O Pastor
A convidada deste sábado para a série de textos "hedonistas" fez aniversário ontem, dia 09, e este blog é quem ganha o presente. Renata Maneschy, do Kit Básico da Mulher Moderna, é um dos exemplos mais próximos que tenho de mulher linda, inteligente, independente e (a rima é involuntária) atraente! Minha amiga mandou o texto abaixo hoje, 5 da manhã, minutos antes de voar para a Chapada Diamantina. Obrigado, querida!
Ele não bebia e não cheirava. Era casado e fiel à sua esposa e ao seu melhor amigo. Não, ele não era homossexual. Ele era um homem de fé. Acreditava no todo poderoso, no onisciente, onipresente e onipotente Deus e em Seu filho. Não andava com a Bíblia embaixo do braço até porque não precisava, conhecia a Palavra de cor e salteado. Ele não era feliz mas acreditava que um dia seria, no Paraíso, e isso era o suficiente.
Diariamente, convivia com as tentações do mundo e, como bom pregador, não as afastava. "A luz deve chegar aos que estão nas trevas", dizia. Chegou a evangelizar alguns pobres pecadores e os transformou em ex-alcoólatras, ex-gays, ex-putas... Até o dia em que acordou sem fé, brigou com o seu melhor amigo e passou a ser um ex-crente.
"Aerials, in the sky, when you lose small mind, you free your life."
Ele abriu a porta de sua antiga casa e de sua mente. O próximo passo foi fechar a porta de seu passado e começar a sentir uma mistura de medo e alívio. Paralisado no corredor escuro de sua vida, não tinha sonhos nem desejos. Ele só pensava em tudo o que perdeu e no vazio que estava por vir.
Sentado no chão de um apartamento vazio, sem móveis, tinha apenas a companhia de seu novo melhor amigo, Nietzsche, e em silêncio repetia: "Deus está morto, Deus está morto, Deus está morto." Ele mesmo quase se sentia assim. Chegou a olhar a vista do quarto andar com os olhos embaçados mais de uma vez. O luto trouxe uma dor insuportável.
Sua quase morte o levou do princípio da realidade ao princípio do prazer em poucos meses.
"Give me the first taste. Let it begn, heaven cannot wait forever.
Darling, just start the chase."
Não tem como chegar ao céu sem passar pelo purgatório. Não há prazer antes da dor. Era chegada a hora da gratificação. Ele ansiava por algo que nem sabia o que era mas que certamente existia. Assim como um adolescente recém-autorizado pelos pais a cair no mundo, ele se encantava com pequenas coisas, absolutamente singelas, de enorme importância. Pequenos prazeres em todos os sentidos.
Livre das algemas da consciência, descobriu bandas do passado no século seguinte. Assistiu e colecionou filmes para maiores com poucas falas. Bebeu cerveja, vinho, vodca e whisky. De padawan virou mestre e, assim como em um filme, foi corrompido pelo lado sombrio. Ele gostava dela mas estava apaixonando por ele mesmo. Sua santíssima trindade não era mais formada pelo Pai, nem pelo Filho muito menos pelo Espírito Santo. Sua nova trilogia era formada por uma variação da clássica "sexo, drogas e rock´n´roll": sedução, sexo e prazer.
Conheceu o prazer de saborear o resto de alguma bebida amarga misturado ao suor da sua pele. Sentir um arrepio na nuca ou frio na espinha depois de um gemido que escapa antes, durante ou depois de um sorriso. Sussurrar suas preces a alguma fiel seguidora prostrada diante do altar que é a sua cama: "Tomai e bebei..."
"All you women, come along with me. I wanna show you how good a bad boy can be."
Sem amarras, chicotes, submissão ou dominação, somente um profundo sadismo, vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana, ele virou um escravo de sua própria liberdade. De tanto querer, sempre e sempre querer mas ainda querer sempre, até mesmo sem querer, este primo de Narciso se olhou no espelho, alguns anos depois do encontro de seu coração com Medusa, e não se surpreendeu com o que não viu.
Incontestavelmente vazio, como um copo furado ou algum litro de leite derramado pelo chão da cozinha que não chegou a ser pintada, ele já não sabia mais o que queria. Só sabia que queria.
Foi visto pela última vez num céu ensolarado de sexta-feira caindo em queda livre.
"I can´t get no satisfaction, but I try…"
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Tata, você arrasou!
Quando se represa por anos um rio, basta um descuido para que ela arrebente.
Nada me dá mais medo do que os certinhos. Nada é mais certo do que a escravidão do absoluto.
Belíssimo texto!
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