Porque não vou a shows de "dinossauros" do Rock
Quando escrevi sobre o Jethro Tull eu disse que não ia a shows de "dinossauros", e o leitor Mário Marinato pediu que eu me explicasse, perguntando se eu deixaria passar shows de nomes como Rolling Stones, Elton John, Iron Maiden, Eric Clapton e Mark Knopfler. Já que muitas pessoas sempre me perguntam sobre isso, resolvi explicar:
Imagine-se fazendo compras no supermercado, distraidamente. Você vê aquela maçã vermelhinha e, ao tentar pegá-la, percebe que sua mão a disputa com outra mão, que surpreendentemente não é estranha a você. Ao levantar os olhos você a vê: Lurdinha, o seu grande amor da adolescência. Trata-se da mulher que, 20 ou mais anos passados, te ensinou tudo sobre as delícias do amor e os prazeres do sexo. Você sente então aquele frio na barriga, intensificado por um papo que rola descontraído e por uma proposta tentadora: ela diz estar solteira novamente e te convida para um encontro do tipo Lurdinha Revisited, prometendo ser a mesma mulher de antes, talvez melhorada, e que vocês irão reviver todos aqueles indizíveis prazeres de antes.
A verdade? Tal encontro pode até ser bem sucedido, sempre é possível. Mas você irá topar e depois perceber que tudo ficou com cheiro de coisa requentada. A mulher nua que dorme ao seu lado é maravilhosa, mas não é aquela que um dia te fez "pagar mico" fazendo uma serenata. Você percebe que tinha as melhores lembranças possíveis daquele amor, lembranças que te faziam suspirar; mas agora sente apenas o gosto amargo de um encontro que não deu certo, e nem poderia. Ora, mudou Lurdinha e mudou você. Novos amores, novos interesses e experiências, outras vidas. Você não é mais aquele, não mais se apaixonaria por ela, e percebe que só topou o encontro para alimentar um sentimento de nostalgia. Óbvio que você não deveria esquecê-la, e nem conseguiria, mas era melhor ter deixado tudo no campo das boas lembranças.
Bem, o Roger Waters é uma Lurdinha para mim, assim como o Aerosmith e o Rush e tantos outros; todos Lurdinhas! Amo o Classic Rock e o Rock Progressivo, sou apaixonado pelo Glam Rock dos anos 70 e pela British Invasion dos anos 60, só para citar alguns exemplos. Bandas como Yes, The Animals, Pink Floyd, The Who e Led Zeppelin são fundamentais para qualquer ser humano que se disponha a gostar de música. Mas ir a shows deles? Não, obrigado, pois isso seria um duplo engano. O artista, que salvo exceções (David Bowie, por exemplo), não fez nada de relevante nos últimos 30 anos, se alimenta da tietagem dos fãs e se engana revivendo, ao menos por instantes, as glórias do passado. O fã se engana ainda mais, pois vai em busca de um artista que não existe mais, querendo experimentar sensações que só seriam possíveis em 1972.
Fico preocupado quando vejo um garoto na rua com uma camisa do Iron Maiden, dizendo que aquilo sim era Metal, e que não se fazem mais músicos como antigamente. Conversa de avô! Eu chamo isso de culto ao Classic Rock. Trata-se de um culto ao passado, algo que bate diretamente contra o que era a filosofia original do Rock, a de ser um movimento libertário, de desafio ao stabilishment. Nada poderia ser mais alienante que viver voltado para o passado. Você deixa de viver seu momento na história, deixa de perceber e apreender o mundo que te cerca em nome de experiências que não experimentou e não experimentará nem de perto. É alienar-se de si mesmo!
Conheça os clássicos, ouça muito Deep Purple e AC/DC, assista Escola de Rock e vá atrás de todas as referências que aparecem no filme, mas deixe de ser preguiçoso e vá também atrás do novo. Ouça web rádios, entre em sites especializados na nova música e compre discos de gente que você ainda não conhece. Vá a shows que podem te surpreender (aconteceu comigo e o Flaming Lips). Nessa hora fico orgulhoso do meu pai, um fã do Elvis que não tira do player do carro o maravilhoso disco novo do Wilco. É assim que se faz.
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Comentários, Trackbacks:
R: Robson, eu concordo com você... O problema é quando a pessoa vive voltada para o passado, como eu disse.
Contudo, senti mais prazer vendo Strokes, Franz Ferdinand, We Are Scientists, Bravery e por aí vai...
Um beijo, Doni.
Doni, a musa do "óasis de Copacabana" também tem que ser com L, viu?
Exatamente o que eu penso. Qdo ví Rollings Stones em 98 no Rio, nunca tinha ido a um show deles.. e foram eles mesmos lá.. agora, qdo o Supertramp fez um show.. não faz muito tempo, aqui em BH, nem quis ir.. como vc disse.. quem ia fazer a voz dos que não estavam mais lá? Fala sério...
Quem viu, qdo existia o origianl, viu.. quem não viu, só verá repaginação, e com papel reciclado.. rsrs
Beijocas
É triste ouvir de jovem a frase: “Não se faz música como antigamente”.
É triste pensar que não há qualidade nas novas músicas.
Doni, acho que tu é um romântico. Não concordo contigo, apesar de concordar com o argumento.
R: já fui a alguns bons shows de bandas antigas também... Só aconteceu que não sinto mais essa "necessidade de ao menos ter visto uma vez meu ídolo", entende?
Passei pra dizer que as coisas estão se ajeitando em casa. Outra hora passo com mais calma. Bjs
eu gosto de coisas velhas, de novas, de meio velha meio nova, de meio nova meio velha, vou a todos os shows novos e velhos, dinossaurozinhos, dinossaurosão (?), lagartos e camaleões e é isso ae \o/
:*
R: hahaha Eu que sou esse meio novo meio velho lagarto camaleão adorei a sua resposta!
sim, sim, quando a gente tem filhos pensa muito nisso.
Abraços.
Aplicado isso a tudo, seria nunca mais ir a um show de música clássica porque quem está na batuta não é o Mozart... ou nunca mais ir assistir ao Oscar Peterson porque ele agora toca num quarteto e não mais no seu famoso trio.
Pra mim, isso soa como condenar o passado a um museu, ao invés de trazê-lo para o presente e deixá-lo vivo, entre nós. Paulinho da Viola tem uma bela frase sobre isso: "eu não vivo no passado; o passado é que vive através de mim".
R: é um bom comentário... Mas eu concordo sim com a idéia de que não devemos deixar o passado "esquecido". Minha crítica é a quem valoriza o passado apenas, dizendo "só no meu tempo é que era bom" hehe
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