A música perfeita é como um furacão
Ficaria tudo tão mais fácil se houvesse uma receita para se fazer a canção perfeita, não é verdade? O compositor simplesmente abriria um livro obscuro, apenas disponível para uns poucos “iniciados” na arte da boa música, e então leria os requisitos necessários para a mais bela canção:
Once I thought I saw you in a crowded hazy bar,
Dancing on the light from star to star.
A canção perfeita precisa, óbvio, de ao menos uma frase perfeita. É preciso que seja uma metáfora absolutamente bela, que remeta o ouvinte a um mundo de sonho e delírio. E há de ser um delírio apaixonado, é claro, porque as melhores histórias – e na música não poderia ser diferente – envolvem paixão. Uma boa idéia para começar seria colocar uma mulher misteriosa e bela entre os astros ou, ainda melhor, acima deles. Podemos fazê-la pisar os astros, distraída, ou podemos vê-la dançando sobre a luz, indo de estrela em estrela.
Far across the moonbeam I know thats who you are,
I saw your brown eyes turning once to fire.
Mas não pensem nesta mulher como uma figura etérea, divina e distante demais de nossos desejos mortais. Ela tem belos olhos castanhos que em alguns momentos tornam-se fogo!
You are like a hurricane
Theres calm in your eye.
And Im gettin blown away
To somewhere safer where the feeling stays.
I want to love you but Im getting blown away.
E o delírio continua. Apaixonado, ele a vê como um furacão. Sabe que esta paixão é um turbilhão perigoso de sensações e de emoções que podem simplesmente tragá-lo, mas ele também conhece o prêmio, a calma que só pode ser encontrada nos olhos desta mulher, e então ele continua tentando.
I am just a dreamer, but you are just a dream,
You could have been anyone to me.
Before that moment you touched my lips
That perfect feeling when time just slips
Away between us on our foggy trip.
E ele o faz porque acima de tudo é um sonhador. É parte importante da receita: a música perfeita sempre tem um sonhador, um louco que não pode se conformar com a realidade fria da vida lá fora. Ele pode não entender o mundo, mas o toca com toda a intensidade que sua alma permite, mesmo que em tantos momentos ele se sinta como que em uma foggy trip.
E é a hora do solo de guitarra. Muitos estudiosos têm dúvidas sobre este item. Alguns acham que este solo é desnecessário e inútil, outros que ele deve ser o mais rebuscado e técnico possível. Tolos! Esta canção perfeita tem o mais belo e mágico solo de guitarra da história porque houve o momento no qual as palavras não seriam mais o bastante para transmitir tudo aquilo que explodia no coração do intérprete. O som não é uma exibição de técnica mas um grito desesperado, um pedido de ajuda composto por notas que se encaixam perfeitamente, não existe a maior velocidade possível, nem notas a mais ou a menos, mas apenas a melodia que nos coloca dentro do furacão, tão próximos e tão absurdamente distantes da paz.
You are just a dreamer, and I am just a dream.
You could have been anyone to me.
Before that moment you touched my lips
That perfect feeling when time just slips
Away between us on our foggy trip.
You are like a hurricane
Theres calm in your eye.
And Im gettin blown away
To somewhere safer where the feeling stays.
I want to love you but Im getting blown away.
Confusão. No limite, a vida nos envolve nesta névoa toda, durante uma viagem da qual não conseguimos ver o fim. Simplesmente não há horizonte para olhar, já que todas as imagens são difusas. A voz suplicante, misturada à guitarra que grita seu lamento em forma de distorção, nos dá a música perfeita. O que temos aqui, em uma palavra, é intensidade. Não há outro jeito de se fazer música ou de se viver a vida.
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