Estranhos prazeres
A convidada deste sábado para escrever sobre Hedonismo é a amiga Daniela Castilho, do blog MadTeaParty. Trata-se de um dos primeiros blogs que passei a ler regularmente (está há 4 anos no ar):
Nós nos conhecemos há mais de uma década. Ele vem aqui todas as quintas-feiras para tomar chá comigo. Fazemos sempre a piada de citar Chesterton, e meu amigo se tornou o Homem das Quintas-Feiras.
A quinta-feira tornou-se um dia especial. Preparo sempre algum bolo e algum biscoito, com manteiga fresca, para acompanhar o chá, sempre algum chá novo e exótico, que mantenho seco e bem conservado em latinhas, como minha avó fazia. Algumas tradições são necessárias.
O aroma dos bolos e biscoitos assando são meu primeiro prazer. O sol entrando pela janela da cozinha refrescada, meu segundo prazer. Coloco música, fico balançando ao som, sentindo os aromas de canela, baunilha, cravo, mel, o que eu usar para dar um toque especial nos biscoitos.
Por volta de meio-dia, faço meu lanche, acompanhada pela minha gata-preta-de-bruxa. Depois, um longo banho de banheira perfumado. Fecho os olhos, mergulhada na água da banheira, sentindo o cheiro de aloe vera que sobe da água quente em ondas.
Escolho as minhas roupas baseada na discreção. Não quero ser o centro da atenção, tenho chá verde com laranja para hoje, um bolo de mel e castanhas e biscoitos de nozes. Eu não sou o motivo da tarde e tenho consciência disso. Saio do banho, me olho no espelho, seco os cabelos. Meus olhos têm estrelas. Até hoje imagino se alguém vê refletido nos meus olhos os segredos do meu universo particular. Acho que não.
Eu me visto, a gata entra no guarda-roupa. Tiro a pequena de lá, sigo para a sala. O relógio de meu avô bate a hora. Detesto o badalar desse relógio, o único horário que deixei programado é o das cinco horas. Chá de quinta-feira, cinco horas. É quase literatura.
Meu amigo toca a campainha, pontual. Coloca o chapéu no cabideiro. Me dá seu casaco pesado para eu pendurar. Homem maduro, viajado, lido. Senta-se, sorri, eu sirvo o chá e ele começa a conversar comigo.
Eu seria mais precisa se eu dissesse que ele fala, eu escuto. Sempre deixo-o falar e falar. Ele não sabe, mas meu prazer secreto é assisti-lo falar. Eu escuto a quantidade necessária para comentar apropriadamente no momento correto.
Sabem, eu tenho um segredo. Eu sou uma criatura sinestésica.
Meu amigo fala e eu o assisto. Ele é todo feito de ondas vermelhas, os olhos brilham até no escuro. Ele fala e eu vejo transbordar a paixão que ele sente pelos temas sobre os quais está falando, pelos olhos e nas expressões do rosto. Dependendo do assunto, ele solta emanações vermelhas, faíscas brancas, fagulhas azuis, ondas roxas. Eu assisto, assisto. Queria fotografar para ele se ver através dos meus olhos, mas ele jamais permitiu. Pena.
A hora passa rápido. Meu amigo se despede, pega o casaco e o chapéu. Eu pego a gata do chão. Nos despedimos com um abraço fraterno.
E essa noite, não conseguirei dormir, ouvindo música, comendo biscoitos com mais chá e rememorando todas aquelas luzes e cores que meu amigo emana.
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Comentários, Trackbacks:
Senti o cheiro dos biscoitos, do bolo, a quentura do chá.
E me perdí nas cores ee aromas.
Perfeito.
R: O texto está mesmo uma delícia não é verdade? Um artigo "cinematográfico" acima de tudo, que lida com todos os nossos sentidos...
R: O Chá é quem faz aniversário, mas nós ganhamos o presente, Dani. Obrigado.
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