Carta ao filho
Um dia qualquer de 1982:
- Pai, é verdade que o Pelé é o maior jogador do mundo? Melhor que o Zico? Melhor que o Chulapa?
- É sim, Marcos. O melhor que já existiu. Eu ia a muitos jogos do Santos apenas para vê-lo jogar.
- Jogos do Santos? Mas você não é são-paulino, pai?
- Sim, meu filho. Sabe que sou um apaixonado e quando não tinha dinheiro entrava pela tubulação do Morumbi em construção para ver os jogos. Mas o bom futebol é mágico. A jogada que sai dos pés de um jogador imortal está acima das nossas paixões. Aliás, guardei para você um jornal do dia em que Pelé jogou a última partida pelo Santos. Sabia que você ia gostar de ler, pena que acabei perdendo o exemplar.
- Mas eu nem tinha nascido!
- Marcos, às vezes sabemos algumas coisas sobre nossos filhos mesmo antes de eles nascerem. Sentimos. E no seu caso eu realmente acertei. Mas vamos brincar lá fora com sua bola nova que amanhã vou te levar ao Morumbi.
Meu filho. Naquele dia em poucos minutos minha bola foi morrer debaixo dos pneus de um caminhão e fui dormir chorando. Lembrei durante anos, com saudade, da minha bola de couro novinha que não sobreviveu nem um dia. Mas outra coisa ficou daquela tarde. Desde então passei a colecionar pedaços do mundo para você. Tudo bem, pode ser que de início nada disso te interesse. Sei que para os jovens o mundo começa a girar no dia do próprio nascimento, mas não demora e você percebe que pegou um bonde andando e que vai precisar entender os caminhos para os quais ele está te levando. Bem, meu filho, uma das maneiras de fazer isto é conhecer o passado. Entender emoções e idéias que ficaram para trás, mas que podem te dizer muito sobre a vida e sobre você.
Comecei em 1985, juntando pôsteres e a revista Placar contando tudo do título paulista do São Paulo FC sobre a Portuguesa de Desportos. Dormia com a revista sob o travesseiro e pensava se depois do ano 2000, quando você já existisse (eu achava que já existiria), você iria gostar do presente. Desde então guardo os jornais falando de acontecimentos importantes, destes que com certeza vão mudar o mundo no qual você viverá um dia. Guardo também livros. Li boa parte do que existe em minha estante em bibliotecas, devolvia os livros depois mas dava um jeito de, com o tempo, juntar dinheiro e comprar um exemplar para deixar aqui para você. Minha estante está cheia de livros novinhos, em edições nas quais jamais toquei porque são suas. Meus discos também são seus. Temos tantas músicas para ouvirmos juntos. Há tanto que quero te mostrar, meu filho!
Ah, também vou deixar para você meu maior tesouro: toda minha coleção de gibis do Batman, além das Obras Completas de Carl Barks. Foi falando com um amigo sobre elas que tive a idéia de te deixar esta carta. Você ainda não está aqui. Eu ainda sou o filho desta história, mas já te sinto como um pedaço de mim…
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- Ah, ninguem importante, filhao... Vamos la jogar Winning Eleven 39...
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