mulheres vem crescendo nos últimos anos. No ano de 2005 essa diferença era aproximadamente 52% a mais para o salário dos homens. Para esse ano, até o mês de Junho, essa diferença subiu para 75,38%, no geral".
Na resposta sobre homens com bulimia eu ia postar uma matéria da Veja sobre o assunto. Não sei por qual motivo o sistema de comments não permitiu. Mas na tal matéria tinha algo que considero interessante (que de certo modo você reproduziu ao dizer na sua contra resposta).
O sub-título da matéria era este "Chegou a vez dos homens: beleza põe a
mesa para eles também. Tem alguns até
sofrendo por isso, coitados ". Existe uma predisposição intelectual a ver nas mulheres vítimas. Não são os fatos que apontam a mulher como vítima.
Neste caso, por exemplo, um mesmíssimo fato (o de que a valor social da beleza sofreu hiperplasia e de que indivíduos ocasionalmente respondem a esta exacerbação de modo doentio) sofre interpretações diferentes. Quando é com homens é frescura, vontade de aparecer, caso de menor importância; pode até dar piada na mais vendida revista do país; quando é com relação a mulheres é tratado com a maior seriedade e ai de quem disser que bulimia é coisa de menininha mimada.
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Quanto à pesquisa da Catho... Estatística é um negócio engraçado: ao mesmo tempo é a melhor ferramenta para descobrir uma verdade e para ocultá-la. Me lembro sempre de uma matéria que lí na 'Isto É' que afirmava que diplomas de universidades públicas tinham o mesmo peso que os de universidades particulares. Baseava-se num dado estatístico: 48% dos contratados por empresas brasileiras no ano X eram diplomados em particulares. Esquecia de dizer qual era o total de formados nestas e naquelas, em que empresas, para quais cargos e com cujos salários um e outro grupo dominavam...
Nos comentários inseridos na pesquisa que você apresentou, Doni, leio que "Constatamos que existe uma quantidade maior de mulheres (46%) que estão empregadas em empresas de pequeno porte (com faturamento até R$ 15 milhões). É nesta faixa de faturamento que encontramos os salários mais baixos"; "Analisando o nível de cargo ocupado verificamos que as maiores porcentagens de ocupação por mulheres estão em níveis hierárquicos mais baixos que os homens."; "62% dos cargos de nível Administrativo são ocupados por mulheres, nível que ocupa o 11º lugar no ranking de Salários. [b]No maior nível salarial (Presidente) encontramos apenas 8% dos cargos ocupados por mulheres.[/b]"; "Verificamos que a quantidade de homens com mais empregos é superior ao das mulheres, logo podemos afirmar que os homens têm uma propensão maior a mudar de emprego, [b]o que implica na busca por maiores salários,[/b] dado representado abaixo pela maior diferença salarial entre homens e mulheres com mais de 4 empregos."
Foi por isso, Doni, que eu lamentei não termos a chance de analizar dados que refletissem somente o público sub-30 ou sub-35.
Porque grande parte dos dados da pesquisa pressupõem tempo, e em alguns casos:muito tempo, de carreira. E ninguém disse que há 30 ou 20 anos atrás as mulheres ainda não fossem vitimizadas. Eu digo que elas HOJE não são mais. Alegar que o fato de que um posto que exige 20, 30 anos de atividade administrativa (presidente de grandes empresas) ainda seja minoritário entre mulheres prova que a opressão ainda existe é como dizer que a poliomielite ainda não foi erradicada no Brasil porque ainda existem pessoas aleijadas por ela.
Outro comentário diz que "Quanto aos Ramos de Atividade Econômica constatamos também que a porcentagem de mulheres empregadas é maior em segmentos com média salarial mais baixa". O que pressupõe o efeito de as mulheres historicamente preferirem carreiras como pedagogia, comunicação... Porém este quadro está mudando: cada vez mais mulheres optam por carreiras mais lucrativas como administração ou física e não sofrem mais qualquer tipo de empecilho (oposição da família, piadas maldosas dos amigos) em relação a isso. Em algumas delas estão até se tornando maioria também (Direito, por exemplo).
Além do mais, meu pedido não foi satisfeito: "Sobre mulheres ganhando metade para trabalhar quase o dobro numa mesma empresa em cargos idênticos com escolaridade idêntica e tempo de serviço idêntico, ainda espero dados."
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Quanto ao meu vizinho a questão é: ELE é explorado?
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[i]Coerção deixou de existir assim que foi assinada a libertação dos escravos, certo?[/i]
Errado.
[i]Os negros deixaram de ser social e economicamente explorados? Óbvio que não. Apenas deixamos de ter o opressor identificado na figura de um senhor para termos toda uma estrutura social baseada no preconceito, que leva a diferentes oportunidades de estudo, trabalho, discriminação e que tais.[/i]
Certo.
[i]A opressão na questão feminina (...)está estruturalmente inserida em nosso dia-a-dia.[/i]
Errado.
O que distingue a divisão entre homens e mulheres na sociedade patriarcal e a entre brancos e negros na sociedade escravocrata (e o que fez com que uma conseguisse sua IGUALDADE PLENA em poucas décadas enquanto a outra em um século não deve ter passado do 1 numa escala de zero a 10) é o fato de que a divisão entre homens e mulheres não se percebia em estratos sociais. Os negros quando deixaram de ser escravos ainda estavam na classe F da piramide social.
R: Well, manter este debate aqui por tanto tempo já me faz acreditar que o post valeu a pena... O fato é: você acredita na IGUALDADE PLENA entre os sexos e eu não. Aliás, fico pensando na mulher negra, que acaba sofrendo duas vezes a tal opressão, uma opressão que vai muito além da questão econômica, diga-se. Você levanta questões importantes, mas realmente não consigo achar que as mulheres, como disse a pesquisa, ocupam na maioria cargos menos rentáveis apenas porque o espaço amostral ainda não mostra mudanças e conquistas recentes delas. Acredito sim que o mercado de trabalho, ainda dominado por machismo, as reserve a maior parte dessas vagas. Sobre a pesquisa, a da Catho é apenas uma, e provavelmente nem é a mais completa, mas já exemplifica bem sim o meu ponto.
Espero mais pessoas comentando esse post, e trazendo mais dados para a nossa discussão...
Enquanto a mídia for machista,as religiões forem machistas,a mulher estará sempre levando a pior,sendo considerada um ser inferior.Na sociedade o discurso pela igualdade entre homens e mulheres é lindo,mas na prática não é assim que acontece.A violência contra a mulher tem aumentado assustadoramente no mundo e no Brasil, porque o homem não sabe compartilhar ou dividir poder,ele quer mandar e pronto e se a mulher não obedece,ele a mata. O homem pode ser casado e galinhar por aí que a sociedade,fecha os olhos,finge que não vê,mas se é a mulher que age assim,é considerada vagabunda. Ela se comporta,se cuida,fica com um só homem e depois pega Aids dele. Pra que então,ter um comportamento austero? A mulher só se ferra.Muitos homens no Brasil ainda abandonam as mulheres grávidas,agindo como animais irracionais,para eles,os filhos são só da mulheres e não deles.Muita coisa precisa mudar.
Toda essa hipocrisia me dá nojo.
Eu acredito que a data, assim como tantas outras, serve para reforçar mais ainda as diferenças que a sociedade preconceituosa impõe.
Deixo aqui, como sugestão de leitura, uma matéria que aborda da luta pela igualdade da mulher no mercado de trabalho:
Dia Internacional da Mulher - A difícil arte do equilíbrio
http://opiniaoenoticia.com.br/interna.php?id=22393
Abraços a todos,
Luana Chaves
obrigado ass:Andresa brito de carvalho
Sergio
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