Os 10 maiores discos da música nacional - parte I
Um dia o Idelber resolveu fazer uma eleição dos 10 melhores discos da música brasileira, e eu fui um dos blogueiros participantes. Os critérios eram a relevância do disco em dois aspectos: o geral, da música popular como um todo, em sua importância histórica e coisas assim; e o pessoal, ou seja, como o disco se relacionava com sua vida. Minha lista original teve algumas mudanças desde então, e resolvi reeditar o post, em duas partes:
10. Clara Nunes - Claridade
A bela mineira Clara Nunes é praticamente uma instituição em minha família, já que temos o samba e os Orixás muito presentes em nossa casa. Não há viagem de carro sem um disco da cantora, e todos cantam juntos tanto os sambas tristes quanto as odes a Ogum e Iansã. Claridade (1975) é uma das obras primas da cantora que nos deixou em 1983, após uma cirurgia. Além do hino A Deusa dos Orixás (que sempre me arrepia quando ouço), temos nesse disco sambas clássicos de nomes como Candeia, Monarco, Cartola e João Nogueira. Se você ainda não gosta de samba, pode começar por aqui.
09. Milton Nascimento e Lô Borges - Clube da Esquina
Lô Borges tinha 17 anos quando cantou "Se eu morrer não chore não/ É só a lua/ É seu vestido cor de maravilha nua/ Ainda moro nesta mesma rua,/ Como vai você?/ Você vem, ou será que é tarde demais?", transformando Um Girassol da Cor do Seu Cabelo num dos momentos mais românticos e delirantes da música feita no Brasil em todos os tempos. Conheci o Clube da Esquina (1972) há bem pouco tempo, mas talvez seja o disco que mais ouvi. É uma mistura perfeita de Beatles, de jazz, de progressivo, de política; de América e de Minas Gerais; de amor e de filosofia. Sempre que o ouço me imagino sentado em uma varanda, numa tarde ensolarada daquelas que só existem no interior. Mas não se deixem enganar, é um disco que esconde, de forma singela, a universalidade da vida (mais mineiro impossível). SEMPRE choro ao ouvir Cais: "Para quem quer se soltar invento o cais/ Invento mais que a solidão me dá/ Invento lua nova a clarear/ Invento o amor e sei a dor de me lançar/ Eu queria ser feliz/ Invento o mar/ Invento em mim o sonhador".
08. Chico Buarque - Chico Buarque (1978)
Se você é casado e mora no Rio, melhor não comprar discos do Chico, pois corre o risco de ver sua mulher tomando banho de mar com ele em capas de revista. Deixando as brincadeiras de lado, é para mim o nosso maior letrista. O artista perfeito teria os arranjos de Jorge Ben, as letras do Chico, a voz do Tim Maia e a aparência do Felipe Dylon (senão não venderia nada, é claro). Falar em melhor disco do Chico Buarque é complicado. Foi difícil escolher apenas um, quase tanto quanto foi escolher o dos Mutantes. Escolhi o que tenho ouvido mais, sem nenhuma comparação com outros. O destaque aqui está para músicas que fizeram parte da Ópera do Malandro, principalmente Pedaço de Mim. A curiosidade é que essa música é um dos primeiros registros em disco da Zizi Possi.
07. Ira! - Vivendo e Não Aprendendo
"Quando me sinto assim/ Volto a ter 15 anos/ Começando tudo de novo/ Vou me apanhar sorrindo." O Ira! sempre foi minha banda favorita daquela geração anos 80. Era para mim a que melhor representava como era ser jovem na cidade grande, de uma maneira bem paulistana. Hoje ela ainda representa bem o que é ter 20 e muitos anos e viver em uma metrópole, apesar dos acústicos e afins. Vivendo e não aprendendo (1986) já diz muito sobre mim no título, e mais ainda em hinos como Casa de Papel, XV anos, Pobre Paulista e na minha preferida Nas Ruas. Não foi eleito disco do ano em 1986 porque concorria com os ótimos Cabeça Dinossauro dos Titãs e Que País é Este da Legião Urbana, mas bem que merecia.
06. Tim Maia - Racional Vol.01
Racional (1974) é uma obra dividida em duas partes, dois LPs lançados em 1974 e 1975 se não me engano. Não consigo separar os dois volumes, mas o fiz aqui para caber na lista. Tim Maia era dono da melhor voz da nossa música, mas também era o maior porra-louca e, em meio ao desespero e dificuldades pelo envolvimento com drogas, conheceu a filosofia da Cultura Racional, "que não é filosofia nem seita nem religião, mas é coisa fina, é coisa boa." Juro que se alguém conseguir me explicar o que é a Cultura Racional ganha meu respeito para todo o sempre, e se for mulher, eu faço o pedido de casamento na hora! Moro em Embu das Artes, que também é um pólo atrativo de malucos, e vivo colecionando folhetos de participantes desta coisa que não é filosofia, nem religião e etc. Um dia Tim Maia percebeu que também não entendia porra nenhuma da tal Cultura Racional e retirou os discos do mercado. Também impediu o lançamento dos mesmos em cd e morreu sem mais tocar no assunto. Mas enquanto estava doidão, fez um panfleto musicado para divulgar o conhecimento recém adquirido, sem imaginar que estava compondo o maior disco de Black Music já feito em terras tupiniquins e um dos melhores do mundo. Rivaliza fácil com os maiores discos de funk e soul da história, e quem tiver a oportunidade de ouvir vai saber do que estou falando.
Para ver a parte II, com os 5 primeiros colocados, clique aqui.
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E podemos acrescentar que um dos melhores tributos feitos a Clara foi o disco da Alcione, também chamado Claridade.
Não estou brincando não, faltou mesmo...
E também Renato Russo...
Paul
Quanto ao Racional, diz a lenda que o Tim já tinha as músicas antes de entrar na onda, e as bases jogando a doideira em cima. Será que procede? Se procede, o que seriam das letras com o Tim fora da pira? Pedradas românticas? Fica a pergunta.
R: André, eu acho que a lenda procede sim, ao menos para boa parte das músicas. Difícil dizer o que teríamos sem a viagem louca da Cultura Racional, e infelizmente nunca saberemos, mas realmente não vejo boa parte daquelas músicas funcionando sem um "leia o livro" hahaha
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