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E no fim...

Oh yeah, all right
Are you going to be in my dreams
Tonight?

And in the end
The love you take
Is equal to the love you make...

Abbey Road está no som, repetindo-se pela décima vez, mas ele não ouve. Os pensamentos giram acompanhando as pedras de gelo cada vez menores no copo, e o coração dele tem a mesma temperatura delas. Preparou o drinque há horas, mas ainda não bebeu, apenas olha. Ele sabe que saiu inteiro desta, mesmo que todo um pedaço dele tenha sido tirado, mas não consegue se sentir completo.

Na verdade, sente-se fracionado em pelo menos mais dois grandes pedaços e, mesmo não tendo bebido nada ainda, pode ver que os dois estão sentados com ele na sala. Um está sentado na poltrona mais próxima da árvore de Natal cheia de luzes. É jovem e tem os olhos verdes brilhantes, e está sorrindo de forma acolhedora.

Ele pode ler os pensamentos desse “eu” sorridente. O jovem está orgulhoso do que fez. Sente que agiu corretamente e que, afinal, amar é também permitir que a pessoa possa ser feliz, mesmo que em outro caminho; e que na vida é necessário saber libertar, deixar ir. Ele desvia os olhos por um momento do “eu” para a árvore de Natal, tão colorida, e sente esperança. Incrível como a esperança é quente e o faz sorrir também, pensando no futuro. Talvez o vazio tão grande acabe valendo de algo: uma lição ou a certeza de ter feito alguma coisa boa.

Vazio… E então ele olha para a poltrona mais afastada, que está no canto escuro da sala. O ocupante dela parece amargurado e envelhecido; o brilho nos olhos do outro é exatamente o oposto da cor apagada dos olhos deste. Percebe-se que esse outro “eu” chorou muito, pois seu rosto pálido ainda está bastante inchado. O sorriso foi substituído pelos lábios cerrados de raiva, de rancor. Sente que não lutou e que não brigou o bastante, que não fez tudo o que podia. Está claro que ele quer gritar e quebrar coisas. Ele é impulsivo e forte, mas o medo e o desconforto de estar sozinho o tornaram um fraco. Sente-se acabado.

Então ele esquece as frações e bebe o primeiro gole, suspira e olha para o teto. Ele sabe que fez o certo, mas entende muito bem a raiva do "eu" taciturno sentado no escuro. Pensa nos beijos, nos olhares, nas juras de amor, nos abraços que teve e nos que poderia ter, e sente felicidade e tristeza, alegria e dor. Será que o amor não é exatamente isso?

O “eu” jovem levanta-se e vai até o aparelho de som. Aumenta o volume. Está tocando The End agora. O ritmo é alegre. Oh yeah, all right, e aquela bateria, a guitarra… Mas era o fim da banda. Último disco. Mais uma vez a alegria e a tristeza apareciam juntas... Sabor de despedida.

O som é ensurdecedor, e agora ele ouve a música com atenção... And in the end, the love you take is equal to the love you make... Ele deixa escapar mais um sorriso e pensa que ela está bem e feliz em algum lugar, junto de alguém que também a ama, e que pelo menos ele conseguiu provar que amores que começam no carnaval sobrevivem sim à quarta-feira de cinzas. Quem sabe não existam também os que durem várias noites de Natal?

O “eu” que estava sentado no escuro levanta-se, resmunga qualquer coisa e vai pegar uma bebida.

Permalink18.12.07, 22:14:54, by Doni Email , Contos , 4 comentários

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Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com

Muito boa essa dualidade!

PermalinkPermalink 19.12.07 @ 10:24



Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/

Escrevi um continho com uma idéia parecida baseada em uma observação de um amigo meu. Somos cinquentões e ele comentou que o que eu via não eram meu amigos mas as cascas dos mesmos. A maioria fossilizou e se concede breves momentos de volta ao rock & roll.
Tudo isso para dizer que gostei imensamente do post.

R: é uma alegria saber que você gostou, Tina.

PermalinkPermalink 20.12.07 @ 18:33



Comentário de: eu

Quantos "eus" mais ainda estão escondidos??? Solte-os... é interessante... um dia, quem sabe, volto para ver a resposta.
Fui!

PermalinkPermalink 09.11.08 @ 17:30



Comentário de: Lótus · http://ofemininodolotus.blogspot.com

Eu espero que um dia meu ex consiga compreender que amar não é possuir. E sim, parece que aos poucos ele está deixando o eu sombrio ir embora. Ao menos parou de vasculhar meus emails, meus blogs, o histórico do meu computador...

PermalinkPermalink 27.01.09 @ 10:19



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